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Samuel Correia usa a música como arma contra o ‘bullying’ e a depressão

Com apenas 16 anos, Samuel Correia editou, em outubro de 2020, o seu EP de estreia, “Reticências”, onde vinca a ligação da sua música a temas como a saúde mental e relações interpessoais, numa simbiose entre a pop e baladas acústicas.

Foto: Paulo Ramos /DA

“Quando gravei a primeira música, em janeiro do ano passado, nem se falava em Covid”, recorda Samuel depois de convidado a olhar para o processo criativo. “Naquela altura queria editar um álbum em novembro, mas chegou a pandemia e tive de parar”. “Não lidei nada bem com isso e fiquei em casa sem conseguir gravar nem cantar uma nota. Não conseguia pura e simplesmente”, recorda o cantor, compositor e pianista.

O disco saíu mas três meses volvidos após a sua estreia, o artista viu-se obrigado a suspender a sua tour e a confinar de novo. Após algum tempo fechado em sua casa, o jovem cantor de Souto, Santa Maria da Feira, regressou ao seu estúdio, em casa dos pais, e abandonou temporariamente as redes sociais para lutar por si, pela sua sanidade mental e focar-se em tornar o “vazio” em que todos vivemos em música. Assim nasceu o novo single “Vazio”, um tema cantado num tom melancólico e introspectivo, uma curta viagem pela mente de Samuel, que retracta alguns dramas do seu passado e chama o público à atenção para as doenças da saúde mental, doenças estas que cada vez mais ganham terreno na sociedade.

“Durante alguns anos, enfrentei uma depressão e a música foi sempre o meu porto de abrigo onde me refugiei e onde encontrei a minha estabilidade emocional, daí defender esta causa com todas as minhas forças, pois acho esta temática subvalorizada e ainda tabu para uma parte da nossa sociedade”. Samuel assumo este tema como uma canção “melancólica e introspectiva”, como se fosse uma pequena viagem pela sua mente às três da manhã depois de ver um episódio de “13 Reasons Why” ou de relembrar o ‘bullying’ e a depressão que enfrentou há alguns anos atrás.

Foi a música que o ajudou a ultrapassar essa fase. “Ela foi ocupando um lugar especial na minha vida à medida que fui crescendo. Tornou-se na minha melhor amiga quando comecei a ter problemas de ‘bullying’. Foi na música que me refugiei e foi ela que me salvou”, confessa Samuel Correia.

A primeira vez que se apresentou ao vivo foi numa festa de escola em 2015 e desde aí tem vindo a aprender e a crescer como músico e artista. Actualmente estuda piano e canto na escola de música Oliveira Muge, em Ovar, e está a tirar um curso de produção e composição musical no Conservatório de Música da JOBRA, na Branca, Albergaria-a-Velha. “A JOBRA marca um ponto de crucial viragem na minha vida, porque senti-me, pela primeira vez, verdadeiramente livre enquanto pessoas e artista”, em contraponto com o que sucedia com ensino regular, no qual “nunca me senti incluído ou compeendido”.

Motivado, foi encontrando a sua sonoridade. “Mesmo com equipamento muito básico, já tinha feito muita investigação na Internet e tudo de tornou mais fácil”. E, muito importante: “Encontrei amigos que me deram força para avançar com as minhas músicas”.

“Vazio” de transição
“Vazio” embora seja um tema delicado, tem essa mensagem forte e quer sensibilizar as pessoas para as doenças da saúde mental e sua importância pois cada vez afectam mais pessoas. É também, segundo o cantor, “uma música de transição e os novos temas que estou a compor vão mostrar um Samuel com menos medos e menos filtros mas ao mesmo tempo, a conseguir passar melhor a sua mensagem”. “Cresceu, acho eu”, acrescenta.

Embora tenha os seus ídolos, Samuel quer descolar-se. “Quero ser diferente, porque já há um Diogo Piçarra e um Fernando Daniel, por exemplo”. Ele tem a certeza de que vai chegar lá sendo diferente destes e sem pressas. “É uma viagem gradual. Sei que faço Pop, mas não me identifico com o que se faz, actualmente, que é sem emoção e muito robótico”.

Link digital: https://linktr.ee/osamuelcorreia

Ansioso por estrear
canções em palco

Com o anunciado desconfinamento, o jovem artista feirense anseia voltar aos palcos com a sua banda e retomar a sua tour. “Espero que possa entrar em tournée muito brevemente, porque temos as músicas todas prontas e ensaiadas para entrar em palco”. Estamos prontos e ansiosos para ir para a estrada”, avisando que “ao vivo, tendo a ser mais pop rock e mais jazz”.

Só depois de levar o EP para a estrada é que Samuel Correia começará a pensar no lançamento do novo álbum que será um projecto multidisciplinar, “mas não posso adiantar muito mais para já, pois ainda é bastante cedo”. Admite estar a trabalhar em músicas novas, sendo que a primeira amostra desse novo conjunto de canções é “Vazio”. Mantêm-se as suas marcas, como a melancolia do piano, a emoção angelical da voz e o poder de uma pequena orquestra, embora virtual. “Sempre quis fazer originais e a tecnologia deu-me esta vantagem de poder gravar no cantinho do meu quarto. Ela tira-nos muita coisa mas dá-nos esse conforto”.

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