Opinião

Sensibilidade – Henrique Gomes

Cada fotografia tem uma vida própria, uma vida para além daquilo que conseguimos ver retratado.
É por larga maioria o triunfo dos pixéis sobre a minha cada vez mais imaginativa visão- o produto final da máquina impõe-se sobre uma vista que começa a pedir reforço artificial.

Contudo, na minha memória ficam registadas outras entidades que são inalcançáveis, de impossível tradução em formato pixel ou passíveis de guardar em minúsculos e dentados cartões.
Por exemplo, nesta fotografia não são audíveis os latidos dos cães que, temerosamente, ecoam entre os pinhais e juncais. Estes canídeos são os habituais supervisores das redondezas e desconfiam perder a sua tutela, caso a minha presença se mantenha.

Ladram em coro, sprintam, olham para mim e entreolham-se como que procurando coragem no parceiro.
Os seus donos já se habituaram à minha presença e esperam que o sol caia rapidamente – tal fenómeno normalmente coincide com a minha partida. Ninguém se sente a mais, existe apenas uma presença anormal e isso faz toda a diferença.

Avanço por entre charcos e odores característicos de zonas onde se faz a criação intensiva de gado- o intenso vento norte torna suportável a minha aproximação à exploração agrícola.
Sombras rápidas e duvidosas são percecionadas pelos olhos mas são incaptáveis pela hiper sensível Canon – algo suficientemente grande se moveu e se aproximou de mim e isso também foi audível.

Não dou importância às sombras e aos alertas sonoros e tento alcançar o ângulo desejado para a fotografia- continuo a disparar em direção ao sol e ao âmago da aldeia.
Por fim, e após vários tropeções, deixo de olhar para o horizonte e baixo o olhar – hesito e tento perceber se o que estou a ver é um coelho de tamanho médio ou uma ratazana de tamanho gigante.

Dúvidas rapidamente desfeitas pelo comportamento agressivo do roedor – sensível ao teor do aviso, faço uma retirada estratégica que por mero acaso coincidiu com o desaparecimento do sol.

Henrique Gomes (texto e foto)

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