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SV Pereira: Prémio Jovem Agricultor lança críticas às autarquias

Cláudio Rocha recebeu o Prémio Jovem Agricultor 2015 das mãos dos ministro da Agricultura, Capoulas Santos, uma distinção que surgiu no âmbito do Prémio Nacional de Agricultura que foi entregue em Janeiro, em Lisboa. O agricultor de São Vicente de Pereira, Ovar, fundou a FormigaLeite, em 2009, uma exploração agrícola dedicada, como o próprio nome deixa antever, à produção e venda de leite, criação de bovinos para produção de leite, compra e venda de bovinos e exploração de terrenos agrícolas. Cláudio Pinto Rocha conta que o seu projecto começou numa exploração antiga, mas depressa entendeu que devia dar um passo em frente e investir no futuro. Em especial, “investir na tecnologia, de forma a rentabilizar a exploração”.

A FormigaLeite arrancou em 2012 com o processo, no sentido de melhorar as suas condições, investindo em tecnologia de ponta, e hoje tem instalados sistemas de ordenha robotizada, limpeza automática e alimentação automática dos vitelos. Todos os 250 animais da exploração são monitorizados em permanência, dos quais 120 produzem 4.100 litros de leite por dia. A unidade de produção cultiva 22 hectares de terra, produz milho e azevém anual e ainda tem contratos com outros agricultores que deixaram de ser produtores de leite mas mantêm a produção de forragens. Na campanha de 2015, a FormigaLeite atingiu já os objectivos propostos pelo Proder – Programa de Desenvolvimento Rural (2014-2020) para apenas daqui a quatro anos.

O Prémio Nacional de Agricultura 2015, foi entregue, em Lisboa, em Janeiro último, e é uma iniciativa do BPI, Correio da Manhã e do Jornal de Negócios, com o patrocínio do Ministério da Agricultura e do Mar e o apoio da PwC.

Receber o prémio “foi um orgulho e, simultaneamente, o reconhecimento do esforço dos últimos anos”, disse Cláudio Rocha. “Fazer um investimento destes nos dias que correm não é fácil e a burocracia dá-nos cabo da cabeça ainda antes de começar”, criticando que “é ela o principal inimigo de qualquer empresário que queira investir neste país. É um exagero”.

Um milhão de dores
de cabeça

O jovem agricultor de São Vicente de Pereira investiu mais de um milhão de euros na sua propriedade, tendo obtido um apoio que andou na casa dos 30 por cento. “Mas depois há muitos investimentos que não estão contemplados no âmbito do Proder, nomeadamente, a aquisição de animais, licenciamentos, ou seja, 7 por cento do que aqui está investido foi gasto em licenças”. O que passou, leva-o a questionar “como se pode falar em falta de investimento no nosso país quando os licenciamentos custam uma exorbitância? Como pode haver tanta burocracia, licenças e formulários que somos obrigados a preencher e a pagar que, no final, de nada servem para o desenvolvimento da actividade?”, continua no mesmo tom.

Cláudio Rocha passou sete anos a batalhar, a correr com papéis de um lado para o outro. “Um projecto desta natureza obriga a apresentação de dois desenhos de arquitectura, um para apresentar na Câmara Municipal de Ovar e outro completamente independente para apresentar no Proder”, recorda. “Projectos que são caríssimos e obrigam a muito trabalho, muitas entidades a darem pareceres”- só para o licenciamento da exploração são 12 ou 13 entidades chamadas a emitir pareceres. E pior: “Basta uma engelhar para tudo ficar comprometido”.

Recapitulando a história, a empresa foi criada em 2009, o processo foi submetido ao Proder em finais desse ano. Nessa altura, já Cláudio Rocha tinha dado entrada com o processo na Câmara Municipal de Ovar, onde esteve até finais de 2012 e inícios de 2013, “altura em que recebi ordens para avançar, pois o Proder já ameaçava com o cancelamento do apoio”.

À semelhança do que sucede com a maioria das as câmara municipais do distrito de Aveiro, Cláudio acusa a autarquia de Ovar de se esquecer da agricultura no PDM, nos últimos 30 anos. “Não se lembram que a agricultura movimenta muita gente nesta região”, lamenta o agricultor, adicionando, para se ter uma ideia, que “a empresa a quem eu vendo o leite, recolhe metade do que é produzido no concelho de Ovar e fala-se num volume na ordem dos 12 a 14 milhões de litros por ano”. “O sector agrícola tem muito peso e é uma pena que os técnicos da câmara desconheçam a realidade do concelho”. Para esses, o jovem agricultor tem uma sugestão: “Quem lá está devia vir para o terreno que não perdia nada, só ganhava”. Cláudio Rocha defende que “é importante conhecer as potencialidades e definir onde pode haver explorações agrícolas e onde se pode construir habitação”. Ou seja, para construir uma vacaria “exige-se tudo, mas se, do outro lado da rua, houver um projecto, a câmara aprova logo a construção de uma casa. E a casa, estando feita, sobrepõe-se à vacaria e se o dono da casa se queixar do cheiro, a vacaria é que tem de fazer obras para minimizar os cheiros ou os ruídos”. “Como é que se pode trabalhar assim?”, pergunta.

Os jardineiros deste país

“O cheiro a estrume e a chorume é característico de uma zona rural na época de recolha de sementeiras” e Cláudio Rocha até pensa que “é melhor do que estar a levar com os monóxidos de carbono e outras coisas piores das cidades”.
O que lamenta é que as autarquias não estejam sensibilizadas para salvaguardar a indústria agrícola. Para ele, ficou “evidente que quem lá está não tem noção que quem tem uma vacaria movimenta muito dinheiro, dá trabalho a muita gente que trabalha nas áreas dos serviços, indústria farmacêutica e agroquímica, combustíveis, máquinas, indústria automóvel, contabilidade, gestão, etc., é toda uma economia que se movimenta da qual os municípios não têm a mínima noção”.
Chagados a este ponto, o proprietário da FormigaLeite gostaria que os agricultores fossem olhados de outra maneira, “pois somos nós os jardineiros deste país. São os agricultores que fazem a manutenção da paisagem”. “Era bom que nos dessem valor por aquilo que realmente fazemos”, disse.

Por estes dias, a crise do leite veio tornar a vida do agricultor ainda mais difícil, porque mexe com o produto que gera a maior fonte de receita e paga todos os investimentos e os impostos. Cláudio Rocha tem a sua própria visão do problema. “Isto tudo vem na sequência da decisão das cabeças pensantes de Bruxelas que decidiram abolir a cotas leiteiras, descontrolando o mercado”. Isto aliado a “uma classe política que não defende o que é nosso, deixando, por exemplo, que se importe produtos lácteos quando somos autosuficientes e ainda sobra…” E continua: “Acham que comprar lá fora é melhor, só para massacrar quem cá está a trabalhar, obrigando-nos a vender abaixo de preço de custo”.
O preço do litro de leite pago ao produtor está a 26 cêntimos, o que com as penalizações a que ainda estão sujeitos por excesso de produção, leva o leite a preços que os produtores consideram incomportáveis. “Não conseguimos produzir leite assim”, sentencia o jovem agricultor de São Vicente de Pereira.

Uma vacaria moderna

Entra-se na FormigaLeite, onde estão perto de 250 vacas e não cheira mal, porque o sistema automático de limpeza não deixa. Os animais sabem o que têm de fazer e vão voluntariamente à máquina de ordenha informatizada que diz, entre outros dados, quantos quilos de ração a vaca precisa para produzir um litro de leite.
As vacas da FormigaLeite até têm uma espécie de salão de beleza em forma de escovas pensadas para o bem-estar animal para as quais os animais fazem fila. Até os vitelos são amamentados por uma máquina alimentadora automática.

Ali trabalham quatro pessoas, duas a tempo inteiro e duas a meio tempo. “Temos a mão de obra limitada ao mínimo possível porque investimos muito em tecnologia para ter alguma qualidade de vida”, explica Cláudio Rocha, de 33 anos.
Pertence à quinta geração familiar de agricultores de São Vicente de Pereira que se dedica à produção de leite. Pegou nas instalações do pai e modernizou-as. Mas é preciso gostar muito do que se faz, pois poucos conseguem dedicar-se 24 horas por dia, 365 dias por ano a uma causa. “Eu tenho as máquinas ligadas a um telemóvel e, ao mínimo problema, o aparelho toca e é preciso vir cá”, alerta.

A mecanização não obriga àquela obrigatoriedade da ordenha, de manhã e à noite, mas obriga a mais supervisão. “Quem gosta disto, investiu muito dinheiro e tem os encargos, tem que acompanhar as coisas”, resume. Mas uma coisa é certa: “Se fosse hoje, com o preço do leite como está, não voltava”.

DADOS
250 – animais no total
120 – animais em produção
4.100 – Média diária de litros de leite

 

 

 

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