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Uma “aldeia” adormecida à espera da vacina para acordar

A Aldeia do Carnaval de Ovar é, por estes dias, uma aldeia fantasma. Bonecos, mecanismos, cabeçudos ou gigantones estão realmente recolhidos. Esvaiu-se a cor da azáfama, calaram-se os repiques que nesta altura do ano seriam normais e característicos do planeamento e preparação dos fatos e alegorias que sairiam à rua no Carnaval de 2021.

O que seria impensável há um ano pode traduzir-se nas indicações enviadas pela Câmara Municipal para todos os grupos e escolas instalados na Aldeia do Carnaval: “São proibidos ajuntamentos superiores a cinco pessoas por associação e com uso obrigatório de máscara”, recordando o dever cívico de recolhimento, proibindo actividades não essenciais. Mais, avisa-se que “as forças policiais vão aumentar a fiscalização”.

Dói na alma do folião a proibição de ajuntamentos uma vez que a Aldeia do Carnaval nasceu precisamente para lhes proporcionar um local de trabalho mas também de convívio durante o período de preparação dos grandes corsos que se estende ao resto do ano.

Campeões na categoria de carnavalesco em 2020, o grupo de Carnaval “Pinguins” não foge à regra e tem-se adaptado à nova realidade. Mário Leite, um dos responsáveis do grupo, revela que a solução tem sido fazer “reuniões por Skype ou via Zoom e assim mantemos o contacto”, mas confessa que “não é mesma coisa, notamos que falta alguma coisa”. “Não é normal o que estamos a viver, porque nesta altura já estávamos a planear, a fazer preparativos e a comprar os materiais necessários para o próximo desfile”, explica.

Para se fazer uma ideia do que tem sido este ano sabático, Mário Leite desvenda que “se nos pedirem os melhores momentos da vida do nosso grupo, embora adoremos desfilar e seja o desfile o nosso principal objectivo, as melhores memórias estão nas vivências internas, seja brincadeiras durante o trabalho ou nos jantares que organizamos em várias fases do ano, que cimentam a amizade, a camaradagem e a folia”.

Os “Pinguins”, que em 2021 completam 54 anos de Carnaval, tinham inclusivamente agendado um jantar de São Martinho que foi desmarcado, o mesmo sucedendo com o de Natal que estaria para acontecer nestes dias.
A autarquia vai ajudar os grupos e escolas manterem-se vivas, apesar de não haver corsos, atribuindo metade do habitual subsídio financeiro. “Não temos patrocinadores, não fazemos peditórios, gastamos até muito dinheiro do nosso bolso para pôr o carnaval na rua”, por isso, Mário Leite acha bem que a Câmara Municipal ajude os “inquilinos” da Aldeia a pagar as despesas que se mantêm e ajude a ultrapassar esta fase.

O dirigente da Associação Grupo de Carnaval Os Pinguins acrescenta que “há sempre muitas actividades que organizamos que fortalecem o espírito de grupo que não vão acontecer”, mas isso, frisa, “não vai esmorecer a tradição”. E conclui, convicto: “O desejo é tão grande de voltar que quando isto passar tenho a certeza que o Carnaval de Ovar vai voltar ainda mais forte, porque é uma tradição de muitos anos que não vai morrer”.

Charanguinha parada

A escola de samba vice-campeã do Carnaval deste ano, Charanguinha, também está optimista quanto ao futuro. “Temos muita fé de que esta pandemia vai passar e que, em 2022, vamos voltar à avenida ainda mais fortes”, garante Alexandra Azevedo, presidente da direcção da escola que conta com cerca de 200 elementos e, mesmo em tempo de pandemia, continua a receber propostas de adesão de novos associados.
As escolas de samba começam muito cedo a preparar os carnaval do ano seguinte e em setembro já têm tudo praticamente decidido, começando a trabalhar e a ensaiar temas, coreografias e instrumentos. “Neste momento, estamos totalmente encerrados, parados, não estamos a fazer nada”, revela a presidente da associação. “Tínhamos pensado em fazer ensaios, por instrumento, para diminuir ajuntamentos, mas as recentes orientações vieram alterar tudo pois temos sempre mais de cinco pessoas por naipe”.

Nesta altura, continua, “já estariamos a ensaiar todos os fins-se-semana, estariamos a tratar de fazer o nosso habitual jantar de Natal e assim, não acontece nada”.
A panedmia impediu a realização de festas e romarias no último verão e isso também significou um prejuízo assinalável nas contas das escolas de samba que deixaram de ter as habituais saídas para equilibrar contas. “Apesar de estarmos bem do ponto de vista financeiro, também nos vimos afectados por essa realidade e é bom que a Câmara Municipal de Ovar nos apoie com parte do apoio habitual”. Alexandra Azevedo olha para este ano como uma oportunidade para “pensar com mais tempo no Carnaval de 2022, porque eu acho e tenho fé que vamos voltar ainda com mais força”.

O presidente da Câmara Municipal de Ovar salienta que está “atento e sensível à situação dos grupos e escolas, nomeadamente, no que toca ao pagamento dos custos fixos que, apesar de não haver desfiles, têm de ser pagos”. Em cima da mesa está a possibilidade do Município avançar com metade dos subsídios, com base nos valores prometidos no final do Carnaval deste ano, ou seja, com um aumento de 500 Euros em relação ao ano anterior, “para ajudar às despesas e manter a máquina carnavalesca de Ovar em condições de ser reactivada a qualquer momento”.

Atendendo ao actual contexto de pandemia, em setembro último, numa decisão tomada no âmbito da Rede de Cidades com Carnaval (Ovar, Estarreja, Mealhada, Figueira da Foz e Torres Vedras) decidiram que, com base nos dados disponíveis, não há condições para realizar o Carnaval 2021 nos moldes habituais, nomeadamente os corsos carnavalescos. No entanto, todos os carnavais pretendem realizar iniciativas para assinalar o evento, tendo o Município de Ovar reservadi em Orçamento um montante superior a 320 mil euros para esse efeito.
Em Outubro, as autarquias reuniram na DGS e assumiram o compromisso de conceber o formato possível para o primeiro Carnaval deste ‘novo normal’. Assim, prometeram desenvolver as tipologias das várias iniciativas a realizar no Carnaval de 2021.

Depois de receber as propostas, a DGS irá pronunciar-se sobre cada uma mas o objectivo é pensar em actividades feitas em segurança, de acordo com a situação epidemiológica que começa agora a ver alguma luz ao fundo do túnel.

O presidente da Câmara Municipal de Ovar realça que, “embora não haja desfiles nos moldes habituais, vamos engalanar e ornamentar a cidade a sério para assinalar o Carnaval” e, acrescentou ainda, “estamos a ponderar a realização de desfiles carnavalescos, no Verão de 2021, nas praias do Furadouro, Cortegaça e Esmoriz”.

TEXTO LUÍS VENTURA/FOTO PAULO RAMOS in Diário de Aveiro.

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