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Uma prova da “Força humana”

Com uma grande festa na ruas deste país, quer fosse pela presença do Papa Francisco, pelo título de campeão do futebol ou da vitória na Eurovisão, foi com a-propósito que se desfraldou no sábado uma bandeira nacional no palco do Centro de Arte de Ovar, durante a peça “Força humana”, um projecto de António Fonseca e José Neves, a partir de “Os Lusíadas”, de Luiz de Camões, com música de Paulo Furtado.

Foi a última apresentação desta temporada de uma peça (uma co-produção do Centro de Arte de Ovar) que, segundo os autores, “nasce da urgência da poesia, do desejo de ser que é próprio do teatro, da inquietude e da intangibilidade que emergem da música e da síntese entre unidade formal e rugosidade que vem da arte contemporânea”.
Assim, “Força Humana” parte do desejo de encontrar, na vastidão do poema épico, as pistas de decifração do Portugal contemporâneo.

Nos quase nove mil versos de “Os Lusíadas”, poema para ser entoado e não analisado por gramáticos, como disse António José Saraiva, está uma música muito particular que é a língua portuguesa. A pedra de toque deste projeto assenta assim no trabalho de António Fonseca e Luís Araújo (que substituiu José Neves), dois actores do prazer das palavras, dois intérpretes capazes de todas as buscas que uma personagem-povo pode propiciar.

Depois ainda, a música das palavras dialoga com outras músicas, tão ou mais essenciais, através da partitura de Paulo Furtado, espécie de via múltipla entre uma música que viaja e os sons da contemporaneidade. Ou o espaço de F. Ribeiro povoado pelos figurinos de Nuno Gama, a conferir uma imagem surpreendente e contraditória.

Finalmente, tudo ecoa numa espécie de memória do presente e do futuro, num confronto entre o que encontramos na paisagem poética de Camões e os eventuais traços distintivos, identitários ou massificadores, de todos nós e de todos os outros que nos rodeiam e não vemos sequer, ou vemos como manifestações de um lugar exótico que não é o nosso.

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