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Uma tabela de basquetebol na sala para vencer o vírus

Um campo improvisado. Uma tabela de basquetebol na sala. Em terra em que a modalidade é rainha, cesto após cesto, Ana Raquel Lopes e o filho de seis anos venceram a quarentena.

Ela, a mãe, faz parte daquele grupo de profissionais que estão na frente do combate à Covid-19 e, por isso, o risco de infecção está sempre presente. Mas os profissionais de saúde nem se lembram do perigo, porque a prioridade é dar de si a quem está doente. Não há opção: É ajudar ou… ajudar.

Devido à disseminação local do vírus SARS-CoV-2, o Governo decretou a 18 de março para o concelho de Ovar o estado de calamidade pública, o que no dia seguinte implicou um cerco sanitário com controlo de entradas e saídas num território que se tornou o epicentro da doença.

Ana Raquel Lopes, enfermeira no Hospital Dr. Francisco Zagalo de Ovar, estava na luta quando tudo começou. Poucos dias depois, contraiu a doença. “A notícia caiu que nem uma bomba”, recorda. Apesar de saber que os seus sintomas eram indicativos de uma potencial infecção por Covid-19, a verdade é que “ninguém está verdadeiramente preparado para lidar com este novo vírus, nomeadamente pelas lacunas ainda existentes no conhecimento cientifico relativamente a este tema”.

Não obstante, após o choque inicial, Ana Raquel recompôs-me rapidamente, actuando em consonância com as regras emanadas pela DGS, “de forma a adaptar as nossas vivências familiares a esta nova realidade”.

Embora não consiga definir uma data exacta para o contágio, sabe que o início dos sintomas aconteceu no dia 23 de Março. O mundo ia desabando quando “o meu filho iniciou sintomas, também durante a semana de 23 de Março”. “À partida, terei sido eu a contaminá-lo”, recorda.

“Ainda assim, a literatura disponível parece indicar que, apesar de as crianças demonstrarem ser resistentes a esta doença, podem ser vectores transmissores deste vírus, pelo que não se pode descartar a possibilidade do contágio ser iniciado pelo mais jovens”.

Ana Raquel sentiu, por esta altura, os primeiros sintomas: dores de garganta e dores de cabeça intensas. Estes foram desaparecendo, sendo substituídos por outros posteriormente, como a perda de paladar, alfacto, tosse seca e cansaço. O menino, que conta seis anos de idade, apresentou um quadro de dor abdominal, febre e vómitos.

Como ambos estavam positivos, Ana conta que “não fazia sentido estarmos separados, pelo que permanecemos juntos durante a fase de isolamento, o que nos permitiu também lidar melhor, emocionalmente, com este período”.

Fechados em casa, desde o início que os procedimentos e regras foram delineadas e aceites por todos no agregado familiar. “Aplicámos cá em casa todas as indicações fornecidas pela DGS para situações de isolamento por Covid-19, como utilização de uma casa de banho para mim e para o meu filho e outra para o meu marido (que testou negativo no exame efectuado); uso de Loiça e talheres de refeições diferenciados e utilização de quarto e sala diferentes”.

“O facto de termos a possibilidade de, dentro da nossa casa, não partilhar estes espaços (quartos e salas), facilitou bastante o cumprimento do isolamento”, explicou, sem esquecer o reforço da lavagem das mãos e a desinfecção frequente dos espaços utilizados.

Adaptar ao isolamento

As crianças conseguem ter uma capacidade adaptação incrível e o filho de Ana Raquel não foi excepção. “Diria que ele compreendeu desde o início que não poderia sair de casa, ainda que, reconheça que existiram momentos difíceis, considerando que se trata de uma criança naturalmente enérgica, com necessidade de correr, jogar e brincar ao ar livre”.

Assim, a família tentou, tanto quanto possível, manter as rotinas habituais, como o levantar, lavar os dentes, vestir, estudar/fazer os trabalhos de casa, brincar, etc. “Na impossibilidade de utilizar o espaço externo de que dispõe o condomínio, para evitar a contaminação do espaço e das pessoas, para brincar, improvisámos um campo de futebol e de basquetebol dentro de casa, para que o confinamento se tornasse mais fácil”.

Mas a verdade é que, na prática, tudo se torna mais difícil. “Apesar de ambos estarmos infectados, tentei sempre evitar o contacto físico”. “O que mais me custou foi ter que me resguardar das demonstrações físicas de afecto”. Nesta fase, desvenda, “passámos talvez a dar mais valor à transmissão oral dos nossos afectos e sentimentos”.

O tempo de duração do vírus no organismo é variável e ainda não totalmente conhecido. No caso do menino, clinicamente, foi decidido que o teste seria efectuado ao 33.º dia, tendo dado negativo. A enfermeira ovarense continua positiva, mas a família aguarda que o próximo teste já dê negativo.

Ana Raquel tem “imensa vontade de regressar ao trabalho”. “Quando escolhemos esta profissão, sabemos os riscos e os desafios que a mesma acarreta. A nossa missão é cuidar dos outros, sendo esta a orientação que baliza a nossa actuação. Não consigo pensar de outra forma”.

“Mas o regresso está sempre dependente de um resultado negativo no teste ao Covid-19”, alerta.

Esta é uma história com tudo para ter um final feliz, porque Ana também encarou toda esta prova com espírito positivo. “Penso que vamos ultrapassar esta situação assim que a vacina se encontrar disponível para a população em geral”. Até lá, “teremos que viver com algumas restrições, adaptando-nos a esta realidade, mantendo o isolamento social e seguindo as indicações das autoridades competentes”.

Agora que vamos iniciar um desconfinamento gradual, “o cumprimento das regras é muito importante para evitarmos que um segundo surto seja tão ou mais impactante que o primeiro”, frisa Ana Raquel, destacando que “é importante actuarmos de forma responsável e consciente. Cada um de nós tem um papel fundamental a desempenhar na luta contra esta pandemia”, conclui.

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