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Zeladoras dão mais brilho às Capelas dos Passos

O gosto e a dedicação com que os vareiros (as zeladoras, como lhe chamam na cidade) ornamentam as capelas dos Passos, nesta quadra, são um sinal de uma devoção que em Ovar se tem mantido ao longo dos séculos.

Hoje, os templos estão abertos ao público durante todo o dia, pois é dia da realização da Procissão dos Passos, para esta gente desde sempre considerada especial e que chega a ser emocionante no momento em que se dá o encontro dos andores de Nossa Senhora e de Jesus Cristo, em frente ao Passo do Encontro.

A beleza das capelas é sublinhada pela decoração e arranjos florais (na imagem , o Passo da Verónica, este ano) com que são arranjadas, numa manifestação de devoção e fé que dá muito trabalho e sai do bolso das zeladoras que, ano após ano, se dão a este trabalho.

Cabe aqui lembrar que as primeiras capelas dos Passos eram portáteis, construídas em madeira com figuras de colmo. A construção das Capelas dos Passos de pedra e cal, tal como hoje são conhecidas foi iniciada em 1747, ano em que foi concedido, pelo Rei, o imposto de um real por cada quartilho de vinho que se vendesse em Ovar.

O produto deste imposto foi aplicado na construção das Capelas que foram concluídas em 1755. As figuras foram pintadas por António José Pintor, natural da freguesia de Válega.

O percurso, efectuado através das Capelas simboliza a Paixão de Cristo e que aparece representada nos retábulos de cada uma, tem início dentro da Igreja de São Cristóvão ou Igreja Matriz de Ovar (Passo do Pretório), continua por outros cinco nichos na zona histórica da cidade (Capela e Passo do Horto – junto ao Tribunal, na Rua Alexandre Herculano; Passo do Encontro – Rua Alexandre Herculano; Capela e Passo do Cirineu – Largo dos Bombeiros Velhos; Capela e Passo da Verónica – Praça da República; Capela e Passo das Filhas de Jerusalém – Largo Mouzinho de Albuquerque) e termina no Passo do Calvário ou Capela de S. Pedro (Largo dos Combatentes).

As capelas dos Passos de Ovar, consideradas desde 1946 Imóveis de Interesse Público, constituem um conjunto de sete capelas de estilo rococó que datam do século XVIII e que representam um registo arquitetónico e artístico único de Portugal.
1. PASSO DO PRETÓRIO / HORTO
(Igreja Matriz de Ovar)

“Esta capela totalmente revestida a talha dourada, viu erguer-se em 1735 o retábulo da autoria de José Teixeira Guimarães, grande mestre entalhador da cidade do Porto.
Em 1750 são feitos alguns acrescentos de talha, da mesma autoria, correspondendo esta obra às ilhargas da capela.
Com o terramoto de Lisboa em 1755, a sua abóbada sofreu tal ruína que foi necessário proceder a novas obras”.

2. PASSO DA QUEDA
(Rua Alexandre Herculano)

“Popularmente designado de Passo do Horto, por corresponder ao lugar onde primitivamente estava o Passo dedicado aos primeiros episódios da paixão de Cristo, este é o primeiro de cinco Passos com estrutura arquitetónica e decorativa semelhante, onde a articulação entre a talha, a imaginária e a pintura mural revelam uma grande riqueza iconográfica.
Aqui se representa o momento em que Jesus, depois de ter sido condenado à crucifixão (no pretório), cai pela primeira vez no trajeto em direção ao Calvário levando a cruz às costas”.

3. PASSO DO ENCONTRO
(Rua Alexandre Herculano)

“De todas as festividades da Irmandade dos Passos, a Procissão do Encontro foi a que mais frequentemente se realizou ao longo dos séculos.
Esta procissão chegou a sair da extinta Capela de São Tomé e mais tarde da Capela de Santo António (Praça da República), atualmente parte da Igreja Matriz de Ovar e tem o seu momento alto em frente a este Passo, onde se dá o encontro, a caminho do Calvário, entre Jesus e sua Mãe”.

 

4. PASSO DO CIRENEU
(Rua Cândido dos Reis)

“Cristo segue o seu doloroso percurso, acompanhado pela Virgem Maria, Santa Maria Madalena e São João. Segundo o relato bíblico, a ajudá-lo segue Simão de Cirene (o Cireneu), que São Lucas diz vir do campo, quando o obrigam a carregar a cruz.
Embora muito degradadas, as pinturas murais reforçam, aqui, a ideia de sofrimento, marcado pela presença de soldados nas ilhargas da capela. O mesmo se vai repetindo, embora com temáticas diferentes, nos restantes quatro passos de estrutura semelhante”.

5. PASSO DA VERÓNICA
(Praça da República)

“Este Passo teve desde a sua origem até 1893 funções de capela, o que se justifica pelos primitivos Paços do Concelho albergarem nas suas arcadas a cadeia da vila de Ovar e ser necessário garantir o santo sacrifício da missa aos presos.
Nele está representado o momento, descrito pelos evangelhos apócrifos, em que Verónica ao assistir à passagem de Jesus decide limpar-lhe a face com um pano no qual Ele deixa o seu rosto gravado”.

 

6. PASSO DAS FILHAS DE JERUSALÉM
(Largo Mouzinho de Albuquerque)

“Segundo São Lucas, na multidão que seguia Jesus evidenciavam-se as Filhas de Jerusalém. Estas batiam no peito e lamentavam a Sua dor, então Jesus pede-lhes para não chorarem por Ele mas por elas e pelos seus filhos.
O olhar de Jesus vai em direção ao futuro julgamento divino sobre o mal, a injustiça e o ódio, por isso, se preocupa com o sofrimento daquelas mães.
As representações pictóricas deste Passo reforçam essa intenção e remetem-nos para a proximidade do Calvário”.

7. PASSO DO CALVÁRIO
(Largo dos Combatentes)

“Construído em local próximo à extinta Capela de São Pedro, ainda hoje mantém essa designação. De todos os Passos é o maior e resultou do reaproveitamento de alguns materiais da supracitada capela.
Tem ao centro a representação do Calvário, o momento final da paixão de Cristo, e lateralmente um retábulo dedicado a S. Pedro e outro a Nossa Senhora das Dores (imagem de 1783, proveniente do Porto)”.

* com blogue Passos de Ovar

Fotos:

Sofia Padrela (Passo da Verónica)
Paulo Gama (Passo do Encontro)
António Mendes Pinto

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