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Noite(s) de Reis, de alegria e emoções

Esta noite de quarta-feira, no Centro de Arte fechou mais um ano da secular tradição do “Cantar os Reis” em Ovar. Os Encontros de Troupes de Reis de Adultos e Infantil (09 de janeiro), regressam ao Centro de Arte de Ovar, um espaço mais acolhedor para as noites frias de inverno e, segundo a Edilidade, mais propício a criar um ambiente familiar.

Entre as troupes que acompanhamos durante esta semana, um especial destaque para a homenagem do Orfeão de Ovar ao seu reiseiro de sempre, Américo Oliveira, interpretando, além dos três números habituais, um quarto tema in memorian, “Para qualquer um de nós”. “Quem fica, saudades tem/de quem, cansado abalou/Sempre iremos ser mendigos/da saudade que legou…”

No Centro de Arte, Salvador Malheiro subiu ao palco para agradecer a todos os reiseiros que contribuíram para que “a tradição se tenha consolidado ao longo dos anos” e garantiu que a Câmara Municipal de Ovar tem “orgulho nas tradições e perspectiva o futuro, de forma arrojada e moderna, mantendo o verdadeiro espírito e as nossas verdadeiras tradições”. E acrescentou: “Gostamos de o dizer e também de o fazer e daí termos lançado o Cantar dos Reis de Ovar a Património Imaterial Nacional que, a breve trecho, será uma realidade”.

Nas troupes, a da JOC/LOC cantou, no Agradecimento, a actualidade em tom mais crítico: “Nesta terra descuidada/Eu muito inquieto fico/ao ver que o pobre, sem nada,/ É que dá milhões ao rico”.

A AD Ovarense respigou e adaptou cântigos de 1977, 1978 e 1980. “Pela vida fora/Aguarda esta hora/P’ra avivar com mil canções/A chama que aquece a vida, /Assim repartida/Pelos nossos corações”.

Alegre “e com chalaça” foi também o Agradecimento da troupe de Reis da Ribeira: “Como chegamos ao fim/brindemos sem fazer dano, amigos tenham bom ano!Atchim!/Atchim!… A… A…A…Tchim! Santinhos!”

Simplesmente acústica e sempre pop, a troupe Tradição e Juventude trouxe a sua irreverência para o palco: “Um coro afinado canta a meu lado/A melodia está no ar/Tocam violas, sola o bandolim/A tradição é mesmo assim.”

A Câmara Municipal de Ovar voltou, este ano, a impulsionar o Roteiro “Cantar os Reis”, levando as toadas harmoniosas a vários pontos do concelho, de forma a preservar e divulgar uma tradição secular, com especificidades únicas, cujo processo de candidatura a património cultural imaterial se desenvolve a bom ritmo.

Este Roteiro integra apresentações pelos reiseiros em estabelecimentos de restauração e hoteleiros em Ovar, S. João, Esmoriz, Cortegaça, Arada, Furadouro e Válega, difundindo esta tradição em vários pontos do município junto da comunidade local e também de quem nos visita.

A história do Cantar os Reis em Ovar

A tradição das Troupes de Reis remonta aos finais do século XIX. Tinha inicialmente alguma semelhança com as «Janeiras» que têm lugar um pouco por todo o país, mas adquiriu características próprias e originais em Ovar. Em 1893, com o especial patrocínio de João Alves Cerqueira, um conceituado comerciante da praça vareira de então, nasceu a primeira Troupe – a dos “Reis dos Alves” ou “Troupe dos Velhos” e logo outras começaram a surgir.

O Cantar dos Reis em Ovar distingue-se dos restantes pelo facto de, apesar de serem imbuídas de um saudável amadorismo e surgidas de forma espontânea, as Troupes vareiras exigem de si mesmas o mínimo de qualidade interpretativa e melodiosa. Desta forma, as exibições são minuciosa e antecipadamente ensaiadas; o leque de instrumentos tocado é muito variado e inclui o violão, o bandolim, o banjolim, a bandola e até o violino; o desempenho vocal é muito importante e manifesta-se em belas exibições de solistas e coros; as toadas, em jeito de balada, têm letras inéditas e músicas inéditas ou adaptadas. Destaque ainda para a estrutura do Cantar dos Reis, que é constituído tradicionalmente por três trechos: A Saudação onde é louvada a Noite Santa dos Reis e são saudados os presentes; A Mensagem onde se celebra o nascimento de Jesus e os seus ensinamentos; e O Agradecimento, em tom bastante mais ligeiro, no qual são pedidas as ofertas habituais e é agradecida a hospitalidade.

A qualidade das Troupes de Reis vareiras desde cedo cativou e impressionou o público, e o que representava um simples ato de cantar as boas festas a favor de obras sociais cresceu e tornou-se num evento de cariz cultural. Assim, as Troupes passaram a apresentar-se num espaço comum, nas Praças, no Salão Nobre dos Paços do Município, no Cine-Teatro, no Centro de Arte de Ovar, onde todos podem assistir e apreciar uma tradição com mais de cem anos.

 

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