O Cine-Teatro de Ovar (III) – Por Edgar Branco

Joel corre sempre pela cidade, apressado, envolto em compromissos e tarefas. Parece nunca ter tempo para nada. Entra num café no centro, em frente ao antigo cinema, e olha pela montra. O olhar detém-se na velha fachada do Cine-Teatro e, com um gole de café, a viagem no tempo começa.
A adolescência volta num instante.
Joel sempre foi extrovertido, um rapaz bem-humorado, rodeado de amigos. Mas, por muito sociável que fosse, havia algo que ainda lhe escapava: um encontro.
Há semanas que andava atrás disso. Filipa era colega de uma outra escola, e, entre conversas de amigos em comum, trocas de mensagens e alguma coragem acumulada, ele finalmente conseguira.
— Sábado, na sessão das duas da tarde. Pode ser?
A resposta veio rápida.
— Sim, sim, claro.
Joel sentiu o coração acelerar. Imaginou o cenário perfeito: ele e Filipa sentados lado a lado, o balde de pipocas entre os dois, uma comédia romântica na tela… E, no momento certo, o braço dele se levantaria num falso espreguiçar e desceria suavemente sobre os ombros dela.
Talvez até roubasse um beijo, ou dois.
Chega sexta-feira à noite.
Joel, entusiasmado, contava tudo a Manel, um dos seus melhores amigos. Estavam em casa de Manel, jogando consola, enquanto o nervosismo de Joel crescia.
— Meu, ela é linda, juro-te! — dizia ele, cheio de expectativa.
— Estou a ver, estou a ver… Mas tens mesmo a certeza de que ela vai? — Manel ergueu uma sobrancelha. — E se for tanga?
Nas idades deles, o medo de levar um “fora” era enorme.
— Eh pá, espero que não.
Mas a dúvida já estava plantada.
E então… o telemóvel vibrou.
Pri pri.
Joel olhou para o ecrã. Uma mensagem de Filipa.
— Achas que há problema se levar uma amiga também?
O sangue gelou-lhe nas veias.
— Manel, acredita nisto. — A preocupação estampou-se-lhe no rosto. — Ela quer levar uma amiga!
— Uma amiga? — Manel esboçou um sorriso matreiro. Sentiu ali uma oportunidade.
— Queres vir também? — perguntou Joel, já resignado.
— Mas espera… A amiga é bonita?
— Roleta russa, pá. Não sei.
— Ok, ok. Bora.
E assim ficou combinado.
Minutos depois, nova mensagem de Filipa.
— Achas que posso levar outra amiga?
Joel piscou os olhos, incrédulo.
— Manel… agora são duas amigas.
— Isto já deve ser gozo.
— Pois… Mas e se não for?
Manel pensou por um momento.
— Deixa ir. Diz que sim. Pior dos casos, vemos um filme e pronto.
Mas Joel já começava a desconfiar.
— Vamos chegar atrasados de propósito. — planeou ele. — Ficamos à distância a ver se elas aparecem mesmo. Se for tanga, bazamos.
Manel aprovou a estratégia.
— Bem pensado.
E finalmente, o dia havia chegado, era Sábado.
O nervosismo deu lugar à preparação. Nada formal, mas também nada descuidado, de camisola bem escolhida, perfume na medida certa e as sapatilhas menos gastas pelo tempo.
No caminho para o cinema, os dois amigos iam confiantes. Talvez fosse o dia deles, ou talvez… não.
Chegados ao Cine-Teatro, Filipa já os esperava.
Joel abriu um sorriso, agora tímido. Mas algo estava errado.
Não havia uma amiga. Nem duas.
Havia três. E, para piorar, uma delas era… um rapaz.
— Estas são as minhas amigas, a Joana e a Juliana… E este é o meu primo, o Bernardo. — explicou Filipa. — Ele estava cá de visita e convidei-o. Não há problema, pois não?
Joel e Manel trocaram um olhar de desespero disfarçado.
— Não, claro que não.
O plano tinha sido arruinado e dentro do cinema, a situação só piorou. Entre trocas de palavras sem jeito, risos forçados e um clima inexistente, os bilhetes foram comprados.
O pior veio quando perceberam que os lugares não eram marcados. Na hora de se sentarem, Filipa e Joel foram separados.
No meio de três amigas, um primo e um corredor de cadeiras, não havia qualquer hipótese de aproximação. O filme correu sem romance, sem toques subtis, sem planos concretizados e no fim, uma despedida sem graça.
Um adeus sem promessas.
Ao saírem do cinema, Manel olhou para Joel e não resistiu.
— Eh pá… Este pessoal nem te deixou sentar ao pé dela!
Joel abanou a cabeça, divertido.
— Acho que nem perceberam.
E os dois rebentaram a rir.
Anos depois, sentado no café diante do antigo Cine-Teatro, Joel sorri sozinho.
Lembra-se do amigo.
Lembra-se daquele encontro que nunca foi um encontro.
Lembra-se de como os planos nem sempre dão certo…
Mas às vezes, dão em risada.
Edgar Branco




