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Opinião

O Cine-Teatro (II) – Por Edgar Branco

Os irmãos André e Amaro caminham pela cidade, parando por um instante diante do Cine-Teatro. Os
seus olhos fixam-se na velha fachada e, num olhar cúmplice, ambos se compreendem. A nostalgia
transporta-os de imediato para o passado.

Os tempos eram outros. Não havia televisores em todas as casas, nem serviços online que
transmitissem conteúdos sem cessar. Um filme no cinema era um evento, uma experiência rara, algo
que se aguardava com entusiasmo. Não se decidia de última hora. Havia planeamento, havia
expectativa, havia mistério.

Numa modesta casa vareira, onde a dignidade se sobrepunha às dificuldades, aquele dia começara
com uma animação especial. André e Amaro estavam prestes a ir ao cinema pela primeira vez. Mas,
naquela manhã, ainda não o sabiam.

Era domingo. E, aos domingos, Dona Augusta sempre deixava os filhos dormirem um pouco mais.
Não havia pressa como nos dias de escola, nem catequese como ao sábado. Nos domingos, os
meninos podiam permanecer nos seus sonhos por mais algum tempo.

Dona Augusta, de pé junto à porta do quarto, espreitava-os com ternura. Adorava vê-los assim:
leves, despreocupados, protegidos do mundo. Mas naquele dia, eles precisavam acordar mais cedo.

— Meninos, meninos… Hora de acordar! — chamou suavemente.
— Ohhhhhh… — gemeram em uníssono, o peso do sono ainda sobre os ombros.
Mas a voz da mãe era doce, e o despertar, embora lento, veio carregado de surpresa.
— Hoje há algo especial para vocês!
As palavras foram suficientes para que os olhos dos dois brilhassem.
— Para nós? O quê? O quê?

Dona Augusta sorriu, encantada com a alegria dos filhos.
— Venham comigo, vistam-se. Prometo que vão adorar.
Ainda meio sonolentos, mas cheios de curiosidade, André e Amaro apressaram-se a vestir-se. Mal
sabiam eles que aquele dia se tornaria uma das mais belas memórias das suas vidas.
A cidade, naquela manhã, parecia mais bonita. O sol brilhava suavemente sobre as ruas de pedra, o
cheiro do pão fresco escapava das padarias, e as gentes iam e vinham, mergulhadas no quotidiano.
André e Amaro caminhavam ao lado da mãe, um de cada lado, segurando-lhe as mãos com força.
Dona Augusta vestia-se com a mesma dignidade com que ensinava os filhos a enfrentarem a vida.
Não possuíam riquezas, mas nunca lhes faltou limpeza, aprumo e orgulho.

— Não temos de nos rebaixar a ninguém. — dizia-lhes sempre. A vida podia ser difícil, mas o caráter
era inegociável.
E naquele dia, com o pouco que tinha, Dona Augusta ia oferecer-lhes algo imensurável—uma
memória para toda a vida.
Chegados ao centro da cidade, os irmãos avistaram, ao longe, o imponente Cine-Teatro. O edifício
estava vivo, pulsante, cheio de movimento. Gente entrava e saía dos degraus. Os cartazes
anunciavam histórias mágicas.

Os olhos dos dois brilharam. Seria aquele o destino da surpresa? Dona Augusta parou, olhou-os com
ternura e anunciou:
— Hoje, vamos ao cinema.
O tempo parou. O silêncio deles foi seguido por um suspiro contido, e depois… por um rebuliço de
emoção.
Saltos, gargalhadas, risos incontidos.

A felicidade pura de uma infância que ainda conhecia o encanto das pequenas coisas.

— Agora, venham comigo. Vamos comprar os bilhetes.
O átrio do Cine-Teatro era um espetáculo por si só. Cinco portas abertas convidavam o público a
entrar. No interior, um chão de mármore polido, um grande tapete vermelho, e cartazes pendurados
nas paredes anunciavam peças de teatro, bailes e filmes estrangeiros que faziam sonhar.
Dona Augusta aproximou-se da bilheteira.
— Três bilhetes, por favor.

O funcionário entregou-lhe três bilhetes de papel antigo, impressos a preto e branco, marcados com
a data, o custo e o nome do filme.
O preço? 750 escudos. Um valor considerável, mas Dona Augusta não hesitou. Pagou com uma nota
de mil escudos, recebeu o troco—250 escudos—e já sabia o que fazer com ele.
Os olhos dos meninos seguiram-na com expectativa.

Junto ao quiosque, meio escondida, havia uma pequena sala de vendas. Prateleiras repletas de
doces, rebuçados coloridos, pacotes de pipocas e garrafas de sumo.
— Podemos mesmo, mãezinha? Podemos gastar tudo?
Dona Augusta sorriu.
— Hoje podem.

E assim, entre moedas e contas feitas com esmero, os meninos saíram do quiosque de bolsos
cheios, coração leve e sorrisos incontroláveis. O filme ainda nem tinha começado, mas a magia já
estava feita.
O Cine-Teatro de Ovar possuía apenas uma grande tela. No rés-do-chão, um salão vasto de
cadeiras bem alinhadas. No primeiro andar, uma galeria semicircular—um espaço que, na mente das
crianças, parecia reservado à nobreza.

Naquela tarde, foi lá que se sentaram.
Ao entrarem na imensa sala escura, os cortinados pesados impediram que a luz do exterior
perturbasse a experiência. A mãe sentou-se entre os dois. O projetor roncou, a tela iluminou-se, e o
filme começou.
Mas, por um instante, os irmãos não olharam para a tela. Em vez disso, voltaram-se para Dona
Augusta.
Ela observava o filme, tranquila.
E foi ali, naquele momento, que ainda mais a respeitavam e amavam. A mãe fazia sacrifícios, ela
dava-lhes tudo que podia e tinha, e ela os amava mais do que as palavras poderiam descrever.
Então, num gesto instintivo, cada um deles abraçou-a com força.

— Meninos, meus meninos… — murmurou ela, sorrindo, segurando-os contra si.
E assim permaneceram.
Três corações unidos, protegidos, dentro daquele espaço mágico.

Um dia para nunca esquecer.
Anos mais tarde, diante das ruínas do Cine-Teatro, André e Amaro recordam esse momento.
A mãe já partiu.
Mas naquela lembrança, naquele abraço, ela está viva para sempre.

Edgar Branco

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