
A forte ondulação marítima, dos últimos dias, “engoliu” a praia de Maceda e reduziu em dezenas de metros o parque de estacionamento da Praia de Maceda
Segundo relatos de frequentadores locais, o mar avançou cerca de 20 de metros em relação à linha habitual.
As últimas tempestades, combinadas com ventos persistentes de noroeste, provocaram esta forte erosão costeira na Praia de Maceda, alterando de forma visível o perfil da praia.
Frequentadores garantem que o mar avançou dezenas de metros em relação à linha habitual, atingindo zonas onde anteriormente existia parque de estacionamento. Áreas que até há pouco tempo eram utilizadas por banhistas e surfistas foram praticamente engolidas pelo mar.
Nas redes sociais multiplicam-se testemunhos de surpresa e preocupação. Muitos recordam que a praia apresentava, até recentemente, uma larga faixa de areia e condições consideradas “de paraíso”.
Entre os comentários, surge também a reflexão sobre a ocupação humana junto à orla costeira e a velha máxima popular:
“O que é do mar, o mar um dia vem buscar.”
Este episódio volta a evidenciar a vulnerabilidade do litoral vareiro à erosão costeira, fenómeno que tende a intensificar-se com tempestades, ondulações fortes e subida do nível médio do mar.
Com atenções centradas no Furadouro onde as obras parece nada terem adiantado, agora há o perigo de Maceda, onde um aterro sanitário se encontra a poucos metros da rebentação e de uma catástrofe ambiental.
Estamos perante, talvez, um dos maiores dramas que pode acontecer, não só pela proximidade do mar ao aterro, mas pelo colapso iminente do sistema de deposição de resíduos no norte do país. Sabe-se que a lixeira de Maceda não está a ser monitorizada e a falta de dados e de transparência sobre o estado do aterro é um fator agravante do risco.
A ERSUC assumiu a responsabilidade de monitorizar o aterro durante 20 anos mas nunca divulgou qualquer relatório.
As críticas agravam-se com a acusação de que o aterro está contaminado, devido à ausência de triagem de resíduos, o que, segundo o vereador socialista Camelo Almeida, exige “prioridade máxima em interferir já no aterro” antes que o mar o atinja.
No início do mês, o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente visitou o concelho. A deslocação serviu para “verificar os danos” causados pela tempestade Kristin. Segundo Domingis Silva, as entidades responsáveis têm estado muito disponíveis e vão reunir nas próximas semanas para abordar o problema da erosão costeira em Ovar.
A autarquia vareira adianta que vai exigir um plano de ação para o concelho, num primeiro momento para tentar salvar a época balnear e, posteriormente, para repor, dentro dos possíveis, as praias que agora desapareceram com o avanço do mar.
Esta confiança, no entanto, contrasta com a frustração de outros intervenientes, que apontam a falta de respostas concretas por parte de entidades como a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) como parte do problema.
As preocupações ganham substância com os dados científicos. Carlos Coelho, professor de Engenharia Civil da Universidade de Aveiro, lembra que “as taxas de recuo da linha de costa chegaram a ser, nesta zona, das mais gravosas da Europa”. O maior risco, explica, é “a contaminação por infiltração”, ou seja, “o mar chegar pelo subsolo”. O investigador alerta ainda que os materiais geossintéticos usados para selar a lixeira “ao longo do tempo degradam-se e começa a haver fugas”.



