Opinião

A liberdade não está a passar por aqui – Lobo Mau

Morreu anteontem, aos 84 anos, o capitão de Abril Otelo Saraiva de Carvalho, personalidade incontornável na história recente de Portugal, embora também (como figura marcante que foi) rodeada de controvérsia.

Considerado o estratego do golpe militar que derrubou a ditadura do Estado Novo, foi ele quem delineou o plano de operações dos militares envolvidos no golpe do 25 de Abril de 1974 e os comandou, a partir do Quartel da Pontinha. Do ato de bravura daquele conjunto de homens haveria de resultar um dos momentos fundamentais da História portuguesa do século XX, a revolução dos cravos, que mudou drasticamente o país e a sociedade portuguesa. Haverá quem não perdoe a Otelo o radicalismo político que se seguiu ao grande momento da revolução e os atos cometidos então, em nome dos ideais a que aspirava, mas Otelo não pode ser definido pelos erros que cometeu.

Otelo deve antes ser lembrado pelo que ofereceu à pátria e aos cidadãos portugueses com a conquista da liberdade, um homem que sempre defendeu com convicção e com uma profunda entrega as causas em que acreditava, mesmo que, na sua vida, tenha por vezes escolhido caminhos errados. Mas o país que hoje somos, com os direitos que entretanto conquistámos, a homens como este o devemos. Vem tudo isto a propósito do presidente da Câmara Municipal de Ovar, Salvador Malheiro.

Mais de 24 horas se passaram sobre a morte de Otelo Saraiva de Carvalho e, da parte do autarca, nem uma palavra. Não é que os munícipes necessitem de saber a posição pessoal de Salvador Malheiro sobre os feitos e defeitos de Otelo; mas, tratando-se de uma das grandes figuras da nossa História contemporânea, protagonista de uma revolução que abriria os horizontes do regime a uma democracia participativa – no qual Malheiro, em particular, beneficia de uma posição pública de relevo -, seria de esperar que o falecimento do Capitão fosse, ao menos, assinalado. Tal como tem assinalado tantos outros.

Mas, sobre esta morte, Salvador Malheiro não disse uma única palavra. Será de concluir que o Capitão de Abril Otelo Saraiva de Carvalho não deu um contributo suficientemente relevante ao país para merecer uma menção pública do autarca de Ovar. Não tão relevante para Portugal como o contributo que deu o pai do cantor Quim Barreiros; não tão relevante como a malograda cantora Sara Carreira; nem sequer tão relevante como o ator Sean Connery. Todos eles tiveram direito a mensagens de pesar do presidente da Câmara, ao contrário do Capitão de Abril.

O apreço pela democracia e pela liberdade, assim como pelos militares que um dia se mobilizaram para as conquistar, não tem lugar na agenda de Salvador Malheiro. Os cravos de Abril, cujo significado parece desconhecer, só servem mesmo para a fotografia.

O Lobo Mau

*Leitor devidamente identificado

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