Opinião

A mesma beleza do Kurt Cobain – Ricardo Alves Lopes

Tenho noção que nem todos o podem compreender, porque para nem todos é igual. E isso, meus amigos, é uma porra! Porque, acasos, queremos explicar algo que fica perdido entre a ânsia do que temos para dizer e a maior vontade que os outros têm para perceber. Porém, como a vida é para ser vivida e não somente tentada, aqui estou a escrever o que sinto, nos dias em que vocês nada me pedem.

Estou furioso – não com vocês, mas com esta vontade de escrever. Passei uns dias fora, tenho aproveitado o Verão, entre escritórios, trabalhos para finalizar e praia, para reencontrar amigos, que emigraram ou estão escondidos pelas suas vidas, como devemos estar todos a partir de certa altura. Mas olho para alguns e lembro-me das tardes a jogar bilhar na Vareirinha enquanto o Quasar fazia obras e não nos deixava jogar o Itália 90; ou das tardes no Coffee Shop, para fazer tempo até termos o Chico na Praça; ou o Dom Pedro a criar o MySpot de hoje, o 100 Álcool a fazer mover pessoas para São Miguel e o Liceu e a Fragateiro a dividirem os amigos, para a Ovarense os juntar, entre basquete e futebol. E a Pildrinha, a Rainboiw que ainda apareceu, o Progresso, a Glorys que hoje é Coloros, o Pedras e muito mais. Tudo a juntar-nos. Muita da minha juventude – que ainda hoje perdura, verdade se diga – foi passada assim. Entre cafés e escola, entre amigos e desporto. Era feliz.

Mas, notem, continuo feliz. Ovar encontra-se duma forma que mais cidade nenhuma se encontra. Hoje, no Verão, todos a rasarmos os trinta ou já para lá deles – o que para alguns é sermos uns meninos, mas para nós é ser muito -, estamos a viver o mesmo dantes. Alguns têm os filhos lindos em casa, a mulher a aguardá-los, ou as responsabilidades no estrangeiro, mas, quando nos unimos, somos os mesmos. Os mais engraçados continuam os mais engraçados, os mais velhos continuam os mais velhos e os mais tolos continuam os mais tolos.

A natureza e a idade moldam-nos a forma de ser e, essencialmente, de estar, mas a cidade (Ovar!) resguarda-nos a essência, toma conta dela como um bebé. E quando nos juntamos, ah, carago!, quando nos juntamos é outra história. É Ovar que vive em nós, aquela essência da cidade que é pequena, mas não quer ser maior. Só quer ser cool e é cool. E o cool de Ovar é isso, a incapacidade de perceber que o é.

Uma vez, Courtney Love, num documentário, disse que a maior beleza do Kurt Cobain era não saber que era bonito. E a beleza de Ovar, a que se propaga em nós sem nos apercebermos, é a mesma. Somos bonitos, só não sabemos que somos bonitos. E o Furadouro está lindo, porra!

Ricardo Alves Lopes (Ral)
www.ricardoalopes.com
http://tempestadideias.wordpress.com

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