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Bravura vareira travou a Monarquia do Norte

O Município de Ovar está a assinalar o 100.º aniversário da resistência vareira à Monarquia do Norte com várias iniciativas ao longo do ano. Uma exposição evocativa foi inaugurada no dia 25 de Abril e, este sábado, realiza-se um concerto alusivo à efeméride com o grupo “Lvsitanea”, no Centro Escolar dos Combatentes, antiga sede do 3.º Batalhão de Ovar.

Comemora-se, este ano, o centenário da bravura dos vareiros na luta contra a “Monarquia do Norte”. O jornal “A Pátria”, de 3 de julho de 1919, conta que Ovar foi “a primeira terra a sul do Porto que levantou o seu grito de revolta contra a traição militar daquela cidade, pegando em armas na defesa da República e procurando debelar o avanço realista sobre o Sul, o que conseguiram”, precisamente a 12 de Fevereiro.

Sérgio Veludo Coelho, professor-adjunto da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto e especialista em História Militar, explica que a “Monarquia do Norte”, também conhecida por “Reino da Traulitânia”, foi proclamada a 19 de janeiro de 1919 devido à acção violenta dos trauliteiros monárquicos que perseguiram os republicanos, nos vinte e cinco dias que durou este movimento. Tropas do Porto, a que se juntou Paiva Couceiro, restauram a monarquia e içam a bandeira azul e branca no Porto, Viana do Castelo, Guimarães, Bragança, Braga, Lamego, Viseu e Vila Real.

Todas as guarnições do Porto aderem, mas Aveiro resiste, republicana. Em clima de guerra civil, ao fim de alguns dias, “os monárquicos sabem que Lisboa está perdida e traçam uma frente de contenção, porque sabem que as forças vindas do sul sobem em direcção ao Norte”, explicou Sérgio Veludo Coelho, numa visita guiada que foi “No encalço dos Resistentes: A Monarquia do Norte em Ovar”.

António França, da Divisão de Cultura ovarense, alerta que “há nesta altura, diversos aspectos que vão tornar esta região muito estratégica”. Sem capacidade de projecção de tropas do Porto até ao Mondego, os monárquicos apontam ao rio Vouga. “Esta é uma linha de água importante porque é entrecortada por rias e torna-se num obstáculo ou numa via de comunicação”, salienta o historiador convidado.
A notícia de que a Junta Governativa do Reino, encabeçada por Paiva Couceiro, está constituída no Porto chega a à então vila de Ovar, cerca das 16 horas do dia 19 de Janeiro. No meio do alarme, emerge desde logo uma figura: Zeferino Camossa, capitão do 3.º Batalhão de Ovar do Regimento de Infantaria 24, que lê o sentimento da população e resolve defender a República.

No dia 20 de Janeiro, “de Aveiro chegam ordens para que o Batalhão desguarneça Ovar e se retire para a casa-mãe, em Aveiro”, continua Sérgio Veludo, justificando que “a sul estava controlado, mas a norte, tirando Chaves e Vila Real, a adesão das guarnições à monarquia é forte”.

Povo na rua
Confrontado com a notícia, o povo ovarense faz uma manifestação republicana junto ao quartel do 3.º Batalhão que fica reduzido a um pequeno efectivo de 20 homens, liderados pelo sargento miliciano Abel Guedes de Pinho que consegue recrutar 30 republicanos civis.
No dia seguinte, na estação de Ovar, os ferroviários começam o levantamento da linha e dos carris para impedir a chegada dos monárquicos vindos do Porto de comboio. Sabia-se que havia mais de mil homens a caminho da vila. Quando chegam, as tropas monárquicas são recebidas a tiro, na Ponte Nova, pelos cerca de 30 civis republicanos (na fotografia). Sérgio Veludo reconhece que, embora em número inferior, “conseguem fazer resistência aos monárquicos, cujos mil homens se tinham dividido para entrar na vila por vários locais”.

O pequeno efectivo do 3.º Batalhão, ainda em Ovar, os ferroviários e o grupo de civis partem a seguir para Aveiro. Pouco depois, os monárquicos acabam por entrar na vila, comandados pelo tenente-coronel Corte-Real Machado, arvorando a bandeira azul e branca nos edifícios públicos, espalhando algum terror junto aos Paços do Concelho, como de costume. Daqui, a coluna monárquica parte na manhã do dia seguinte rumo a Estarreja, onde é implantada a Monarquia.
“Após um impasse de dez dias à espera de desenvolvimentos no Porto, no dia 12 de fevereiro, cerca das 17 horas, as tropas da República começam a entrar em Ovar”, continua Sérgio Veludo, a caminho do último ponto de passagem, a Câmara Municipal de Ovar. Pedro Chaves (e Raúl Tamagnini) tinham chegado previamente de barco pela Ria, vindos de Aveiro, discursam na varanda dos Paços do Concelho ovarense, rodeados de marinheiros. O povo acolhe-os com júbilo.
As tropas republicanas repousam na vila enquanto tomam posse na administração do concelho Alberto Tavares e Pedro Chaves preside à comissão administrativa. Iniciava-se em Ovar a Nova República Velha.

O colar perdido
Cerca de um ano depois, Aveiro, Chaves e Lisboa são apontadas para a receber a Ordem Militar da Torre e Espada do Valor, Lealdade e Mérito pelos feitos em prol da República. Ovar reclamou. “Tinham-se esquecido que meia centena de homens susteram os ímpetos monárquicos do Norte”, disse António França.
No primeiro aniversário da entrada das tropas republicanas em Ovar, a 12 de Fevereiro de 1920, o general Mouzinho de Albuquerque, representando o Governo e o ministro da Guerra, deslocou-se à vila vareira para colocar as insígnias da Torre e Espada na bandeira do Município e o colar ao peito do comandante do 3.º Batalhão de Infantaria 24, o capitão Zeferino Camossa Ferraz de Abreu.

Foi um dia de festa em Ovar que, segundo os homens que comandavam os destinos do país, mostrou “a sua ardente fé republicana e indefectível patriotismo, demonstrando valor e coragem pela resistência que durante algumas horas opôs à entrada dos revoltosos monárquicos que em grandes forças marchavam para o Sul”.
Hoje, o Diploma mantém-se na Edilidade, mas o colar desapareceu, embora se tenham feito esforços para que a condecoração fique completa.
A peça tem um carregado valor simbólico: representa a bravura das gentes de Ovar no tempo em que a República queria ganhar raízes no país. O esforço não foi em vão e acabou reconhecido.

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