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CarnavalOpinião

Carnaval de Ovar 2030: em vez de o tornarmos mais pequeno, porque não temos coragem de o tornar ainda maior? – Por Paulo Santos

Nos últimos dias muito se tem falado sobre a possibilidade de alterar a forma como termina o Carnaval de Ovar, deixando de realizar nos moldes habituais a cerimónia pública onde são conhecidos os resultados e entregues os prémios.



Já dei a minha opinião sobre isso e continuo a achar que seria um passo na direção errada.

Mas toda esta discussão acabou por me levar a pensar numa questão muito maior.

Em vez de discutirmos como tornar mais pequena e fechada a última noite do Carnaval, porque não discutimos como tornar ainda maior o próprio Carnaval de Ovar?

 Talvez seja essa a discussão que verdadeiramente vale a pena fazer.

O desafio não deveria ser descobrir onde esconder a contestação.

Deveria ser construir um Carnaval tão bem organizado, tão transparente e tão extraordinário que cada vez existissem menos razões para contestar a organização.

E não escrevo isto por achar que o Carnaval de Ovar está mal.

Muito pelo contrário.

Ovar tem hoje uma estrutura sólida, grupos e Escolas de Samba que têm evoluído enormemente, milhares de participantes, um público fiel e uma festa com uma identidade que levou décadas a construir.

Há muita coisa que se faz bem.

Mas reconhecer isso não significa achar que chegámos ao destino.

Quem tem a ambição de ser uma referência deve ser precisamente quem mais se questiona sobre aquilo que ainda pode fazer melhor.

E talvez nos últimos anos nos tenhamos habituado demasiado a uma expressão: “O melhor Carnaval de Portugal.”

 Gostamos de a dizer, faz parte da forma como promovemos e sentimos o nosso Carnaval.

Mas eu gostava de colocar a questão de outra maneira: O que falta fazer para que não sejamos nós a precisar de dizê-lo?

É daí que nasce esta reflexão. Não pretendo apresentar um programa eleitoral, nem tenho obviamente todas as respostas.

São ideias, algumas relativamente simples, outras mais ambiciosas.

Algumas poderiam começar a ser aplicadas praticamente amanhã. Outras exigiriam investimento, planeamento e vários anos para concretizar.

E certamente haverá quem discorde de algumas delas.

Ainda bem.

Porque também é assim que um Carnaval evolui: discutindo ideias, ouvindo quem participa, quem organiza e quem está do outro lado das grades a assistir.

Por isso, em vez de pensarmos apenas no Carnaval de 2027 ou 2028, proponho um exercício diferente.

Olhemos um pouco mais longe.

Se pudéssemos escolher, que Carnaval de Ovar gostaríamos de ter em 2030?

Eu começaria por estas dez ideias.

 

  1. Criar definitivamente a Avenida do Carnaval

 A Avenida Dr. Francisco Sá Carneiro é, e deve continuar a ser, a grande avenida do Carnaval de Ovar.

Mas está na altura de a infraestrutura acompanhar a dimensão que o próprio Carnaval atingiu.

O separador central restante, com árvores e outros obstáculos, condiciona a largura útil do desfile, limita as possibilidades das alegorias, dificulta a colocação de mais bancadas e prejudica a visibilidade.

Há muito que esta questão é apontada e talvez tenha chegado finalmente o momento de a resolver de forma definitiva.

O Carnaval cresceu, as alegorias evoluíram, as bancadas aumentaram e as exigências do próprio espetáculo são hoje muito diferentes das de outros tempos.

A avenida também precisa de acompanhar essa evolução.

E eu iria mais longe do que simplesmente retirar o separador.

A próxima intervenção deveria pensar a Sá Carneiro como uma avenida que serve normalmente a cidade durante o ano, mas que está estruturalmente preparada para se transformar no grande palco do Carnaval: pavimento, eletricidade, iluminação, implantação das bancadas, circulação, acessibilidade, zonas técnicas e atravessamentos.

Durante muitos anos fomos adaptando o Carnaval à avenida.

Talvez tenha chegado a altura de adaptar a avenida ao Carnaval.

  1. 100% bancada: “No Carnaval de Ovar, todos têm lugar”

Aqui deixo uma ambição que pode parecer ousada, mas que, olhando para a estrutura que Ovar já tem, talvez não seja assim tão difícil de alcançar: Fazer do Carnaval de Ovar o primeiro em que 100% do público pagante do Grande Corso assiste em bancada.

 Ovar já tem bancadas na grande maioria do percurso. Falta completar aquilo que, na prática, já é o modelo dominante da avenida.

E isso permitiria acabar progressivamente com uma realidade que considero difícil de justificar: pagar um bilhete para passar várias horas de pé e, dependendo do local onde se consegue ficar, nem sequer ter garantidas boas condições de visibilidade.

Quem chega primeiro encosta-se à frente, atrás formam-se duas, três, quatro filas e quem fica mais atrás passa muitas vezes o desfile a tentar encontrar um espaço entre cabeças para conseguir ver.

Se queremos elevar a experiência do público, podemos fazer melhor.

Nas atuais zonas de peão poderiam ser instaladas bancadas populares, de banco corrido e sem lugar marcado, com maior capacidade e um preço mais acessível.

Ao mesmo tempo, manter-se-iam as atuais bancadas com cadeira e lugar marcado para quem prefere esse conforto.

Ou seja, não estou a defender tornar o Carnaval mais caro.

Estou a defender precisamente o contrário: dar melhores condições e tentar torná-lo mais acessível.

Estarreja já oferece diferentes modalidades para assistir ao desfile, incluindo banco corrido sem lugar marcado e a preços inferiores aos praticados atualmente em Ovar.

Porque não estudar também esse caminho?

Uma bancada popular na ordem dos 8 ou 9 euros e bancadas marcadas a preços mais competitivos são valores que, naturalmente, teriam de ser estudados à luz dos custos e da capacidade.

Mas vale a pena fazer as contas.

Porque existe uma questão que não deve ser ignorada: mais lugares a um preço inferior podem significar mais público e não necessariamente menos receita.

Se as bancadas de Ovar já têm uma procura enorme e frequentemente esgotam, porque não aumentar essa capacidade?

E depois há uma realidade que às vezes esquecemos quando falamos do preço de um bilhete: as famílias não compram um bilhete.

Compram três, quatro ou cinco.

Uma diferença de 3 ou 4 euros parece pequena quando olhamos para uma entrada individual. Multiplicada por uma família inteira, já pode determinar a escolha entre Ovar e outro Carnaval.

E isso também acontece com excursões.

Não devemos aceitar que alguém possa preferir outro Carnaval não porque considera o espetáculo melhor, mas simplesmente porque consegue levar a família inteira por muito menos dinheiro.

Se Ovar acredita que tem um dos melhores produtos carnavalescos do país, então deve também procurar torná-lo acessível ao maior número possível de pessoas.

E aqui poderíamos criar algo que fosse simultaneamente uma política de bilhética, uma melhoria da experiência e até uma imagem de marca:


NO CARNAVAL DE OVAR, TODOS TÊM LUGAR.

Um lugar para se sentar, um lugar de onde consiga ver.

E um preço que permita que cada vez mais pessoas possam estar lá.

  1. Não precisamos apenas de luz. Precisamos de melhor luz.

Há outro aspeto que, para quem acompanha regularmente os desfiles  e principalmente para quem fotografa ou filma  é difícil não notar: a iluminação da avenida continua longe de acompanhar a qualidade que o espetáculo atingiu.

E aqui é importante ser justo.

Não é verdade que o desfile dependa apenas da iluminação pública existente. A organização instala geradores e vários projetores LED ao longo do percurso, nomeadamente nas zonas das bancadas.

Portanto, existe equipamento. Existe investimento. O problema está no resultado.

A iluminação é pouco uniforme, há zonas claramente mais escuras do que outras e nem sempre a orientação e distribuição da luz valorizam devidamente quem está a desfilar.

Durante os Grandes Corsos isso começa a tornar-se particularmente evidente à medida que a tarde termina e passam os últimos grupos.

Mas é no desfile noturno das Escolas de Samba que o problema mais se evidencia.

Estamos a falar de quatro escolas que passam meses a trabalhar fantasias, cores, brilhos, maquilhagem, adereços e alegorias para apresentarem tudo numa única noite.

Essa noite merece melhores condições.

E não é apenas uma questão de conforto para quem está na bancada. É uma questão de valorização artística.

Uma fantasia pode ter um trabalho extraordinário de cor e brilho, mas precisa de luz para ser vista. Uma maquilhagem pode ter horas de trabalho, mas precisa de luz para ser apreciada. Uma alegoria pode estar carregada de pormenores, mas esses pormenores desaparecem se a iluminação não os revelar.

Há ainda outra dimensão que hoje não pode ser ignorada: a imagem que sai do Carnaval de Ovar para fora de Ovar.

Fotografias, vídeos, imprensa, televisão e redes sociais prolongam o Carnaval muito para além daqueles dias.

Uma fotografia extraordinária de uma Escola de Samba pode circular durante anos. Um vídeo pode chegar a milhares de pessoas que nunca estiveram em Ovar.

E quem fotografa atualmente o desfile noturno sabe que acaba muitas vezes condicionado a determinados locais simplesmente porque são aqueles onde existe alguma luz aproveitável. Mesmo junto às zonas destinadas à comunicação social, as condições estão longe de ser ideais.

Por isso, não acho que a solução seja simplesmente comprar mais projetores ou instalar mais potência.

Ovar precisa de um verdadeiro plano de iluminação para os seus desfiles.

Uma iluminação pensada por profissionais que percebam deste tipo de espetáculo e que olhem para todo o percurso: onde falta luz, onde existe luz a mais ou mal direcionada, onde se criam sombras e, principalmente, como garantir uma iluminação mais uniforme que valorize quem está a desfilar e permita melhores condições para fotografia e vídeo.

E depois há uma coisa que me parece essencial: testar tudo à noite antes do Carnaval, já com as bancadas e restantes estruturas montadas.

Acendem-se os projetores. Percorre-se a avenida. Fotografa-se. Filma-se. Vê-se onde está mal. E corrige-se.

Não parece nada de extraordinário. Mas provavelmente faria uma enorme diferença no resultado final.

E no percurso mais curto utilizado pelas Escolas de Samba  e que nesta Visão 2030 também poderia receber a futura Noite da Passerelle eu seria ainda mais exigente.

Essa zona podia tornar-se verdadeiramente o grande palco noturno do Carnaval de Ovar, com uma iluminação preparada especificamente para valorizar aquilo que ali acontece.

Sexta-feira, Passerelle.

Sábado, Escolas de Samba.

O mesmo investimento serviria duas noites consecutivas e dois espetáculos onde a componente visual é fundamental.

Porque uma coisa é ter luz suficiente para vermos quem passa.

Outra completamente diferente é ter luz capaz de mostrar tudo aquilo que quem passa trabalhou durante meses para nos apresentar.

Não basta iluminar a avenida. É preciso iluminar o espetáculo.

  1. A avenida é o palco. Durante o desfile, respeite-se quem lá está.

Há situações que nos habituámos a ver no Carnaval de Ovar, mas que não devíamos continuar a considerar normais.

Uma delas é ter público a atravessar a avenida enquanto um grupo ou uma Escola de Samba está a desfilar.

E na noite das Escolas de Samba isto torna-se ainda mais evidente.

Está uma escola em plena apresentação e, pelo meio, aparecem pessoas a atravessar a avenida, algumas tranquilamente com copos na mão, como se aquilo não fosse parte de um espetáculo.

Não faz sentido.

Às vezes parece que nos esquecemos de uma coisa básica: aquilo é um espetáculo.

Se estivéssemos perante um palco, ninguém acharia normal ver pessoas estranhas à atuação atravessarem-se entre os artistas enquanto estes estão a atuar.

Na avenida deveria aplicar-se exatamente o mesmo princípio.

Durante aqueles minutos, aquele é o palco dos grupos e das escolas.

Há coreografias, representações, música, carros alegóricos, fantasias e meses de trabalho a serem apresentados  e além disso, avaliados. Não faz sentido que, no meio de tudo isto, circulem pessoas que nada têm a ver com o desfile.

Quem está na avenida passou meses a preparar aquele momento, está a apresentar-se perante milhares de pessoas e merece encontrar o percurso livre para o fazer.

E quem está nas bancadas também pagou para assistir ao espetáculo, não para ver pessoas a atravessarem-se à frente de quem desfila.

Isto não significa impedir o público de circular de um lado para o outro.

Significa simplesmente organizar essa circulação.

Criem-se corredores próprios junto às bancadas e definam-se pontos específicos de atravessamento da avenida, devidamente controlados.

Entre dois grupos, quando houver condições, deixa-se atravessar.

Quando um grupo se aproxima, fecha-se a passagem.

E volta a abrir-se assim que passar.

Não estamos a inventar nada de extraordinário.
É uma questão de organização e, sobretudo, de tratar a avenida durante aqueles momentos como aquilo que realmente é: o palco do Carnaval de Ovar.

E aqui podemos olhar para Estarreja, onde existe uma separação mais eficaz entre a circulação do público e o espaço do desfile.

Se funciona, não vejo qualquer problema em olhar para aquilo que fazem bem e adaptar a solução à realidade de Ovar.

Porque isto não é apenas uma questão de imagem.

É também respeito por quem desfila, respeito por quem pagou para assistir e segurança para todos.

A regra deveria ser muito simples: Há espaço e momento para o público atravessar. Mas quando chega o Carnaval, a avenida pertence a quem está a desfilar.


  1. O relógio deve organizar o desfile, não mandar no Carnaval

Organizar um desfile com esta dimensão, com dezenas de grupos, carros alegóricos e milhares de participantes, obriga naturalmente a ter regras e tempos.

Os checkpoints ao longo do percurso têm uma função importante: ajudam a manter o desfile organizado, evitam grandes distâncias entre grupos e permitem que o espetáculo mantenha um ritmo constante.

O problema não são os checkpoints.

O problema começa quando a preocupação em chegar ao próximo ponto dentro do tempo previsto se torna mais importante do que aquilo que acontece pelo caminho.

Se um grupo perde alguns minutos numa parte do percurso, sabe que terá de os recuperar mais à frente.

E então acelera.

Depois de tantos anos a desfilar desta forma, esta preocupação com o cronómetro já está de tal maneira presente que acaba inevitavelmente por influenciar a própria forma como os grupos pensam e preparam as suas apresentações.

E é aqui que, na minha opinião, estamos a perder alguma coisa.

O Carnaval de Ovar sempre teve uma característica que o tornava especial: a brincadeira entre os grupos e o público.

Não era apenas passar pela avenida para mostrar uma fantasia e um carro.

Havia verdadeira interação com quem estava a assistir.
Parava-se, brincava-se, metia-se o público na própria representação e criavam-se momentos que muitas vezes eram completamente imprevisíveis.

Tenho saudades, por exemplo, dos Vampiros, dos seus grandes carros e da forma como tantas vezes aproveitavam aquilo que levavam para a avenida para brincar com o público. Iam buscar pessoas, envolviam-nas nas brincadeiras e arrancavam gargalhadas a miúdos e graúdos.

E os Vampiros são apenas um exemplo.

Muitos outros grupos fizeram, e continuam a fazer, da interação com o público uma parte da identidade dos Grupos Carnavalescos de Ovar.

É precisamente essa espontaneidade que tenho receio que estejamos, aos poucos, a perder.

Porque brincar demora tempo.

Parar demora tempo.

Ir buscar alguém ao público demora tempo.

Desenvolver uma representação demora tempo.

E quando temos constantemente na cabeça que é preciso chegar ao próximo checkpoint dentro daquela janela, a tendência natural é simplificar, avançar e não arriscar perder minutos.

Aos poucos podemos estar a transformar aquilo que era também uma brincadeira com o público numa apresentação cada vez mais formatada.

E acho que devemos parar e pensar se é isso que queremos.

Não estou a defender acabar com os tempos.

Não estou a defender acabar com os checkpoints.

Muito menos estou a defender regressar a desfiles intermináveis.

Estou a defender que se encontre novamente um equilíbrio.

Talvez seja possível introduzir alguma tolerância nos checkpoints.

Talvez alguns minutos adicionais no tempo total façam diferença.

Talvez se possa distinguir melhor aquilo que é um atraso provocado por desorganização daquilo que é tempo utilizado pelo grupo para fazer espetáculo e interagir com o público.

E esta discussão deve ser feita principalmente com quem conhece melhor essa realidade: os próprios grupos e escolas que percorrem a avenida.

Organizar melhor o desfile foi uma evolução importante.

Só não podemos deixar que essa organização retire precisamente algumas das características que fizeram do Carnaval de Ovar aquilo que ele é.

O cronómetro é necessário.


Mas não pode tornar-se o protagonista.

Porque, se para ganharmos alguns minutos no final do desfile tivermos de perder a brincadeira pelo caminho:

talvez estejamos a ganhar minutos mas estamos a perder o Carnaval.

  1. Sexta-feira: porque não uma noite só para a Passerelle?

Nem todas as ideias para melhorar o Carnaval têm de nascer de alguma coisa que esteja mal. Algumas podem nascer precisamente daquilo que cresceu e evoluiu muito. E, para mim, os Grupos de Passerelle são um desses casos. Quem acompanha o Carnaval de Ovar ao longo dos anos percebe facilmente a evolução que esta categoria teve.

As fantasias estão cada vez mais trabalhadas, as coreografias ganharam muita importância, os carros evoluíram e existe hoje uma preocupação muito maior com toda a apresentação.

Bailarinos de Válega, Barulhentas, Joanas do Arco da Velha, Levados do Diabo, Melindrosas e Palhacinhas atingiram um nível que, na minha opinião, já justifica perguntar:


Não estará na altura de lhes dar uma noite só para eles?

A sexta-feira podia tornar-se a Noite da Passerelle do Carnaval de Ovar.

Grande parte da infraestrutura necessária já estaria montada para o fim de semana: bancadas, iluminação, barreiras, zonas de circulação, bilheteiras e toda a envolvente do Carnaval.

E no dia seguinte aquele espaço receberia as Escolas de Samba. Porque não aproveitar na sexta-feira o mesmo percurso mais curto, com cerca de 550 metros, e entregá-lo aos seis Grupos de Passerelle?

Mas há aqui uma condição que considero fundamental.


Não seria simplesmente pegar na apresentação do Grande Corso e fazê-la passar também na sexta-feira.

Se lhes vamos dar uma noite, então temos de lhes dar verdadeiramente uma noite para brilharem. Mais tempo para cada grupo. Mais liberdade para desenvolver a coreografia. Mais espaço para representação.

Mais possibilidades de explorar a música, as fantasias e os carros alegóricos. Sem aquela pressão permanente de ter dezenas de grupos atrás à espera de avançar.

Que cada Passerelle possa pensar a sua apresentação sabendo que, naquela noite, o público está ali especificamente para os ver. E isso também pode ter um efeito interessante dentro dos próprios grupos.

Quando se cria um palco maior, também se lança um desafio maior. Talvez daqui pudesse nascer uma nova evolução da categoria. Naturalmente, isto não significaria retirar os Passerelle do Grande Corso.


Continuariam a desfilar normalmente no domingo e na terça-feira.

A sexta-feira seria algo adicional. Mais um espetáculo. Mais uma noite de Carnaval.

E também aqui a política de preços seria importante. Se estamos a criar uma noite nova, acho que faria sentido começar com um preço bastante acessível, precisamente para incentivar as pessoas a experimentarem.

E poder-se-ia estudar algo que considero particularmente interessante:

Pack Passerelle + Escolas de Samba = cerca de 10 euros.

Sexta-feira, Passerelle.

Sábado, Escolas de Samba.

Duas noites consecutivas de espetáculo por um preço capaz de trazer ainda mais gente à avenida. E há também uma lógica de aproveitamento do investimento.

Uma iluminação noturna melhor, como defendi no ponto anterior, deixaria de servir apenas a noite das Escolas de Samba. Passaria a servir dois grandes espetáculos em duas noites consecutivas.

As bancadas também, as barreiras também e grande parte da infraestrutura também. E o Carnaval ganhava mais um dia forte no seu programa.

Teríamos:

Sexta-feira:  Noite da Passerelle
Sábado:  Noite das Escolas de Samba
Domingo: Grande Corso

Três dias consecutivos, mas três espetáculos com identidades completamente diferentes. E talvez seja esta uma das ideias que melhor resume aquilo que estou a tentar defender nesta reflexão.

Neste momento discute-se a possibilidade de retirar ao Carnaval um dos seus momentos mais aguardados. Eu gostava que a discussão fosse precisamente a contrária.


Em vez de pensarmos no que podemos retirar ao Carnaval de Ovar, porque não começamos a pensar naquilo que ainda lhe podemos acrescentar?

E, se há quem já tenha conquistado qualidade suficiente para merecer mais palco, os Grupos de Passerelle estão certamente nessa conversa.

  1. A Noite das Escolas de Samba não precisa de ser reinventada. Precisa de melhores condições.

Se há uma noite que já conquistou um lugar muito próprio no Carnaval de Ovar é a das Escolas de Samba. Quatro escolas. Quatro enredos. Quatro formas diferentes de levar o samba à avenida.

E milhares de pessoas nas bancadas para assistir a um espetáculo que, ano após ano, tem aumentado de qualidade e exigência.

Por isso, aqui não acho que seja necessário inventar um formato novo.

É preciso, sobretudo, dar melhores condições às escolas para mostrarem aquilo que já são capazes de fazer.

E há três aspetos que, para mim, fariam uma diferença enorme. O primeiro já foi abordado anteriormente: a iluminação. É precisamente nesta noite que todas as limitações da iluminação atual ficam mais evidentes.

Cor, brilho, maquilhagem, fantasias, alegorias e expressão corporal são elementos fundamentais numa Escola de Samba. Se existe uma noite em que Ovar precisa de ter uma iluminação verdadeiramente à altura do espetáculo, é esta.

O segundo é o tempo.

Não estou a defender transformar o desfile numa noite interminável. Mas talvez valha a pena dar às escolas um pouco mais de margem para apresentarem o trabalho que prepararam durante tantos meses.

Quem está na bancada também quer ter tempo para ver. Quer apreciar uma ala, perceber uma fantasia, observar uma alegoria, ouvir a bateria e viver a passagem da escola sem sentir que tudo tem constantemente de avançar.

Às vezes, mais alguns minutos podem valer muito mais do que aquilo que custam no relógio.

E o terceiro ponto liga diretamente àquilo que já defendi anteriormente:

durante a apresentação de uma Escola de Samba, a avenida tem de ser exclusivamente da escola.

Sem pessoas a atravessar. Sem circulação pelo meio das alas. Sem elementos estranhos ao espetáculo a aparecerem no campo de visão de quem está nas bancadas ou de quem está a fotografar e filmar.

Estamos perante uma competição.

Há jurados a avaliar.

Há meses de trabalho em apresentação.

Há milhares de pessoas que pagaram para assistir.

E há uma escola que, naquele momento, está a viver provavelmente os minutos mais importantes de todo o seu ano carnavalesco.


Respeitemos esse momento.

Não precisamos de encher esta noite de novas invenções. Não precisamos de mudar aquilo que funciona. Precisamos de olhar para aquilo que já temos e perguntar:

estamos a dar às nossas Escolas de Samba as melhores condições possíveis para mostrarem todo o seu potencial?

Melhor luz.

Um pouco mais de tempo.

Uma avenida verdadeiramente livre durante a atuação.

Pode parecer pouco.


Mas às vezes evoluir não significa acrescentar mais coisas. Significa fazer melhor aquilo que já temos.

 

  1. Se queremos transparência, então mostremos tudo

Todos os anos acontece. Saem as classificações e começam as discussões. Uns concordam, outros discordam. Comparam-se grupos, escolas, fantasias, carros, baterias, coreografias e aparecem inevitavelmente as suspeitas, as acusações de favorecimento e os famosos “arranjinhos”.

Faz parte de qualquer competição existir discordância. Mas há uma diferença entre discutir uma classificação porque não concordamos com ela e desconfiar da forma como se chegou àquele resultado.

E é precisamente aí que a organização pode fazer mais. Atualmente, o público conhece as classificações e as pontuações finais. Mas existe muito mais informação.

As direções dos grupos e das Escolas de Samba recebem documentação bastante mais detalhada, onde é possível perceber como foram avaliados diferentes itens, as pontuações atribuídas e outras informações relativas à avaliação.

Então faço uma pergunta muito simples: Porque é que essa informação não pode ser também do conhecimento público?

Não vejo nenhuma razão para as classificações detalhadas terem de ficar limitadas às direções. Depois de os resultados estarem oficialmente fechados, publiquem-se no site do Carnaval.

– Classificação final.

– Pontuações por item.

– Notas atribuídas pelos diferentes jurados.

– Penalizações.

– E, quando existam, observações e justificações das avaliações.

Tudo disponível para qualquer pessoa consultar.

Não para alimentar polémicas.


Precisamente para fazer o contrário.

Porque quando alguém disser: “Aquele grupo ganhou por arranjinho.” A melhor resposta da organização não é entrar numa discussão no Facebook nem pedir às pessoas que confiem no processo.

A melhor resposta é poder dizer: “As avaliações estão publicadas. Veja como se chegou ao resultado.”

Isso protege também os próprios vencedores. Porque quem ganha merece poder celebrar a vitória sem carregar imediatamente com a suspeita de que alguém o favoreceu.

E protege os jurados.

Uma avaliação pode ser discutível,  porque avaliar também envolve opinião,  mas pelo menos é possível perceber como aquela classificação foi construída.


E faria ainda outra coisa: identificaria claramente os locais onde estão os júris.

Quem desfila não deveria andar pela avenida a tentar perceber:

– “Será que o júri está aqui?”

– “Está todo naquela bancada?”

– “Já passámos por ele?”

Os pontos de avaliação deveriam estar devidamente assinalados ao longo do percurso.

Sem mistério.

Sem necessidade de esconder.

E, sempre que o modelo de avaliação o permita, faz sentido estudar uma distribuição dos jurados ao longo da avenida, em vez de concentrar toda a avaliação num único ponto.

Porque uma apresentação pode correr extraordinariamente bem numa parte do percurso e menos bem noutra. Avaliar o desfile em diferentes momentos também permite obter uma visão mais completa daquilo que foi apresentado.

E depois criaria uma coisa muito simples no site oficial:


Arquivo de Resultados do Carnaval de Ovar

2027 | 2028 | 2029 | 2030…

Entramos num ano e encontramos as classificações das Escolas de Samba, dos Grupos Carnavalescos e da Passerelle, acompanhadas das respetivas avaliações. Com o passar dos anos estaríamos também a construir uma memória competitiva do Carnaval de Ovar, acessível a todos.

E não precisamos de ter medo de publicar informação só porque alguém poderá utilizá-la para discordar.

As pessoas já discordam hoje. A diferença é que muitas vezes fazem-no sem terem acesso a toda a informação.

Quanto mais transparente for o processo, menos espaço existe para rumores e suspeitas. Nunca vamos acabar com a discussão sobre resultados. Nem devemos querer.


O objetivo não é acabar com a discussão. É acabar com o mistério.

Porque, para mim, transparência é uma coisa muito simples:


TRANSPARÊNCIA NÃO É PEDIR CONFIANÇA. É PERMITIR VERIFICAÇÃO.

 


  1. Um grande Carnaval também se faz nos pequenos pormenores

Quando falamos em fazer crescer o Carnaval de Ovar, é fácil pensar imediatamente em alegorias maiores, mais bancadas, melhor iluminação ou novos espetáculos.

Mas a experiência de quem vem assistir também depende de coisas muito mais básicas.

E uma delas são as casas de banho.

Para a quantidade de pessoas que se concentra na avenida durante várias horas, continuam a parecer insuficientes e, em alguns locais, a sua localização não é a mais lógica. Chegamos inclusivamente à situação contraditória de termos pessoas que precisam de atravessar a avenida para conseguir chegar a uma casa de banho.

Ora, se anteriormente defendemos que a avenida deve ser tratada como um palco e que o público não deve atravessar durante as atuações, também temos de lhe dar condições para que não precise de o fazer.

Não basta colocar WC portáteis onde exista espaço disponível. É preciso pensar a sua distribuição de acordo com o número de pessoas em cada zona, os acessos e os percursos naturais do público.

– Mais unidades onde forem necessárias.

– Bem distribuídas pelos dois lados da avenida.

– Casas de banho acessíveis para pessoas com mobilidade reduzida.

– Sinalização clara.

E condições para que seja possível chegar a elas sem interferir com o desfile.

O mesmo princípio deve aplicar-se à circulação do público. Se queremos mais bancadas e uma avenida cada vez mais organizada, temos também de garantir corredores que permitam às pessoas deslocarem-se, entrar e sair das suas zonas e chegar aos serviços essenciais sem terem como solução mais fácil atravessar pelo meio do espetáculo.

Pode parecer um assunto menor quando comparado com uma alegoria, uma Escola de Samba ou uma bancada cheia.

Mas para alguém que passa quatro ou cinco horas no recinto, não é um pormenor. E há uma ideia que atravessa várias das propostas desta Visão 2030: não podemos exigir que o público respeite cada vez mais o espetáculo se a própria organização não lhe proporcionar condições para o fazer.


Um grande Carnaval não se mede apenas pelo que passa na avenida. Mede-se também pela forma como tratamos quem está do outro lado a assistir.

  1. Não acabar com o encerramento. Engrandecê-lo.

E chegamos ao assunto que, no fundo, esteve na origem de toda esta reflexão.

A possibilidade de deixar de realizar, nos moldes habituais, a cerimónia pública onde são conhecidos os resultados e entregues os prémios do Carnaval de Ovar.

Depois de tudo aquilo que escrevi anteriormente, continuo a pensar exatamente o contrário:


Se este momento tem problemas, melhore-se. Não se acabe com ele.

A noite em que são conhecidos os resultados não pertence apenas aos grupos e às Escolas de Samba.

Também pertence ao público.

Às milhares de pessoas que acompanharam os desfiles, que têm os seus grupos e escolas de eleição, que fizeram contas, discutiram classificações e que esperam naturalmente pelo momento em que ficam a saber quem ganhou.

É o culminar de uma competição que começou muito antes de o primeiro grupo entrar na avenida. E uma competição precisa de um final. Naturalmente, é também um momento de emoções fortes.

Há quem ganhe. Há quem perca. Há alegria, lágrimas, festejos, desilusão, aplausos e também contestação. Nem todas as reações serão sempre bonitas ou adequadas. E quando ultrapassarem os limites do respeito, devem naturalmente ser condenadas.

Mas não acredito que a solução seja retirar o momento do espaço público e transferir a entrega dos prémios para uma cerimónia realizada meses depois, perante um público muito mais restrito.

Isso não resolve o problema. Apenas afasta a contestação do momento em que os resultados são conhecidos. E pode até produzir o efeito contrário.

Se queremos combater dúvidas, suspeitas e os inevitáveis comentários sobre “arranjinhos”, a resposta deve ser mais abertura, mais informação e mais transparência, não menos. É precisamente por isso que o ponto anterior é tão importante.

Publiquem-se as classificações detalhadas. Mostrem-se as avaliações. Expliquem-se as penalizações. Disponibilizem-se as justificações. E depois façamos da última noite aquilo que ela deveria ser: o grande encerramento do Carnaval de Ovar.

Porque talvez também aqui estejamos a olhar para o problema pelo lado errado. Em vez de perguntar: “Como evitamos que isto volte a acontecer?” Talvez devêssemos perguntar: “Como podemos fazer esta cerimónia melhor?”

Uma cerimónia mais organizada, mais bem apresentada. Com os resultados claros, com a entrega dos prémios.

Com imagens/vídeos dos melhores momentos dos desfiles. Com reconhecimento de quem participou e trabalhou durante meses. Com a festa dos vencedores, com música.

E, acima de tudo, com o público presente.

Porque o público também faz parte desta história.

Passa horas nas bancadas e nas ruas, compra bilhetes, acompanha os grupos, torce, aplaude, fotografa, filma, comenta e ajuda a criar o ambiente que distingue o Carnaval de Ovar.


Não faz sentido convidá-lo para viver intensamente a competição durante vários dias e depois fechar-lhe a porta precisamente no momento da decisão.

E também não devemos ter medo da discordância.

Uma classificação nunca vai agradar a todos.

Nunca agradou.

Provavelmente nunca agradará.


O objetivo não pode ser construir uma cerimónia onde ninguém contesta. Deve ser construir uma organização suficientemente segura e transparente para não ter medo de ser contestada.

O Carnaval é alegria, mas também é paixão.

E onde existe paixão existem emoções.

Saibamos geri-las.

Não as escondamos.

Depois de nove pontos a discutir como podemos fazer crescer o Carnaval de Ovar, seria estranho terminar propondo que um dos seus momentos mais aguardados ficasse mais pequeno.

Por isso, a minha proposta para 2030 é precisamente a contrária: não escondamos o final do Carnaval. Façamos dele um final ainda maior.

 

Conclusão: Ovar 2030

Nada daquilo que aqui proponho tem de acontecer de um dia para o outro. Algumas destas ideias são relativamente simples. Outras exigem investimento, planeamento, diálogo e provavelmente vários anos para serem concretizadas.

E algumas poderão até revelar-se difíceis ou precisar de ser adaptadas.


É precisamente para isso que serve uma visão. Para olhar para aquilo que temos hoje e perguntar onde queremos estar amanhã. Não escrevi estas linhas por achar que o Carnaval de Ovar está mal.

Muito pelo contrário.

Escrevo-as porque acredito que existe uma base suficientemente forte para podermos ser ainda mais ambiciosos. Ovar já tem aquilo que nenhuma obra, nenhum orçamento e nenhuma campanha de promoção conseguem criar de um dia para o outro.

– Tem história.

– Tem identidade.

– Tem grupos que passam meses a preparar alguns minutos na avenida.

– Tem Escolas de Samba que todos os anos procuram superar-se.

– Tem milhares de pessoas que vestem uma fantasia e fazem parte da festa.

– Tem rivalidades, emoção, criatividade, dedicação e uma paixão pelo Carnaval que passa de geração em geração.

– E tem público, muito público.

Pessoas que todos os anos regressam às bancadas e às ruas para ver aquilo que Ovar foi capaz de criar novamente.


Essa é a parte mais difícil de construir. E essa Ovar já tem. Agora falta continuar a elevar tudo aquilo que colocamos à volta dela. – Melhores condições para desfilar.

– Melhores condições para assistir.

– Uma avenida preparada para aquilo em que o Carnaval se tornou.

– Mais espaço para a criatividade e para a brincadeira.

– Uma nova noite para valorizar a Passerelle.

– Melhores condições para as Escolas de Samba brilharem.

– Mais transparência.

– E um encerramento que seja digno da dimensão de toda a festa.

– Não precisamos de copiar ninguém.

– Mas também não devemos ter medo de olhar para Estarreja quando Estarreja faz alguma coisa melhor, ou para qualquer outro Carnaval quando encontramos uma boa ideia. Aprendamos, adaptemos.

E depois façamos à maneira de Ovar.

Porque ser referência não significa acreditar que fazemos tudo melhor do que os outros.

Significa ter humildade suficiente para reconhecer quando alguém encontrou uma solução melhor e ambição suficiente para tentar fazer ainda melhor.

E talvez seja essa a principal ideia que gostaria que ficasse desta reflexão.

Enquanto discutimos a possibilidade de tornar mais pequeno um dos últimos momentos do Carnaval, eu preferia que estivéssemos a discutir como tornar maior tudo o resto.

Não quero um Carnaval onde não existam críticas.

Não quero um Carnaval onde ninguém conteste uma classificação.

E muito menos quero um Carnaval onde todos tenham obrigatoriamente de concordar com quem organiza.

Quero precisamente o contrário.


Quero um Carnaval que tenha confiança suficiente naquilo que faz para ouvir a crítica, transparência

suficiente para responder às dúvidas e ambição suficiente para continuar a melhorar.

Porque o Carnaval de Ovar não chegou até aqui por ter ficado parado.

Foi mudando, foi crescendo, foi aprendendo, foi-se profissionalizando.

E terá de continuar a fazê-lo.

2030 não está assim tão longe, talvez não consigamos fazer tudo.

Mas podemos decidir para onde queremos caminhar.

E se queremos realmente continuar a afirmar que Ovar tem o melhor Carnaval de Portugal, então coloquemos a fasquia onde ela deve estar: mais alta.

Ovar já gosta de dizer que tem o melhor Carnaval de Portugal.

Eu gostava que até 2030 perseguíssemos uma ambição ainda maior.

Que já não precisássemos de ser nós a dizê-lo. 

 

Paulo Santos (Ovar)

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