Opinião

Carta aberta ao Presidente da Câmara Municipal de Ovar, Salvador Malheiro – Sandra Marques

Exmo. sr.,
Constatei, com algum desagrado, que v. exa. reincidiu no acto lamentável de eliminar comentários meus em publicações da sua página pessoal. Tratando-se de uma página pública, aberta à participação dos cidadãos, e sendo mais do que óbvio que nenhuma das minhas participações alguma vez tenha sido de carácter desordeiro, conflituoso ou desrespeitador, não encontro absolutamente NENHUMA justificação para que, repetidamente, o venha fazendo.
Mas, mais grave ainda, é que desta feita não se tenha contentado com descartar a minha opinião; a minha participação foi radicalmente bloqueada, pelo que me vejo de repente na condição de pessoa proscrita, sem direito a emitir opinião, mesmo naquelas publicações que são de interesse público municipal e que, lamentavelmente, só na sua página se encontram. Porque ainda há isto, senhor presidente: há informações que deviam – tinham de – constar primeiramente na página da Câmara Municipal ou em algum outro suporte oficial mas são canalizadas para a sua página pessoal, pelo que não nos resta outra opção senão frequentá-la. Foi assim com o aviso da implementação do cerco e a sua renovação; com as informações relativas às prestações da Segurança Social no confinamento; e é assim diariamente com os números da Covid-19 no nosso concelho. Inexplicavelmente, quando pretendemos obter informações deste nível de relevo e importância, temos de procurá-las na sua página de promoção pessoal, de permeio com fotos das suas férias, recortes da imprensa cor-de-rosa e vídeos da sua filha a dançar de biquíni.

E o que o incomoda tanto, afinal, nas minhas intervenções? Será o facto de serem articuladas, bem reflectidas e igualmente bem expressas, e a tal ponto pertinentes que são validadas por vários outros munícipes que se identificam com a minha linha de pensamento?
Insisto, aqui, numa outra ideia: há, ocasionalmente, pessoas que se manifestam na sua página com modos menos próprios, em linguajares inaceitáveis, e em certos casos exibindo autênticos discursos de ódio, de conteúdo violento e eticamente reprovável, que o senhor presidente permite e mantém, pelo simples facto de virem em reforço da sua própria opinião. Lembro, a propósito, um vídeo que v. exa. entendeu partilhar sobre um confronto verbal entre a polícia e um grupo de jovens de Lisboa (que acusou de “falta de berço”), e na sua caixa de comentários chegou a defender-se, de forma grosseira e leviana, o recurso à violência, à tortura ou morte destas pessoas, sem que v. exa. tenha achado oportuno, nesse episódio, fazer alguma moderação ou dar livre curso ao seu impulso censor (chame-lhe v. exa. o que quiser). Pergunto: haverá em Ovar dois pesos e duas medidas? Existirão cidadãos de primeira (os que validam e bajulam v. exa. acriticamente) e cidadãos de segunda (os que, com sentido democrático, exercem de forma espontânea e desinteressada o seu direito cívico de questionar e ajuizar as acções dos seus eleitos)?

Vem esta minha carta aberta – que não carece de resposta mas sim, quando muito, de uma reflexão da sua parte – em resultado, também, de alguma indignação, pelo facto de, hoje, ‘Dia da Gratidão’, o senhor presidente enviar, via Facebook, uma mensagem de agradecimento a todos os munícipes “pela sua colaboração”, incluindo, nas suas próprias palavras, aqueles que “nem sempre estão de acordo com a nossa forma de trabalhar”. Ou seja: agradece publicamente ao mesmo tempo que silencia e aliena pela calada, aqueles que, num ou outro ponto, ousam divergir das suas opções.
O boicote reiterado à minha livre expressão, que sempre exerci de forma cívica, educada e responsável, constitui – se me permite dizê-lo com o mesmo à-vontade com que v. exa. elimina os meus contributos do olhar de terceiros e censura a minha participação pública – uma manobra de prepotência muito para lá do que consigo qualificar.

Tanto mais que, tendo eu exercido profissionalmente na área da comunicação desde há mais de vinte anos, tanto ao serviço do jornalismo como da assessoria de imprensa, e tantas vezes numa relação tensa com o meio político – fosse com os seus pares, fosse com outras forças partidárias – nunca até agora havia visto a minha palavra silenciada, pelo que não posso aceitar de ânimo leve que o seja agora.
Hoje, por opção, já não estou no jornalismo e acompanho as questões municipais por mero interesse de cidadã, mas – lamento – não estou interessada em ser apenas uma voz muda e complacente quando o presidente se arroga o direito de falar em nome do ‘POVO VAREIRO’ (porque o povo vareiro não é todo igual, não pensa todo da mesma forma, não tem todo as mesmas ambições e preocupações, nem tem de acompanhar cegamente o seu presidente em toda a qualquer circunstância); nem tão-pouco estou interessada em ser apenas uma pagadora de IMI. Sou uma munícipe de corpo inteiro, atenta, autónoma e com opiniões – e, pese embora a desconsideração do autarca que me representa (e que até ajudei a eleger), tenciono continuar a sê-lo.

A minha vida não é feita de combate político, nem tenho qualquer tipo de interesse nesse campo; o que me move, de cada vez que falo, é o imperativo de acrescentar à discussão alguma voz de bom senso, algum sentido crítico e algum pensamento seriamente reflectido sobre o que se passa na nossa terra, numa altura em que me parece que o escrutínio da actividade política pelos cidadãos – quando sério e ponderado – é cada vez mais vital e imprescindível às democracias.

A muitos níveis, de resto, o presidente Salvador Malheiro parece ter uma séria dificuldade em perceber os mecanismos da democracia: ninguém, em tempo algum da vida política, consegue agradar a toda a gente. Mesmo o político mais excepcional estará sempre sujeito às opiniões de quem acha que as coisas poderiam ter sido feitas de outra maneira. Em democracia, pessoas diferentes podem todos ter as mesmas boas intenções e os melhores propósitos, mas acreditar em caminhos distintos para chegar a objectivos comuns. E esse confronto de ideias e opiniões, essa pluralidade, é sempre salutar e enriquecedor para a democracia – a não ser, claro, que não se acredite na democracia, ou se seja tão imaturo politicamente ao ponto de não aceitar a sua lógica de funcionamento. O senhor presidente ganhou as últimas eleições de forma meritória, com uma maioria esmagadora, mas, se calhar, convenceu-se de que pode dizer e fazer o que quiser, que a contestação não existe ou não é para levar em conta. Se assim for, está enganado: ninguém faz tudo certo, nem ninguém, em política, alguma vez alcançará a unanimidade, muito menos aqueles que procuram alcançá-la por via de manobras de opressão junto dos que não alinham consigo.

A verdade, neste Dia da Gratidão que motivou de sua parte frases tão compungidas, é que os seus actos, mais do que as palavras, deixam claro que a minha voz não tem valor no seu tempo e espaço de influência, e que a minha participação cívica – só pelo facto de ser por vezes em sentido contrário àquele que lhe traz benefício – é confundida, levianamente, com voz de oposição.
Pelo que, se na página pública do autarca eleito não há lugar para a pluralidade de opiniões, terei de diligenciar para que a minha voz chegue onde possa ser acolhida, e não creio que venha a sentir grande dificuldade nisso. Sê-lo-ei, por certo, em todo o lugar para lá de uma certa página de autopromoção política e pessoal de onde, cobarde e furtivamente, me vejo agora excluída. Sirva, pois, esta carta aberta como exemplo do que acabo de afirmar.

Com os meus cordiais cumprimentos,
Sandra Marques

Residente em Cortegaça, licenciada em jornalismo, ex-chefe de redacção do semanário vareiro “Tribuna Press” e ex-directora adjunta do jornal “Praça Pública”, convicta defensora da liberdade de expressão responsável e dos valores democráticos

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