Opinião

Céu nublado ou sol com algumas nuvens? – Sérgio Chaves

O título que escolhi para esta crónica resume a minha maneira de ver duas faces da mesma moeda, em que a primeira é claramente a que os principais meios de comunicação optam na escolha da esmagadora maioria dos temas que abordam e a segunda seria a versão do país e do mundo positivos, ou o que resta de positivo neles.

Concordo que o pântano geral do país e do mundo dão certa razão à insistência das televisões, mas só pegando nos aspectos positivos e tentando resgatá-los dos terrenos movediços que lhes são próximos, podemos ter aspirações a algo melhor.

Portanto, ainda que episódios recentes sejam bastante aliciantes para tema de conversa, dar-lhes mais cobertura seria continuar a insistir no mesmo erro. Mais do que a corrupção só por si destrói, é o efeito de distorção que gera na economia e na sociedade, e também em última instância no tempo e energia que perdemos a falar dela em vez de falar de coisas bonitas, positivas e alegres.

Que se perca tempo e imagens na dinâmica que os centros de Porto e Lisboa apresentam nesta altura do ano, bem como de todas as outras cidades e aldeias a que se possa chegar e apresentar e divulgar. Fale-se das novas empresas, inovações e engenhocas que apareceram por este país fora.

Fale-se dos Óscares e mais Óscares do turismo, estrelas Michelin, hotéis premiados, de cada vez mais turistas por cá e cada vez mais encantados. Vamos aplaudir as novas rotas das low-cost para os Açores. Quantos de nós já foram a Porto Santo ao aos Açores? E quantos de nós já se perderam e encantaram no sul ou ilhas espanholas…?

Quem tem a melhor gastronomia do mundo? E cá dentro o que é melhor? Perca-se tempo a discutir o porquê do excesso de neve fechar os acessos à Torre da Serra da Estrela. O porquê da erosão costeira. As alternativas para algumas Rias e Rios deixarem de ser porcelana fina quase intocável e passarem a ser polos de desenvolvimento transversais a vários municípios e a vários sectores. Não se percam mais horas, nem minutos, nem segundos a discutir se a prisão preventiva é justa ou não! Pronto, pode-se perder um tempo, sim, a debater o porquê de praticamente qualquer acto entre um cidadão normal e cumpridor e o Estado possa resultar na transformação do cidadão num potencial vigarista e criminoso. Falo em dívidas menores de portagens, taxas e afins tão em voga.

Voltemos então ao que interessa: exportar o pastel de nata, os ovos-moles e o pão-de-ló e afirmar as enguias, a sua caldeirada, a chanfana e o cabrito.

Já que estamos a chegar ao Natal e falando de bacalhau (de robalos também já chega de falatório), podemos perder um bocadinho de tempo a discutir a política das pescas e da agricultura. Sim, porque o bacalhau tem acompanhamento…

Por fim, fica a menção mais que honrosa aos alentejanos pelo feito de terem tornado o Cante Património da Humanidade.

Sérgio Chaves
(08.12.2014)
* Autor não aderiu ao novo acordo ortográfico

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