Covid-19

De mim para Ovar!

Por vezes, estou em frente a esta folha sem saber o que escrever. Olho-a e vejo-a vazia, sem uma tecla premida que lhe dê cor, forma, alegria e, essencialmente, rumo. Muitos dos textos que vos fiz chegar, por este Ovarnews que tanto me oferece, foram sacados no arrombo do momento. Não deveria confessá-lo, rotular-me-á de pouco capaz ou preparado, mas só com sinceridade é que as coisas valem a pena, não é? 

Julgo que sim e, por isso, só por isso, vos estou a fazer esta inconfidência, que, acredito, compreenderão, pela certeza que não pode ser fácil todas as semanas ter uma palavra a dizer sobre a nossa cidade, sem ser demasiado repetitivo ou banal. 

Acredito que já o tenha sido, não tenha forma de evitá-lo, pensando que até os geniais, os mais incríveis, já tiveram instantes de banalidade ou textos de repetição, o que dizer de mim, um menino criado por pais esfalfados pelo trabalho e preparados para mim pelo amor, que sou só um aspirante a qualquer coisa. Não sou um aspirante a escritor nem a gestor de topo, sou um aspirante a qualquer coisa. 

Nesta quadra natalícia, em que já vou com os meus vinte e seis anos, sinto-me igualzinho a um natal de há onze ou doze anos atrás, cheio de incertezas sobre a vida, sobre o futuro que ainda não chegou, sobre o próprio dia de amanhã. Sou, até hoje, um menino, com a expectativa alargada de o ser sempre, náufrago do navio dos meus sonhos. 

Não é fácil concretizar o que sonho para mim, porque tenho dificuldade de decifrar o que sonho para mim. Possuo uma cabeça demasiado veloz, demasiado incapaz de concentrar-se numa única coisa, e por isso sou um eterno aspirante a tudo, que se não tiver cuidado será um aspirante a nada. A linha do tudo e do nada é mais fina que a do amor e do ódio, que dizem os entendidos ser mínima. 

Pelo tamanho dessa linha, do tudo e do nada, é que estou a escrever este texto, esta divagação de ideias. Sendo concreto, como suponho que anseiem desde a primeira linha, o que se passa é que esta semana há o tudo. Principiei o texto sem o celeuma da página branca, porém com outra questão a resolver. Hoje, nesta folha, tinha três temas a abordar, em que cada um tinha a sua importância. Nenhuma maior e nenhuma menor, todas à sua dimensão, todas à sua maneira. 

No passado dia dezanove de Dezembro, a nossa Associação Desportiva Ovarense, que sobrevive na relva do Marques da Silva, com o amor incansável e esplêndido de alguns, comemorou o seu aniversário. Celebrou noventa e duas primaveras, em que resistiu a muitos invernos. Teve tudo para não chegar a esta idade quase centenária, com tantos que foram os entraves económicos, financeiros e, mesmo, humanos, mas a verdade é que chegou. Chegou pelas mãos dos ovarenses que nunca desistiram de serem felizes com o brasão de um clube feito pela e para terra. Estão eles de parabéns, como está o clube. 

Porém, não se esgota aqui o que tinha a referir. Nesse mesmo dia dezanove de Dezembro, estava a comemorar-se o aniversário do nosso quartel de bombeiros, dos nossos incansáveis num país sofrido de fogos. Eles são heróis vestidos de vermelho ou equipados a rigor para viverem as suas vidas civis. São heróis a toda a hora, a todo instante, por toda a vida. Só heróis podem estar disponíveis para se voluntariem contro o fogo, o malvado do fogo; só heróis se podem voluntariar para abandonar a paz dos seus lares, o aconchego das suas famílias, o pacato da sua existência, para nos assegurarem que se nos sentirmos mal teremos quem nos leve ao hospital, quem nos dê a mão e diga: vai correr tudo bem! Infelizmente, por vezes não corre, mas não corre sabendo que eles sempre deram tudo, que eles sempre foram heróis. 

E no dia dezanove comemorou-se o aniversário da morada dos nossos bombeiros, o seu quartel, nascido em 1993, mas comemorou-se somente a data, porque a celebração a eles deve ser diária, contínua, infinda. Eles são os nossos heróis, nunca se esqueçam!

Por fim, mas não menos importante, desejava falar do Natal. Estamos a viver essa época edílica, celebrada de forma comercial, como capote para serões à lareira e bacalhaus na mesa. Não aposto nas mesas todas, mas em algumas surgirá, certamente, a bela da sueca na facção masculina, dando aso a uma bela prosa feminina na outra ponta, como duas claques que entoam cânticos rivais, num uníssono de fair-play. Para mim, o Natal também é isto. Não é só isto, note-se, mas também é isto. Porém, este ano foi mais. Vi algo que me alegrou, vi movimento, iniciativas, vontade. Vi barraquinhas na rua, luzes a cintilarem, pessoas a passearem, calendários de actividades em Ovar e no Furadouro, em todo o concelho. 
Precisamos disto, do Natal a ser vivido como uma celebração de pessoas, em que não se esquece o comércio dos nossos. É óbvio que os tempos são difíceis e pede-se mais contenção que arrojo, mas, convenhamos, falar de Natal sem consumo é falar de praia sem areia, é falar de ria sem moliceiros. Por isso, é bom pensarmos em gastar nos nossos, nas pequeninas barraquinhas do artesanato minucioso que a todos nos envaidece, ou nos cafés que servem bolinhos típicos, ou mesmo na camisola que podemos encontrar numa das lojas que anda em redor do Cáster, ao invés de ir junto do Douro. Não sei, efetivamente, se foi isso que se passou, mas sei que foi daí, desse movimento, que me fiz pensar nestas coisas, nesta vontade que renasce. E fui feliz nesses instantes, como tento ser na minha vida toda! 

Posto este discurso sem fim, onde temo ter-vos maçado, afasto-me da folha que hoje se encheu, desejando a todos um feliz natal, com ou sem sueca, com ou sem conversas de senhoras, com ou sem prendas, porque o natal, em Ovar, que é do que aqui se fala, não é uma época, é um sentimento. E os sentimentos sentem-se, não se vendem! Feliz Natal a todos! 

Ricardo Alves Lopes (Ral)
http://tempestadideias.wordpress.com
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ILUSTRAÇÃO de autoria de PintoLuís          
 

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