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OpiniãoPrimeira Vista

Diz-se “São Paio” (e não “Sampaio”) – Por Pedro Nuno Marques

E pronto, lá temos novamente o nosso caríssimo São Paio mesmo aqui ao virar da esquina. Consta-se, até, que terá arrendado um apartamento com os amigos ali no largo da Varina, precavendo-se de chatices alheias através de um aviso antecipadamente colado à entrada do prédio: “Pede-se a todos os moradores deste e doutros prédios e casas ao redor a extensa compreensão pelo eventual excesso de ruído causado durante os dias a mim, merecidamente, dedicados.

Modéstia à parte, obviamente. Obrigado!”, pode-se ler.

A “coisa” funcionará de quarta-feira a sábado. O parque de campismo da Torreira enche-se. As casas também. No fim-de-semana, a luta é árdua para se encontrar estacionamento. A paciência é uma tarefa espartana. A GNR murtoense tem ordens para fechar os olhos às viaturas menos bem estacionadas. Um ou outro militar desta força da autoridade, aborrecido e trastornado com a vida pessoal que leva, resolve descarregar com uma ou outra sanção pecuniária. Mas é raro que tal aconteça. Digo eu. Não sei bem.

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De manhã, diz-se há dezenas de anos – desde o tempo em que parte do parque de campismo local tinha uma zona carinhosamente intitulada “Tarrafal” – que o pequeno-almoço da malta festeira passa por uma mini e por um cigarro. De geração em geração, a tradição vai-se mantendo, mesmo para aqueles que estão a tentar deixar a nicotina. Os dias voam, mergulhados num invejável espírito de camaradagem: bebe-se cerveja e joga-se cartas e ao “Eu Nunca” ou ao “Verdade e Consequência”. Conversas paralelas e à toa vão surgindo: “Sabes se é possível adoptar um canguru em Portugal?”, ouve-se de uma tenda cuja entrada encontra-se decorada com uma pequena bandeira da freguesia de Paradela do Vouga, ao lado de uma outra onde um garotão de 16 ou 17 anos, de megafone na mão, canta interruptamente “olarilólé olarilólei”.

A avenida das tendas e das barracas e das roulottes e daquelas tatuagens que duram até ao próximo duche – tipo o bronze do Algarve – é uma “meca” de aromas: queijo, enchidos, cachorros e frango no churrasco de um lado, farturas, algodão doce, pipocas e gomas do outro. É um hipermercado tradicional e prolongado, a céu aberto. Famílias, casais e carrinhos de bebés cruzam-se com adolescentes que, e bem, vão bebericando algo que tenha álcool. Alguns nem idade têm para beber, o que apenas mais colorido dá às múltiplas histórias que no São Paio (e não “Sampaio”, por favor!) serão vividas durante os dias das festividades. Mais tarde, todas elas serão recordadas com nostalgia. Um leque de velhos chavões há – falsos bons samaritanos – que se mostra ansioso em disparar farpas e em criticar a juventude, ora por inveja, ora por já não caminhar para novo, ora porque sim e porque sim outra vez.

A noite acontece no areal. O Maribar e o Café da Praia unem esforços nesta espécie de “concordata” que visa tirar melhor o proveito da festa. Também eles são parte envolvente do evento. E bem, e bem! Caminhar sobre a areia, para quem já tiver bebido para além do razoável, torna-se numa odisseia que faz da Odisseia de Homero um mero conto para crianças de um infantário privado e regrado. De um lado para o outro, monopolizando a atenção na essência pitoresca da festa, vê-se pessoal alegremente ébrio, enquanto que um dos amigos, mais ao fundo, enrola um charro de erva, devidamente protegido do vento que sopra do Atlântico da Torreira. Aqui e ali, línguas desenrolam-se em bocas alheias ou aleatórias. É provável que a maioria não parta para o coito sexual, dada a parca condição de sobriedade de cada um, mas a troca de saliva e o incessante tornear de línguas são, só por si, agradáveis.

Após as seis horas da madrugada, regressa-se ao parque de campismo para, duas ou três horas depois, estar acordado outra vez, “porque a merda do sol, a merda do calor e as putas das moscas não deixam dormir mais!” E recomeça-se tudo de novo.

Bom São Paio, garotões!

Pedro Nuno Marques

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