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Há 134 anos já se apostava no Turismo do Furadouro

Hoje, o Furadouro está bem servido. Não faltam camas, tem um hotel moderno e alojamentos locais também os há para quase todos os gostos e carteiras.
Todos dignos sucessores do Hotel Cerveira cujo edifício, decorado com belos azulejos e rectas mas imponentes linhas arquitectónicas, ainda se pode admirar na Avenida Central da Praia, com a devida inscrição para não enganar.
A iniciativa hoteleira ficou a dever-se a José Luís da Silva Cerveira, natural da Curia, onde nasceu em 1866.  Para Ovar veio como empregado do casal Quadros, sogros do advogado José António de Almeida, mais conhecido por “Dr. Almeidinha”.
Em Julho de 1886 inaugurava, no Furadouro, o Hotel Cerveira, uma aposta arriscada apesar do magnífico prédio para a época, atendendo à falta de estradas para aquela praia, então só procurada no tempo de veraneio.
No rés-do-chão e em casas anexas ao Hotel, todas ainda existentes na Avenida Central, Silva Cerveira foi, sucessivamente, complementando os serviços prestados ao público com um restaurante, sauna, banhos frios e quentes com água do mar, café, sala de jogos e até uma mercearia.
Para transporte dos clientes, muitos dos quais vinham por causa do jogo, garantia carros de cavalos desde a estação de Ovar, “a todos os comboios”.
Este sector foi particularmente incrementado com o funcionamento de jogos de roleta, após a contratação de Jacinto dos Santos Cunha, vindo de Muxagata, Fornos de Algodres, que viria a casar, em Novembro de 1911, com a filha do proprietário, Emília Cerveira.
Ficaram famosas as festas anuais de abertura da época balnear (também as dos primórdios do Carnaval vareiro), com a presença de figuras ilustres de Ovar e da imprensa regional e nacional.
Silva Cerveira possuía também um café e uma mercearia fina em pleno centro de Ovar, na Praça da República, estabelecimento que foi passado para a família Teixeira e que, depois se transformaria em loja de electrodomésticos – a casa Januário, também já extinta.
À morte de José Luís Cerveira, em 29 de Julho de 1909, sucedeu-lhe a esposa, de quem tivera oito filhos. A seguir, o filho Francisco Cerveira recebe o hotel que é posteriormente vendido a Emília Cerveira e marido Jacinto Santos que já lá trabalhava.
Rosário Figueiredo, sobrinha de Justino dos Santos Cunha, genro do fundador, conta que este passou então a administrar a casa, que em 1911 sofreu uma remodelação, após ter sido vítima de um incêndio. Já então, a casa era conhecida como Café Santos, enquanto o hotel ia perdendo a sua funcionalidade.
“Homem de bigode branco de pontas arrebitadas que viveu até aos 98 anos”, Jacinto Santos encontra-se junto da sua esposa e cunhada Palmira Cerveira, última da família a morrer, sepultados em jazigo no cemitério de Ovar.
À sua morte, não tendo filhos, o Hotel Cerveira passou de novo por herança para o sobrinho Horácio, antigo funcionário da Caixa Geral de Depósitos de Ovar.
“Jacinto Santos tinha uma criada, de nome Grancinda, que ficou, após a morte de Emília, a viver com Helena Cerveira, numa das casas ao lado do hotel que viria a receber igualmente de herança”, declara Rosário Figueiredo.

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