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Movimento alerta para “invasão silenciosa” da Ria

A combinação de mau tempo, muita chuva, lua cheia e maré alta, registada em fevereiro último, voltou a inundar as casas dos lugares ribeirinhos de Ovar: Moita, Marinha, Tijosa e Ribeira. Uma fotografia tirada no interior do templo dedicado a Santa Catarina, com a água da Ria a banhar o altar, tornou-se viral nas redes sociais.

Passada a tormenta e feitas as limpezas, a população fez o balanço, concordando numa ideia: a água está cada vez mais perto. Há muito que os moradores desta zona de cotas muito baixas alertam para “a invasão silenciosa” da águas da Ria cujo nível tem subido de forma galopante nos últimos 2 ou 3 anos.

São às dezenas os terrenos agrícolas, outrora dos mais férteis da região, que se encontram actualmente abandonados por se encontrarem debaixo de água o ano todo e, por isso, salinizados, impedindo o cultivo. E o mais aterrador é pensar que este galgamento da Ria está a acontecer a escassos 1,5 Km do centro da cidade de Ovar, dos Paços do Concelho.

“Andamos muito preocupados com a frontaria (referindo-se à erosão costeira), mas a água vai-nos entrar pela porta das traseiras”, alerta José Pinho, uma dos proprietários que está na génese do Movimento de Lesados do Canal Norte da Ria de Aveiro (MLCNRA), criado para chamar a atenção para o problema e tentar resolvê-lo “antes que aconteça uma catástrofe”.

Gente de idade avançada e com poucos estudos, abandonou o cultivo à medida que a água salgada foi tomando conta das suas terras. A culpa era das alterações climáticas, mas o MLCNRA não acredita nisso. “Esse fenómeno poderá ser responsável pela subida do nível das águas em um ou, no máximo, dois centímetros por ano”. “Nesta região, nos últimos anos, a subida do nível da água da Ria tem sido desenfreada e a explicação não pode ser essa”, alerta o movimento. Uma simples monitorização, feita com medições do nível médio da água, trouxe resultados assustadores: “A água subiu quase 20 centímetros nos últimos 5 anos e, se nada for feito, estes lugares, onde mora muita gente, estarão em breve debaixo de água e esta poderá estar a chegar ao centro da cidade de Ovar mais depressa do que se julga”, repete.

Nas cheias de fevereiro passado, o lugar da Moita ficou literalmente debaixo de água que atingiu níveis nunca antes vistos. Os moradores, de certo modo habituados a ter água à porta, não conseguiram disfarçar o medo, pois nunca tinham visto a Ria tal alta, ameaçando pessoas e bens. A água já inundou, por exemplo, uma quinta, perto da Foz do Cáster, onde há poucos anos se criava animais. Foram engolidos os caminhos que levavam à casa de apoio à exploração que teve de ser abandonada.

 Prejuízos acumulam-se

José Pinho, proprietário de um empreendimento turístico na região, diz que foi na ponte da Moita que, em conversa, com moradores e proprietários, se decidiu criar o movimento. E dali, onde se avista o cais da Ribeira da Aldeia e a Ponte da Varela sem esforço, logo começaram a surgir interessados em integrá-lo, vindos de Pardilhó, no concelho de Estarreja, e da Murtosa.

No manifesto que o movimento quer levar às assembleias municipais e de freguesia, lê-se: “Suspeitamos que o constante afundamento da Ria, no Porto de Aveiro, para permitir a entrada de navios de maiores dimensões, originou um caudal fortíssimo e descontrolado, provocando uma subida das águas a níveis nunca vistos”. “As consequências são evidentes com a perda de propriedades urbanas e agrícolas, assim como o desaparecimento de todo o tecido piscatório, turístico, comercial, entre outros”. Ainda há poucos anos, estos caminhos faziam-se sob um verdadeiro túnel de árvores verdes e saudáveis. A água salgada queimou-as pela raíz e ela caem inteiras, mortas. E as que se mantêm de pé estão secas e mortas, oferecendo um ar apocalíptico à paisagem.

“A Ria não pode estar só à mercê dos interesses de uma entidade, a Ria é de todos e, em harmonia devemos criar uma protecção”, referem, mantendo o dedo apontado ao Porto de Aveiro. Para além de denunciar a gravidade do problema, o movimento sugere uma solução que poderia ser a resposta para os problemas que os aflige: “A construção de um dique com portas de varrimento, a sul da Ponte da Varela, na Murtosa, onde o canal é mais estreito, seria a solução”. Ali “há estradas de um lado e do outro, o impacto ambiental é menor e, assim,  acarretaria um menor investimento”.

Para o movimento, verbas para construir uma obra de engenharia desta envergadura também não seria difícil de arranjar. “Se o Porto de Aveiro criasse um fundo com uma percentagem ínfima de tudo o que gera e o destinasse para este projecto, em pouco tempo teríamos a obra no terreno”. “Somos um país pequeno e não podemos dar-nos ao luxo de ficar de braços cruzados a assistir ao que está a acontecer à Ria”.

Na óptica dos mentores dos lesados, o dique permitiria manter um espelho de água constante, útil para a prática de desportos náuticos e bom para o turismo, e impediria as amplitudes de maré que, neste momento, se tornaram absurdas.

Actualmente, no canal norte (ou de Ovar), quando a maré baixa, a água desaparece toda, deixando apenas lamas a descoberto, mas quando sobe atinge níveis nunca antes vistos, subindo e descendo com grande corrente e velocidade, invadindo zonas antes secas e de plantio, arrastando tudo à sua passagem, causando danos, inclusivamente nas obras que a Polis da Ria de Aveiro andou a executar recentemente.

O que está a acontecer está a mudar a percepção das populações, em especial das novas gerações, em relação à Ria. Das suas água se retirava alimento, prazer e bem-estar, hoje já nada disso sucede e a água passou a ser assustadora e uma ameaça. O Movimento de Lesados do Canal Norte da Ria de Aveiro quer agir.

“Está tudo queimado pela moira”

Todos os dias, Salviano Peça vai até ao cimo da Ponte da Moita, ver o Cáster a passar a uma velocidade difícil de prever. “A Moita não tem sombras do que era há sessenta e tal anos, quando comecei a andar por aqui à pesca da enguia”, lamenta. 

Para além da “moira” que tudo queima, a água passa a tal velocidade que está a destruir as motas, a descalçar a ponte, que já teve de ser intervencionada para não tombar, e a inundar tudo que resta da Moita. “Este lugar já foi o celeiro de Ovar e aqui chegou a cultivar-se arroz, milho, feijão e até chicória, mas hoje nada resiste”, recorda.

Nos canais por onde anda a Ria, a vida também sumiu. A água corre tão depressa que varre e limpa os fundos, levando o ‘limo’ onde se escondia o alimento de enguias e peixes, que também desapareceram. A juntar aos agricultores, também os pescadores se foram. Foi toda a economia de um local que se destruiu.

 (Artigo publicado também in Diário de Aveiro / Foto: Ricardo Carvalhal)

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