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O Carnaval na rua

Sim, o carnaval está aberto. Não me refiro aos discursos no cimo do palco, à entregas das insígnias ou às bonitas músicas que escutámos, refiro-me às sensações. 

As pessoas já estão na rua com um ar, um semblante, que distorce os tempos que vivemos. A boa-disposição emana-se com a mesmíssima minúcia de uma folha de  árvore a chocar na relva que lhe faz de poiso. Os casacos deixaram de ser relevantes pela marca da moda e tornaram-se vermelhos, amarelos, azuis, verdes, e de todas as outras cores que fazem o nosso carnaval. 

O mais importante já não é instituir nas vestes a doutrina da moda, é demonstrar o orgulho com que se traja a cor de um grupo, que é mais do que uma união de interesses de folia, é uma família que se alastra pelo ano como amigos que não escolhemos, que não nos escolheram, mas que a vida teve a gentileza de nos oferecer, como se fossemos merecedores do sol até nas manhãs frias de um inverno chuvoso. O carnaval é Verão. 

Não misturando estações nem paixões, o carnaval é uma união perfeita das simbioses das nossas necessidades de alegria. Como já tanto se disse: não rimos por ser felizes, somos felizes porque rimos. E o carnaval, como o Verão, são isso. Motivos de sorriso. 
Os casacos dos grupo, como um condão, servem a excelência de quem se entrega ao carnaval como um modo de vida, como um escritor se dá às palavras ou um músico às sonoridades. Os que não o vestem, por impossibilidade ou escolha,  não são excluídos desse ambiente que se cria, são, pelo contrário, jogados no centro de tudo isso, como se, ao não terem nenhum casaco no torço, estivessem a vestir todos em simultâneo. 

E, por isso, digo que o carnaval está aberto. As pessoas sorriem com a mesma facilidade com que se pincela um pedaço de esponja ou se costura um pedaço de saia. Não há elementos de grupos e não elementos de grupos, há pessoas que sorriem à passagem dos casacos, ao alarido em torno dos trabalhos, como se todos vivessem os preparativos com a igual ânsia de uma entrega de óscares em que se discutem os favoritos antes da visualização dos filmes. Aqui, os favoritos são todos. Cada sorriso roubado de uma plateia, em dia de sol ou chuva, é um óscar. 

Nós, os que desfilamos, temos uma sala de troféus imensa, guardada bem no corredor dos nossos corações, onde cabe cada carnaval como uma pessoa que perdura em nós além da vida, da existência. 
Os que não desfilam, levam cada tarde de convívio a passear pelos trabalhos dos amigos que se entregam às sedes, pela comunhão de interesse com a felicidade que encontram em jantares ou saídas entre amigos e família e pela alegria que a cidade granjeia, como se fosse uma mão gigante que faz cócegas em cada rosto mais sisudo. 

A festa de abertura foi de louvar pela proximidade às pessoas, pela alegria que trouxe ao centro de Ovar, ao núcleo de vida da cidade, de onde saem as decisões, mas, também, de onde nascem as vontades do povo. Não se quer que esta seja uma festa da cidade, uma alegria exclusiva dos cidadãos de um pequeno pedaço de terra que vai de Válega ao Furadouro, quer-se que seja um estado de espírito do concelho, uma festa do distrito, uma exaltação do país. 

O Carnaval já saiu às ruas, só os mais distraídos é que julgam que falta um mês e meio para o desfile. 

Ricardo Alves Lopes (Ral)
http://tempestadideias.wordpress.com
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