O Cine-Teatro (I) – Por Edgar Branco

O Cine-Teatro de Ovar, um monumento vareiro, ergue-se no coração da cidade, fronteiro à Igreja Matriz e ao Mercado. Outrora vibrante, hoje é apenas uma sombra do que foi destroçado, abandonado, reduzido a uma bela fachada que resiste solitária ao tempo.
O edifício, inaugurado a 30de dezembro de 1944, possuía uma sala de espetáculos com cerca de mil lugares e um elegante salão de festas. Durante décadas, foi um palco de cultura e celebração, mas agora, jaz em ruínas, um cenário deprimente e indigno, um testemunho do descaso dos autarcas e da impotência das gerações que nele viveram momentos inesquecíveis.
A sua fachada, envelhecida, permanece ali – um espelho do tempo, um lembrete diário para os vareiros de que as coisas preciosas precisam de ser acarinhadas. Pois quando se negligencia o que nos une, resta apenas a saudade, e a saudade, por si só, nem sempre sustenta a memória de um povo.
Os vareiros e aqueles que visitam a cidade passam apressados entre o bulício do mercado, as escadas que conduzem à fé na igreja e o vaivém dos cafés. Poucos reparam que, bem diante dos seus olhos, esconde-se um baú de recordações, um relicário de vidas e histórias passadas.
No entanto, este Cine-Teatro foi, para os seus Vareiros um refúgio de magia.
Ali celebraram-se conquistas, bailaram-se amores, estrearam-se sonhos em palco e na tela. Foi casa de peças que evocavam histórias vareiras, de filmes que traziam mundos distantes, de risos e emoções partilhadas. Era um santuário da alegria, um espaço onde as pressões do mundo exterior se dissolviam na escuridão aconchegante da sala de espetáculos.
Ali, a tristeza era deixada à porta. Ali, encontrava-se um porto seguro.
E assim, meu caro leitor, convido-o uma vez a que venha comigo, mas desta vez numa viagem pelo passado.
Veja comigo, sobre o olhar de quem vê além das ruínas, um edifício que ergue-se novamente, pulsante, renascido na lembrança daqueles que nele viveram um dia memorável.





