
Passei lá hoje à porta e lembrei-me de que o cineteatro de Ovar prepara-se mesmo para trocar a plateia, os camarotes e os fantasmas de Charlie Chaplin — já todos destruídos — por uma praça estranha: primeiro deixa-se morrer, depois chama-se uma coisa qualquer sem pingo de criatividade.
Ovar vai perder mais uma parte importante do seu parco património sentimental e arquitetónico. Aliás, já estava perdido há muito tempo. Mas dito assim parece uma frase feita, daquelas que se escrevem entre dois encerramentos na cidade: fechou o Carvão, fechou o Patteo, fechou o Toca, fechou, fechou, fecha tudo….
Ora então, vamos de modas: o antigo cineteatro prepara-se para desaparecer de vez. Aquele “mono” meio destruído, em zona nobre da cidade, vai abaixo. De vez mesmo.
Depois de décadas fechado, saqueado, emparedado, insultado pela chuva, pela burocracia, pelos pombos, pelos pareceres, pelas subalíneas e por essa forma muito portuguesa — ou simplesmente burocrática — de proteger património, que consiste em olhá-lo durante trinta anos sem se fazer nada, até ele pedir a eutanásia ou até aparecer um promotor imobiliário, perdão, um investidor, para o “salvar”, vai finalmente ser demolido para dar origem a uma praça que se vai chamar “cineteatro de Ovar”. Um luxo, certamente.
O cineteatro de Ovar tinha aquela coisa que hoje é quase uma raridade: pessoas sentadas juntas a olhar para a mesma imagem projetada num grande ecrã, sem poderem fazer pausa para ir ver as notificações ou as mensagens da prima ou da amiga no telemóvel.
O cineteatro de Ovar não era apenas uma sala. Era uma verdadeira experiência de vila, ou bairrista, como se dizia antes e como agora só se usa durante o Carnaval – e tanta folia por ali desfilou. Tantos bailes, tantas fantasias, tantos amores. Um edifício onde se entrava para sair do nosso provincianismo sem sair de Ovar. Já tínhamos jardim, igreja, boutique, velhas senhoras, criadas de outros tempos, estudantes, funcionários, hospital e famílias inteiras, ganhavam ali uma porta para Xangai, Roma, Hollywood, Paris, o deserto, a guerra, o amor impossível e a tragédia em Cinemascope. Um cinema de vila era isso: a agência de viagens de quem não podia viajar, ou pouco mais do que viajar nas linhas dos elétricos. Era a janela grande de quem morava em casas pequenas. O divã coletivo de uma vila que ainda não sabia dizer “saúde mental”, mas sabia perfeitamente o que era sair de uma sessão mais leve, mais triste, mais apaixonado ou mais desconfiado da humanidade.
Depois vieram os anos 80, a televisão mais forte, os centros comerciais, os multiplexes, a mudança dos hábitos, a preguiça pública, os muitos carros na cidade, a falta de estacionamento como nova religião nacional. O cineteatro de Ovar perdeu fulgor, ganhou o OvarVídeo e as sessões da Meia-Noite.
No limiar dos anos 90 fechou, foi posto à venda numa imobiliária e desde então foi entrando naquela categoria que é uma antecâmara da morte: edifício devoluto com biografia, ferida aberta com dono, património com parecer, ruína com potencial, chaga com vista. Passou de cinema a problema. De problema a caso. De caso a dossier. De dossier a PIP — Pedido de Informação Prévia — camarário. De PIP a praça. E, neste país, quando uma sala de cinema chega a PIP, está o caso arrumado: já não há projecionista que a salve.
Durante anos, discutiu-se se o “cinema” devia ser recuperado, se podia virar equipamento cultural, Museu do Carnaval, o último combate de Santa Camarão, se a Câmara devia intervir, se o Estado devia comprar, se os privados tinham obrigações, se a proteção patrimonial protegia alguma coisa, se a Zona Especial de Protecção das Capelas dos Passos era proteção ou apenas poesia administrativa. O resultado está à vista: protegeu-se tanto, tanto, que o edifício apodreceu de protegido. É um método antigo, também muito nosso. Primeiro, afirma-se que o imóvel tem valor. Depois, não se faz nada. A seguir, constata-se que já não tem valor porque ninguém fez nada. Finalmente, autoriza-se a demolição com ar grave, invocando segurança pública, degradação avançada e pareceres competentes. A cidade e o município lavam as mãos, os moradores suspiram, os nostálgicos, como eu, escrevem crónicas que não têm impacto nenhum, e o camartelo espera entrar em cena como protagonista.
Viva o progresso e Ovar aberta ao turismo dos azulejos. Viva também quem promove a transformação de memórias em cinzas. E, no caso do cineteatro, arde uma parte da história cultural de Ovar, aquela que não cabe bem nos roteiros turísticos nem nas fotografias oficiais porque cheira a mofo, bilheteira, veludo gasto, pó de cabine, caramelos, humidade e adolescência.
O mais cruel é que o cineteatro já tinha morrido antes da sentença final com assinatura de Domingos Silva. A demolição física é apenas uma cerimónia fúnebre atrasada. Durante décadas, quem passava por ali via uma espécie de cadáver urbano com fachada. Um zombie Art Déco. Um cinema assombrado por sessões que já ninguém viu, por empregados que já ninguém conhece, por espectadores que talvez tenham ido ali ao primeiro encontro e hoje já têm netos que veem filmes no telemóvel, na vertical, com legendas automáticas e atenção de esquilo anfetamínico. Mesmo assim, a ruína ainda dizia qualquer coisa. As ruínas dizem sempre qualquer coisa.
Dizem: isto existiu. Isto juntou gente. Isto tinha luz lá dentro. Isto foi uma promessa. Isto foi abandonado por todos aqueles que agora explicam, com grande serenidade técnica, que já não há nada a fazer. Como aquele deputado municipal da maioria que defendeu a pés juntos que o projeto da praça foi apresentado e sufragado nas urnas com a vitória do PSD nas últimas autárquicas.
Ovar tem sido especialmente competente a desfazer os seus cinemas, ao contrário de outras cidades vizinhas como Estarreja, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis e outras. Mas não são falácias destas que justificam o botábaixo: O PSD não teve maioria, logo recebeu um cartão amarelo da população, e para governar aliou-se a Lígia Pode que era cabeça de lista de uma lista independente que não advogava nenhuma praça nua para ali. Agora, esqueceu tudo o que disse e votou ao lado de Domingos Silva, Alexandre Rosas, António Bebiano e Ana Cunha transformando-se em mais uma coveira do cineteatro. Quando se atualizar a história, na placa de inauguração da praceta inscrevam estes nomes como coveiros do cineteatro.
Agora que os partidos da oposição não se entendem para uma união que chegue para interpor uma providência cautelar contra a demolição, quando o cineteatro cair, não cairão apenas paredes, porque o telhado já não tem há muito tempo. Cairá a ideia de que as promessas são para cumprir, já que Salvador Malheiro disse que o cineteatro ia ser devolvido à cidade. Cairá mais um pedaço da Ovar que sabia sonhar sentada no escuro. Um dia, talvez uma placa diga: “Aqui existiu o cineteatro de Ovar.” E alguém passará, lerá, encolherá os ombros e perguntará no telemóvel onde fica o café ou o bistrô mais próximo que serve brunch em vez de um galão e um pão com manteiga.
Ovar não destrói a memória de repente. Vai-a deixando ao abandono, com delicadeza, até a memória parecer culpada por ocupar espaço. Foi assim com o Velho Teatro Ovarense feito à boa maneira parisiense que um dia já não estava lá. Um cinema fechado continua a projetar. Projeta ausências, tardes perdidas, beijos clandestinos, filmes esquecidos, espectadores desaparecidos, bilhetes rasgados, lanterninhas com os bolsos a tilintarem com as moedas da gorjeta, cortinas, intervalos, medo da bruxa, desejo, espanto e aquela felicidade simples de entrar numa sala anónima e sair de lá ligeiramente diferente.
O cineteatro de Ovar vai abaixo. Ficará apenas na memória. E a memória, como se sabe, não tem licença de construção, não tem estacionamento privado, não ganha a meio tempo e raramente passa na reunião de câmara. Mas, ainda assim, é o único lugar onde o belo e elogiado edifício do Cineteatro de Ovar continuará aberto para sempre.
O Lobo Mau





