Covid-19

” O que desejo para Ovar

Um texto que chega atrasado, fora das órbitas de desejos dos primeiros dias. Vamos a meio do primeiro mês, mas vou recuar no tempo e relembrar uma história de há quinze dias. 
O ano, para efeitos de movimento, só principiou no dia dois. O dia um, após uma passagem de ano com amigos e amores, serviu de modorra, de descanso para um recomeço que se aguardava atribulado. 

E foi, foi um recomeço atribulado, com pilhas de papel virtual, qual Babel, para me atazanarem o regresso às rotinas, sem passas nem bolos rei, muito menos pães-de-ló. Contudo, o regresso de dia dois teve algo de inabitual, como um rasgo de luz num negrume de floresta. 
Faz alguns anos que trabalho no caminho do Porto, ligeiramente afastado do meu centro de vida, que é Ovar. Começo os dias a vestir a roupa e as responsabilidades numa A29 desumana, como uma cara sem expressões, que me leva a um escritório acolhedor no prazer de fazer grande parte do que gosto. Não chego, portanto, a acordar em Ovar, pois os sentidos só se alvitram já na passagem de Maceda, que ainda é o nosso concelho, mas não é a minha casa. Outras vezes, o sol raia no Porto e nem chego a ver o despertar do meu cantinho de sempre. 

Porém, dia dois foi diferente. Eram sete e vinte cinco da manhã e o meu carro circulava pelo centro da cidade de Ovar como uma gaivota junto do mar, ultimamente demasiado revolto. Parei e bebi um café, num sítio que é uma montra do passado Ovarense. Mesas vazias, bilhar tapado, duas ou três pessoas de sobretudo vestido, junto do balcão e estava, assim, o Café  Ideal a surpreender-me com um despertar matutino na minha cidade de sempre. Nasci perto de Santa Maria da Feira, mas nunca me senti outra coisa que não Ovarense. E aquela quietude da manhã, aquele apaziguador pousar de chávena, na hora da modorra, numa cidade ainda adormecida, fez-me perceber porquê. Ovar é uma cidade de muitas caras. 

Prossegui, já com o despertador a tocar-me no estômago, vulgo café, pela rua defronte à câmara. Lá estava ela, igual a si mesma, majestosa, aguardando que eu fizesse a curva e  encontra-se o Neptuno a guardar o tribunal, como se o contrário não fosse verdade, como se a entidade maior de Ovar fosse o nosso guardião do chafariz. Mas, ainda assim, prossegui, segui viagem das minhas responsabilidades, e uns metros à frente fui surpreendido. A luz do mercado municipal, renovado, rasgou-me o dia como se fosse o sol de inverno, que as nuvens teimavam em esconder. 

As pessoas ainda eram poucas, somente as habituadas ao costume de um mercado que recebe legumes e roupa interior, produtos de higiene e calçado, peixe e carne. No cimo dele estavam luzes acesas e pessoas em rodopio. O pequeno café do mercado abispava-se a servir os primeiros expressos e pães, aos trabalhadores que se aprontavam para a primeira feira do ano. 

Nenhuma destas imagens teve transcendência em si, teve somente a quebra de rotinas a que a vida profissional me obrigou, mas isso foi o que fez de toda esta viagem transcendente. Sabendo que não sou muito comum na forma de sentir, que vejo no realejo de pequenos detalhes melodias que mudam a pauta da vida, senti-me feliz de ser mais um ovarense. A cidade trauteava o silêncio, sem pessoas, só aguardando que a luz do mercado se alastrasse a todas as ruas, contudo isso não me foi indiferente, quebrou-me a rotina. E uma cidade que, tantos anos depois, no escuro de uma manhã de inverno, consegue quebrar-me a rotina, é uma cidade especial. 

É uma cidade pequena, feita de pessoas grandes, com histórias e rostos, que na calma das manhãs de vento soprado, qual toque de piano, consegue levar-me a viajar por muito mais que alcatrão e pessoas em pleno começo de trabalho. 
Assim, para 2014, desejo que Ovar não pare de surpreender. Que continue a crescer, sem se agigantar; que continue a solidificar-se no distrito, sem pisar a vizinhança; que continue a fazer de ovarenses, como eu, orgulhosos do pequenino cantinho que têm. Desejo que Ovar seja Ovar, que os ovarenses sejam ovarense, com orgulho das raízes vareiras. Ovar não é especial unicamente pelo que nos dá, também é muito pelo que nos faz sentir. E, naquela manhã, fez-me sentir enormemente revigorado. O que de melhor podia pedir à minha cidade?  

Ricardo Alves Lopes (Ral)
http://tempestadideias.wordpress.com
[email protected]
ILUSTRAÇÃO de autoria de PintoLuís     

Artigos Relacionados

Deixe uma resposta

Botão Voltar ao Topo