Covid-19

Ora mudada

Ora mudada que foi a mesa e seus ocupantes. Ora outra receção, ora outra demanda. Absorvo toda a liberdade de quem chega e invejo a sorte de quem se exala na rua. Protocolar cumprimento. Observo, vejo. Beijo. Tresandam a vida e liberdade quando chegam.

Absorvo, guardo para mim aquela maquia pilhada aquando da saudação. E resguardo-me. Protejo-me de tamanha atração. Tive direito a poetas, felizes, documentados e músicos de cordas ainda tensas. Crianças recém chegadas ao mundo, que adormecem ao som de rimas brasileiras e de repiques em cerâmica mais habituada a aromas de café.

E o resto do pelotão que arrisca sempre em chegar fora de controlo, fora de horas permitidas, qual grupeto em etapa de montanha.

Fluo pesadamente entre as premências das solicitações. Sigo a corrente, correndo. Sprints arrastados. Arrisco umas palavras. Tremidas, quase surdas. Ocas, grossas, sem piada. 

Ora a hora mudou. Quem diria! Parece-me ser segunda-feira, tal o fardo que arrasto.
Sorte têm os relógios. Basta adiantar o ponteiro e passam logo várias horas de uma vez. Eu tenho de incrementar, sofregamente, todos os segundos.

Questão de corda. Os músicos de corda já partiram. O meu pai acorda. E concorda comigo que estou sem corda nenhuma: "Vamos dar corda a esta gente e fechar o tasco. Chega!". Ninguém concorda. Logo agora que a malta estava com a corda toda. Eles.

Não importa. Peço tréguas e um banho quente. Forte negociação com avanços e recuos, até à fronteira da porta. Aceite, mas com condições. De voltar. 
Por ora chega.

Henrique Gomes

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