Covid-19

Ovar é partida e é chegada.

A noite está posta no céu, o fim-de-semana caído a aprontar-se para a semana. Os corpos condoídos da festa e eleição da Charanguinha, das festividades do João Gomes, do HD, do Chico e Colors, do Sal e Pimenta, Progresso e Pedras, Know-How e Cem Álcool, bem como tantos outros. O frio já fura nas paredes da pele e acende-se nas lareiras, mas, por ora, não aprisiona em casa. Cada estabelecimento vive da sua clientela, faz felicidade a diferentes pessoas. Felicidade é uma coisa mais simples que as próprias explicações. 

Procura-se felicidade como um achado, um tesouro demasiado valioso, repleto de ouro a cintilar e jóias a enfeitar, mas a felicidade não é isso. É mais pequena e é maior, é mais fácil do que a insatisfação faz parecer. O ouro só é ouro porque reluz, e assim nos enganamos na felicidade. Procuramos algo que nos ofusque o olhar e, por vezes, ela é simplesmente o olhar. 

O carro a ligar-se, a música a tocar, e a partida para um destino conhecido de véspera. Primeira e galga-se a calçada da Camara, com a segunda já estamos a transpor o jardim dos Campos, com a terceira a chegar aos Bombeiros e a engatar a quarta para a Avenida da Régua, com a quinta cruzamo-nos com um ou dois carros, de luzes acesas, de vidas colocadas lá dentro. Onde irão, de onde virão, o que estarão a sentir? Sabe-se lá, a espessura do pára-brisas é tão grossa como a distância a que nos colocamos de outros, e temos que travar. Está aí a rotunda do Carregal. Talvez virar à esquerda, romper lado a lado com a ria, sentir o bafejo de moliço, observar umas casas construídas a régua e esquadro, a requinte. Vamos ao Areinho e voltamos, o nosso limite é Ovar.

Agora viajamos mais próximos da linha da água e as luzes do lado oposto, do nosso lado de Ovar centro, reflectem sempre com a incerteza se serão das casas ou das ruas, mas logo esquecemos, pois a rotunda está em frente ao olhar e o corte é à esquerda, para seguirmos o rumo do nosso Furadouro. Lá, somos abalroados pelo odor da maresia, pelo ruído apaziguador das ondas a baterem nas rochas e pelas poucas pessoas que passeiam os seus cães junto a uma noite que dormita em cima do mar. Com a volta dada ao carro, vamos na direcção da Pousada, com a rua de alcatrão a fugir da Mata que vem atrás dela desde Esmoriz.

A modernidade do Shopping também surge à direita, mais à frente, após um corte à esquerda na pousada, com o aldeamento de casa geminadas a esconder-se nas traseiras do moderno e dos pinhais, mas não ligamos, o destino é outro. Nas pedras, temos a Aldeia do Carnaval e a indústria para a esquerda, mas seguimos à direita para o quase regresso ao mesmo ponto, atravessando uma Sá Carneiro que já requer novas atenções, pois apruma-se para apresentar uma cara lavada e um trânsito dissemelhante, vai ser dona de uma rotunda. Mais à frente, nova rotunda e depois outra, entre elas, à direita, o Parque Urbano.

Seguimos, depois, a direita para a Matriz, cruzamos o antigo Cinema e viramos no Cáster à esquerda, já perto da partida, damos um revés ao destino e passamos por cima do rio, atravessando a ponte, e indo ao encontro dos Combatentes, não os da guerra, os modernizados de ensino. Aí, ponderamos mas seguimos, ainda existe São Miguel mais adiante. E, confirma-se, lá está ele, com o seu novo acesso a contornar o parque da capela, onde tantas vezes joguei um basquete que agora não é possível. Decidido, volto a descer, mas troco as voltas ao destino com novo corte, à esquerda, antes da possibilidade das Luzes. Apanho-me no final de uma rua e decido pela direita. Há uma fábrica recuperada e temos, assim, Escola de Artes e Ofícios, fonte Júlio Dinis mesmo ao pé e mais à frente um moderno lar de idosos. No lar é nova viragem à direita e fico com a Camara à esquerda e a Praça das Galinhas à direita. O que decido? Descer pelas Galinhas. O trajecto termina no Neptuno, com o tribunal como testemunha. Não sou réu, mas ele é testemunha. 

É o tribunal e são vocês. Presenciaram, através das palavras, a viagem que fiz sem destino, encontrando-me com o destino em cada paragem. Ovar é partida e é chegada. E eu sou feliz nesta terra. 

    
Ricardo Alves Lopes (Ral)
http://tempestadideias.wordpress.com
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