Opinião

Para muitos: os números baixam, a tristeza (ocultada) aumenta – Por Pedro Nuno

Os números de infectados, internados e, principalmente de mortes, desceram consideravelmente nas últimas semanas. Aquele raspanete que levámos por festejar com o máximo de gente possível o aniversário de Jesus da Nazaré, fez-nos abrir os olhos, e de que maneira, pá! E, finalmente, estamos bem, bem melhores, hurra! No entanto, a alegria que devia ser partilhada por todos, não o é.

Provavelmente muitos rejeitarão esta ideia de que – por muito que custe aos pseudo-bom samaritanos e comunidade beata de falsidade crassa – há povo que se esconde atrás de uma tristeza patega sempre que vê os números oriundos desta pandemia a deslizarem em direcção à “base” da normalidade que todos nós desejamos, ou quase isso. A forma de contemplar este decréscimo que nos preenche a face de sorrisos rasgados, como há muito não se via, não é unânime, chegando a sentir mais vergonha alheia do que aquela que tomou conta de mim quando o nosso país foi representado na Eurovisão por uma música que fazia a apologia a material tecnológico rachado, através de um tipo com colheres de bica enterras nas suas bochechas rosadas. Vá, adiante.

Os números de infectados e de mortes está a baixar consideravelmente. Escondidos atrás de invejas, egoísmos e muita má fé – provavelmente por constatarem que o Verão vai ser vivo, alegre, a roçar a normalidade, ora pela vacinação, ora pela imunização de grande percentagem da malta. “Estes números são falsos”, “Lá estão eles outra vez a mentir-nos”, “Continuem em casa, estes dados são uma ilusão”, “Fiquem em casa! Só Deus pode salvar-nos! Rais parta esta juventude!”, são algumas das frases proferidas por aqueles que, de forma enraivecida e angustiante disparam ódio perante o cenário altamente optimista que contemplamos.

Como é possível haver gente mais rasteira e venenosa do que qualquer vilã de uma qualquer novela portuguesa da TVI? – questiono-me aqui e ali. Não nos iludamos: há malta que gosta mesmo da pandemia, deste cenário cruel. Gosta de ficar confinada em casa e gosta mais que os outros fiquem entre quatro paredes, sem saírem, sem se divertirem, sem conviver, sem provar qualquer tipo de convívio, porque isso gera inveja nas mentes mais baixas e azedas. Não nos iludamos: a pandemia cria conversas fáceis, onde há sempre espaço para lamúrias parolas, críticas à sociedade – como se estivesse tudo pela “boca do Inferno”, pronto a ser engolido sem dó, de uma vez só – e multiplica o tradicional desabafo: “Ai, meu Deus, Nosso Senhor, que isto anda tudo tão mal!” Será mais ou menos isto. Uma forma de viver inspirada na essência passada de um Estado Novo podre como os pensamentos relatos. Até a Luciana Abreu, em Floribella, era cerebralmente menos artesanal, apesar de se esforçar, e muito. Adiante, meus fofos e pequenos sádicos. Adiante.

Aqui há uns anos, Eduardo Lourenço, que tão eficazmente caracterizou a complexa essência do português – e respectiva forma de pensar, ou não pensar, ou pensar de maneira pitoresca – disse que “Cristo não disse que vinha salvar a Humanidade como um mágico, mas veio convencido de que a Humanidade se salvaria através do amor que ele portava em si mesmo.” Talvez seja isso, sim. Apesar de já ter ouvido falar muito da pessoa, nunca conheci Cristo pessoalmente – talvez Ele seja envergonhado, não sei -, mas acredito que o “amor” de que se fala não seja o tipo “amor” corriqueiro e leviano que muitos daqueles que rezam e que peregrinam por aí ostentam em períodos de caos. A conversa fácil gerada pelo caos sempre foi uma característica nossa. É baixa, é feia, mas é nossa, e eu não gostava que fosse. Olhem, é a vida.

Pedro Nuno Marques

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