Opinião

Lábios vermelhos, jantares pitorescos e uma (quase) ‘table dance’ – Por Pedro Nuno

O luzidio encarnado dos lábios multiplicou-se por todo o lado. Aqui, ali e além-fronteiras. Entre cidadãos comuns e malta mais ou menos famosa, foram aos montões o pessoal que repudiou, as palavras – em forma de insulto – do André Claro V. Discursos inflamados, fomentados de forma gratuita e parola, como se de uma tentativa de afirmação forçada se tratasse.

Discursos promovidos em jantares com centenas de pessoas, entre as quais podemos pontualmente encontrar um ou outro indivíduo de braço estendido, nomeadamente durante o período de espera entre o prato de peixe e o de carne, de maneira de fazer voar o tempo de maneira célere. Nada de especial. “Chega! Não aguento tanto tempo à espera! Chega!”, atira um deles, estrategicamente sentado a dois ou três metros do decote da Cinha Jardim – aquela jovem de quase 70 anos, com idade para ter algum tino e que sempre trabalhou na vida, como defende André Claro V.

Entre palmas mais ou menos monitorizadas e insultos “à adolescente parvo”, destacou os lábios pintados de vermelho da Marisa. Insultou-a e maltratou-a. Maltratou uma pessoa, a liberdade e a liberdade de escolha, projectando nas paredes do espaço onde discursava um machismo que, pelos vistos, é do agrado da Cinha e daquela senhora de 1,20 metros que fez uma quase table dance (ou, quiçá, lap dance) ao André Claro V., no seguimento da sua festa de aniversário, só para aqueles amigos mais chegados e que saibam estender o braço de forma tesa e convicta, como se o restaurante “A Grande Ilusão” fosse a “Marcha sobre Roma”.

Bem, de todas as maneiras, o momento de actuação daquela senhora que tem 1,20 metros foi tão pitoresco e sinistro que até o meu cão abandonou o consolo da lareira da sala e foi para o frio gélido da marquise. Mas adiante, até uma chamuça ou uma lata de atum ficariam abismados com aquilo. Adiante, adiante.

Assim que os lábios pintados de vermelho começaram a surgir, de pronto me recordei daquela menina de vermelho da “Lista de Schlinder”. Um mero símbolo com mais de 20 anos que encarna uma questão mais ampla. Tão ampla como aquela que o André Claro V. esconde a cada entrevista que dá. Os mais desatentos (?!) dirão que aquilo dos lábios vermelhos não passou de um simples ataque pessoal.

E foi. Mas também foi mais além. Tratou-se de um desabafo sincero envolvido num clima de ideais que a história não pode apagar. Tratou-se de um volumoso acto desrespeitoso para com a Marisa, para com o sexo feminino e para com a liberdade de escolha. É que se formos por aí, teremos de avaliar, de 0 a 20, a Cinha ou aquela senhora de 1,20 metros que cresce no momento de fazer uma quase table dance para o seu líder espiritual. Mas não vale a pena entrar por aí, até porque o aniversário do André Claro V. foi na sexta-feira e a festa e a folia continuam, à boa maneira cigana.

Pedro Nuno Marques

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