Covid-19

Preciso de fósforos e de um agente comercial

A confusão instalou-se, mas foi boa. Do caos, sobremaneira, sai o sentido do caminho. 

Na semana passada, no meu facebook pessoal, lancei a questão da aldeia do carnaval, da forma como ela serve de capote a tantos outros problemas que existem e as pessoas manifestaram-se. Foi, a meu ver, maravilhoso. As pessoas expressaram a sua opinião, deram nota das coisas de que não gostam e das que acham que estão bem, criaram facções e apostaram momentos do seu dia no dizer do que acreditam deve ser feito. Isso é, ou não é, maravilhoso? Eu acho que é. Muito maravilhoso. 

O que pretendi afirmar foi que a minha maior crítica vai ao encontro da desunião de interesses que existe em Ovar. Mas, notem, não imputo essas culpas exclusivamente a comerciantes, por muito que sinta que alguns não se esforçam o suficiente. Vejamos, os cafés não passam dias fáceis, lutam por cada centavo que garanta um desafogo suficiente para se manterem na tona da água, a respirar. Assim, crêem que será fácil eles juntarem-se todos e começarem a pensar o que podem fazer uns pelos outros? Não creio, sinceramente. Penso muito mais que uma pessoa com a sua paixão focada em Ovar, nos interesses da cidade, no desenvolvimento dela, é que poderia ter um papel activo nisso. 

Não acredito em vitórias imediatas, note-se. A vitória imprevista é maravilhosa, mas é efémera. E, para Ovar, não queremos vitórias efémeras, queremos consistência, caminho de futuro. Ou seja, penso que não se deveria abordar assunto nenhum de forma fracturante. Os comerciantes terão receios iniciais com a união, as pessoas, vulgo consumidores, terão desconfianças e dedos a apontar, é assim, é sempre assim, mas isso não pode colocar tudo por terra. Olhemos, por fim, a pequenas vitórias. Essas é que criam o caminho das grandes. 

Aqui entra a Aldeia, o potencial dela, a forma como a defenderei sempre, ao passo que também defendo o centro da cidade. Ninguém gosta de rotinas, mas toda gente gosta de segurança. Ninguém gosta de ir sempre aos mesmos sítios, mas toda gente teme as mudanças. As pessoas são assim, não vale a pena criticar, é melhor tentar debelar. 

No fundo, dir-vos-ei o que são as minhas ideias. Aliás, estou a mentir-vos, só tenho uma ideia. Chama-se departamento ou pessoa. Só nesse detalhe é que me escapa, não sei se uma pessoa chega ou precisa de um departamento, mas logo se saberia – por muito que acredite que uma pessoa empenhada basta. 

Ovar, no meu entender, necessita de uma pessoa que sem interesses comerciais, apenas com interesses da urbe, coordene todo o sector comercial com o camarário. Eu sei que existe uma associação comercial, mas não sei quem a coordena nem quem ela é, pelo que não poderão levar-me a mal de a ignorar. Até porque, pelo que sei, não são tantos associados assim. 

Eu estudei alguma coisa de Turismo, durante três anos, e posso dizer que aqui existe potencial. Existe mar e ria, existem uma forte vertente religiosa, existe tradição, do azulejo ao pão-de-ló, existe folia, existem infra-estruturas, existe, melhor ou pior, comércio. O que falta, então? 

Faltam parcerias. O mal de Ovar é a escassez de parcerias. Falta alguém, sem interesses comerciais numa casa própria, mas com interesses comerciais da cidade, que possa lutar pela união dos espaços de diversão nocturna e os coordene com a aldeia do carnaval, falta um agente que potencie o comércio tradicional, que lhe devolva a alegria, que use o Dolce-Vita como aliado e não como um bicho papão que está a morrer à sombra de árvores da mata. 

E podem dizer-me que sou romântico, que sou. Mas o romantismo não afasta ninguém do trabalho. Dias numa secretária, disponibilidade para a função, telemóvel com bateria, despudor para bater às portas, capacidade para perceber que as abordagens não podem ser fracturantes e que os resultados não podem ser imediatos, tempo para começar com a unificação sem investimento, que fortaleça os laços e não implique grandes custos. Tudo isto, a meu ver, pode ser o caminho. 

É preciso, efectivamente, um agente comercial em Ovar. Não podemos pedir ao comércio que se una e abdique de uma parte de receita sua a bem de um total. Isso é descabido. Precisamos de uma pessoa que demonstre, um a um, com factos, com planos bem elaborados, que implicam trabalho e horas de escritório, que todos juntos os resultados podem crescer. Não hoje, nem amanhã, se calhar para a semana.

O passo é não dar despesas e mostrar. Parece estúpido, não é? Mas não é impossível, implica trabalho e dedicação, implica tempo de uma pessoa e vontade e paixão. E isso falta muito por cá. Falta quem acenda a paixão. No entanto, gosto de crer que os fósforos estão molhados, mas um dia chegará essa tal pessoa dedicada que os vai secar e voltar a acender. Pôr Ovar em polvorosa. 

PS – De hoje em diante, terei o Pintoluís a ilustrar os meus textos. Já viram a maravilha do desenho dele? 

Ricardo Alves Lopes (Ral)
http://tempestadideias.wordpress.com
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