Opinião

Profissões: O Ferreiro – Por Florindo Pinto

“O Zé trabalha, enquanto outros, não querem “ficar a ver passar o comboio”, da bazuca, que traz 887 milhões” e
aconselham “muita atenção”. Mais uma operação “é fartar v…)

O Dicionário (pai dos burros, como muito gosto de a ele me referir), lembra a uns, aos mais esquecidos,
ou ensina, outros, aqueles que o consultam e, a todos diz, sobre o Ferreiro:
“que trabalha em ferro ou tem oficino ou estabelecimento de obras em ferro; chapim, andorinhão e
pisco-ferreiro”. (6ª. edição da Porto Editora)

Temos, por conhecimento adquirido e como sendo a denominação certa e a mais usual, que é; o
“operário que trabalha o ferro ou obras em ferro” e, assim, o que melhor se ajusta àquilo que
conhecemos e a tradição nos ensinou. Em tempos idos, que, para os mais velhos, não mais voltam,
havia, pelo menos, um ferreiro em cada aldeia.

De quando em vez, em tempos da nossa juventude, lá ouvíamos o tilintar da marreta, do malho, do
martelo, moldando o ferro, aquecido “até à brasa”, tendo por seu “suporte”, a bigorna.
Para aquecimento do ferro, conhecíamos, à altura, a forja alimentada a carvão e soprada, inicialmente,
por foles e mais tarde, por ventoinhas. Como se tratava de um “equipamento” sujo e, por que não o
dizer, perigoso, devido às potenciais escaldadelas provocadas pelo carvão em brasa e das faúlhas que
dele saltavam, ou pelo metal aquecido, que se “trabalhava”, encontrava-se, quase sempre, “plantado”
em um canto das instalações.

Também, por que não era de uso costumeiro e diário e tendo em vista potenciar ao máximo o seu
rendimento, (os tostões, era muito dinheiro) o acender da forja e o aproveitar do carvão aquecido, era
“operação de trabalho”, que só acontecia quando se “juntava trabalho” suficiente para potenciar ao
máximo a sua disponibilidade.

Ferrar tamancos, aguçar utensílios – enxadas, picaretas, machados, foucinhas, etc. – era uma das suas
missões, já que os cavalos eram poucos, embora, os “burros/espertos” abundassem.
Ai como nos lembramos de, na ida, ou na vinda da escola, aproveitar, a ausência do Senhor (ti) José, ou
do Senhor (ti) Albino, e mais tarde os irmãos Alberto/Adão – os ferreiros dos nossos burgos – para,
numa “fugida”, usar o “torno”, para retirar do pião, o seu bico. Se a nossa presença, era por eles notada,
martelo ou o que ”tivessem à mão de semear, “rasgando” o ar, vinha atrás de nós. Umas vezes,
(pouquíssimas) acertava, outras – a maioria – não nos molestava. Do “sermão”, à porta da “oficina”, não
nos livrávamos nós e, por vezes, reconhecidos que fossemos, de uma acusa aos nossos pais, também
não.

As “forjas”, de então, “trabalhavam” a carvão, agora, são outras, bem mais sofisticadas. As “caixas” e os
muitos “megas” que as mesmas albergam e tratam, são potencialidades que “outros ferreiros,
doutores”, aproveitam, para dar curso aos seus maus instintos e à ganância que os norteia.
Estes – “os ferreiros modernos” – não trabalham os números de metal, que muito uso vão tendo na
identificação das casas e de muitas outras coisas. Romperam o fundilho das calças nas Escolas, nas
Universidades, com o ensino pago pelo povo e surgem, no mercado de trabalho, com o Dr. a anteceder
o seu nome de registo, embora sejam simples licenciados, com a especialidade de “moldadores de
números”, deturpando a realidade, escondendo a verdade, sempre em prejuízo da comunidade e,
quantas vezes, em seu proveito, ou por servilismo.

Que diferença a que existe entre alguns “forjadores” de hoje e os “ferreiros de outrora”!!! Os antigos,
com a força do braço e do seu esforço, faziam/produziam, eram úteis à sociedade. Os “tais” de hoje,
compilam números, procedem à sua distribuição por colunas, rubricas, verbas, dão-lhe a forma que a
sua imaginação criou e, quando a “obra” termina, olham o umbigo e dizem “esta já está, já cá canta”.
Esquecendo que a verdade existe e que há quem a procure, para a dar a conhecer.

Fernando Pinheiro / Florindo Pinto

21/05/2021

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