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OpiniãoPrimeira Vista

Máscara Sem Elásticos (IV) – Por Edgar Branco

O grandioso Café Progresso data de 17 de dezembro de 1949. À época, causou admiração pelo requinte com que foi concebido. Foi iniciativa de um nobre vareiro que, com coragem, decidiu oferecer à cidade um espaço como nunca houvera — com uma moderna máquina de café e um salão de chá no primeiro andar, onde os jovens dançavam ao som de boa música, vivendo tardes de alegria e distração.



Na noite de Carnaval, o Progresso abre-se mais uma vez em esplendor. E é lá que reencontramos o nosso canídeo errante, Artur, à caça da flecha de Cupido.

Chega com o orgulho ferido, mas com o apetite renovado pela companhia que ainda procura.
Caminha sozinho entre a multidão — o chacal, aquele que, espiritualmente, se alimenta dos restos deixados pelos grandes predadores. Um ser que espreita oportunidades na sombra da festa. E desta vez, traz uma nova estratégia.

No Progresso, avista um grupo. Mascarados. Animalescos. Os rapazes do grupo são leões:
imponentes, confiantes, magnéticos. E com eles, gazelas — jovens graciosas, sensíveis, belas, mas prontas para serem devoradas pela exuberância dos que as acompanham. Artur sabe: aqui, não tem como ombrear. Não nesta savana.

Cada leão escolhe a sua gazela. Todas estão pareadas. Todas… menos uma.

Há movimento. Beijos, abraços, poses. E uma gazela permanece sozinha. Delicada. Meiga no seu comportamento. Deslumbrante na sua fantasia. Está solta.

Artur vê a oportunidade. Aproxima-se discretamente, esquivando-se ao radar do grupo.
Olá, tudo bem? A tua máscara… foste tu que a fizeste?
Ela sorri, mas responde com um certo desdém:
Eu? Achas mesmo? Isto parece-te amador? A gazela não aprecia a sugestão. Estava orgulhosa
do que vestia.
— Não, não me parece amador — recua Artur, calculando. — Parece feito à medida. Como se
tivesse sido criada só para ti. Nada genérico. Mas… ainda assim, com um defeito.
Ela franze o sobrolho. Procurando onde estaria o tal defeito.
Defeito? Como assim?
Artur conhece o jogo. Para predadores como os leões ao redor, o estatuto é dominante. Para
sobreviver, o chacal precisa desequilibrar.
Sim. Nada é perfeito — diz ele, encenando naturalidade. — Mas este defeito… é grave.
— Estou a começar a não achar piada…
— O defeito — conclui Artur, com um sorriso enviesado — é não condizer comigo. Já viste se
estivéssemos vestidos a combinar?
A jovem cora ligeiramente. Está a ceder. A abordagem, apesar de estranha, resulta.
Conversam, ainda que o ambiente seja ruidoso. Entre batidas e vozes, o cortejo continua. Artur
sente-se a navegar bem… até que surge um intruso.

Oh, jovem! — ouve-se, de longe.
— Sim? — responde Artur, já a sentir a tensão a subir. A figura que se aproxima é maior, mais
agressiva. Um animal dominante.
— Essa rapariga com quem estás aí a bater o couro… — diz, já em frente a ambos, em tom
acusatório.
— Sim…?
— Sim o caraças, pá! Põe-te a andar. Ela é prima da minha namorada e não está aqui para essas
coisas. Agora desampara a loja. E já agora, põe os elásticos que te faltam nessa máscara e
desaparece!
O silêncio agora os rodeia.
Artur, franzino, de estatura média, sente-se encurralado. Sem força para reagir. A rapariga não sabe o que fazer. O grupo de leões observa. Os olhos estão sobre ele.

E Artur sabe.
Mais uma vez, sem defesa, sem saída, sem hipótese.
Mas ela… podia ser ela, não podia? A gazela que me aquieta o peito. Que me dá sentido.
Artur foge para dentro dos pensamentos, mas a realidade empurra-o para fora. A jogada está
perdida.
Escolhe recuar. Engolir o orgulho. Guardar forças para outra noite.

Isto não vai acabar bem… — pensa, enquanto se afasta.
Mais uma tentativa falhada.
Mais uma ferida na pele do chacal. (Continua)

Edgar Branco

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