Deixem-me envelhecer (17/07/1940 – 17/07/2026) – Por Florindo Pinto
“desembaraça-te e, não guardes,
tudo aquilo, que não te for necessário,
que não seja belo, ou não te torne feliz”
É da sabedoria popular, que considero ser um “poço” de sabedoria; “quem de novo
não vai, de velho não escapa”, esta verdade inquestionável, tem sido transmitida de
geração em geração e, continua bem presente, nos dizeres e, no sentir de algumas
pessoas, nos dias de hoje, perante a indiferença de uns e, a preocupação de outros,
mas, também, não é menos verdade, que “não há idoso, que não queira viver mais um
ano”, se é que não anda a sofrer e, a estorvar, ou se sente que pode alguma coisa mais
realizar, mais fazer, mais deixar, se acaso isso conseguir e, que disso os outros, no
amanhã, possam beneficiar.
E, por que tenho a noção de que assim é e, sempre assim será, vou tentando manter-
me activo, procurando conservar e, usar o que me foi dado à nascença, não esquecer o
aprendido e, sempre que oportuno, acrescentar ao meu pouco saber, mais algum novo
saber e, não negar, nem descurar o “mais aprender”, mantendo-me atento à evolução
imposta pelos tempos e, sempre, num natural, mas já muito condicionado, disfrutar
dos prazeres da vida.
Como os outros, de idade mais avançada, que nem sempre são bem compreendidos,
entendidos, ou tolerados, sei, que o saber adquirido ao longo dos já muitos anos de
vida, nesta caminhada terrena, pode esquecer, se diluir, se dissipar e, de forma
simplista, se resumir em um “agora não me lembro”.
E, como um qualquer ser prevenido e observador, na tentativa de o saber reter, dedico
muitas horas do meu viver, que pouco mais tempo terá para me oferecer, apesar dos
louváveis esforços de médicos, dedicados, com forte sentido humanista, que muito
fazem para o “alongar”, continuo a ler, a reter, a memorizar a escrever, a consultar,
para esse saber deixar, para outros dele se aperceber e, talvez aprender e, às gerações
futuras, poderem eles, como eu estou a fazer e, sempre fiz, o oferecer.
No dia a dia, no seio da sociedade, não receio um possível comentário mais jocoso,
vindo de um jovem, quando, em conversa, com quem me ouve, falo dos outros
tempos, daquilo que sei, daquilo que vivi, daquilo que foi a realidade de um passado e,
também, não escondo as minhas perspectivas, daquilo, que, segundo a minha visão
das coisas, virá do desconhecido, no decorrer dos próximos tempos e, disso falo para
gente, seja ele um amigo, um qualquer grupo de pessoas, ou um mero desconhecido.
Falo, por que sinto ser necessário manter em “actividade” o cérebro, que, quando
“consultado”, rebusca nos seus recantos, as memórias e, se estiver “em bom estado”
as faz discorrer, de forma clara, para aos outros, do pensamento, os fazer
compreender e, também, se necessário, melhor se defender, quando confrontados,
com uma opinião diferente da sua/deles.
Gente há, da minha idade, que se retrai de manifestar a sua opinião, quando
intimamente discorda daquilo que ouve, que acontece, com o que não concorda. E,
por que se cala, nem sempre o faz por incapacidade de chegar à resposta certa, com as
palavras adequadas, prefere, então, por “simpática” benevolência, ou estranho
comodismo, para não dizer, por compaixão, passar por “ignorante, ou lorpa”.
Não, o idoso, não tem que ser somente um ser servil, acomodado, calado, demasiado
tolerante, mas sim; deve ser frontal, nunca guardar no seu coração, aquilo que o
incomoda, que sabe, ou pensa que sabe, que não está certo, que deve ser corrigido e,
por isso, em todas as situações, se verdade, deve defender, com arreganho, com
determinação, o seu ponto de vista.
E, sobre o falar, encontrei escrito por um médico, uma sua opinião, que me permito
aqui transcrever; “A fala exercita os músculos activos da face, exercita a garganta,
aumenta a capacidade dos pulmões e reduz os perigos ocultos da vertigem e da surdez,
que frequentemente prejudicam os olhos e os ouvidos”.
Mas, sem recurso à medicina, podemos muito remediar, a velhice adiar, muito menos
os outros incomodar, por que existem maneiras mil de conviver, de dialogar, de
aprender, de ensinar, com o simples acto de falar, sem deixar de a idade respeitar.
E, porque a viagem em vida, de cada um de nós, pode ser “boa/tranquila”, mas a cruz,
a tua cruz, tem de ser por ti carregada, não percas o teu tempo a falar “para o
boneco”. Se estás sozinho pensa, medita, recorda, lembra, estuda a melhor fórmula de
guardar, para aos outros devolver, em momentos de dar e, por que não se deve falar
por falar, procura fazer amigos, com eles conviver, conversar, opinar, discordar, aceitar
e, melhor estarás, se alguns expurgares, repudiares e, deles te afastares, por que um
adulto, quando teimoso, vaidoso, maldoso, casmurro, parvo, não mais se deixa educar
e, muito menos, aceita, que as palavras dos outros, tenham sido proferidas, para o
ajudar a não mais ter atitudes de aborrecer, erros cometer e, de assumir, acções de
envergonhar.
Em verdade, a vida, está recheada de escolhas, daquelas escolhas, que fazes e, das
escolhas, que não fazes, por isso procura a harmonia, o lado bom das coisas, o respeito
pela dignidade humana, por que no meu conceito dessas coisas, a sobranceria, a
exploração, o desprezo, a arrogância, tem o seu preço, na extensa tabela das
condições de vida, por que ela é, fruto da natureza e, funciona, como uma roda
gigante, sempre a deixar o aviso; “quem estiver em cima, não deve pisar, quem está em
baixo. Mais tarde, ou mais cedo, a roda gira e, a troca, é mesmo inevitável”.
O que julgo estar certo, aqui vos deixo, é a minha opinião, em dia especial e de mais
um aniversário.
Florindo Pinto
17/07/2026





