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Opinião

O Irmão de Santa Camarão (I) – Por Edgar Branco

Poucos nomes ressoam tão alto em Ovar como o de José Soares Santa, o lendário Santa Camarão.

Um colosso nascido na manhã de Natal de 1902, com mais de dois metros de altura, um verdadeiro gigante numa época em que o homem comum mal ultrapassa o metro e sessenta.

De Lisboa ao Brasil, dos ringues de Portugal às arenas fervilhantes dos imigrantes em Massachusetts e Rhode Island, Santa Camarão fez-se nome no boxe. Enfrentou os maiores.

Trocou golpes com Max Baer, cruzou punhos com Primo Carnera, disputou o título europeu contra Pierre Charles. Perdeu esse combate, mas nunca perdeu o estatuto de lenda.

Foi o pugilista de Ovar, o filho da terra que levou o nome da cidade além-mar.

Hoje, permanece imortalizado em pedra, numa estátua erguida junto à casa onde nasceu — umtributo de pedra e orgulho.

Mas esta não é a sua história. Esta é a história de um homem que o tempo quis esquecer.

O irmão desconhecido de Santa Camarão.

Nos registos, Santa Camarão nasceu como filho único. Mas os registos, tal como as memórias, por vezes omitem o que lhes é inconveniente.

Houve outro.

Um homem que, em qualquer outra família, poderia ter sido tão célebre quanto Santa. Um homem que carregava a mesma força do sangue paterno, mas cujo nome nunca adornou estátuas nem largos.

O seu nome? José Santo Lagosta.

Não era alcunha. Não era troça. Santo Lagosta era o seu nome de batismo, herdado da mãe, Ludovina Lagosta — uma mulher cujo destino se entrelaçou, em segredo, com António Soares Santa, o pai do pugilista. O fruto de uma ligação extraconjugal.

Um segredo que Ovar murmurava, mas nunca ousava dizer em voz alta.

E assim, enquanto um irmão caminhava para a glória, o outro crescia nas sombras. Santo Lagosta não era um gigante como Santa Camarão. Era um homem franzino, de corpo delgado, sem grande interesse ou apetência para feitos atléticos. Não herdou a força. Não herdou os punhos de ferro nem a brutalidade do pugilismo que o seu irmão ostentava nos ringues. Mas também não era um homem sem talento.

Ficou conhecido por um dom diferente.

Um vidente.

O Vidente de Ovar.

O vidente da guitarra na mão. (continua)

 

Edgar Branco

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