Quando a política perde a vergonha – Por Henrique Araújo

Passou algum tempo desde que o país ficou de boca aberta com o caso do deputado que desviava malas no aeroporto e fazia alguns tostões com a venda do que nelas encontrava — produtos que, segundo a imprensa, chegava a vender por um euro.
Na altura, a reação foi imediata. O deputado foi prontamente convidado a sair do seu partido e, de vários quadrantes políticos, ouviram-se vozes indignadas a proclamar que aquele comportamento era uma vergonha para os deputados e para Portugal.
Hoje, porém, assistimos a algo de uma dimensão incomparavelmente maior e, paradoxalmente, parece que a indignação desapareceu.
Tanques e piscinas, obras sem licença, pagamentos em dinheiro, relações privilegiadas com empreiteiros, atrelados, entrega de documentos, viaturas apreendidas — uma sucessão de episódios que, pela sua natureza e pelo conjunto das circunstâncias, deveria exigir explicações claras, escrutínio e responsabilidade.
E o que ouvimos?
Dirigentes partidários, presidentes de câmaras, deputados e até governantes a relativizar, justificar ou defender aquilo que, em qualquer outro contexto, provavelmente classificariam como inadmissível.
Isto é surreal.
O problema já não é apenas saber se determinado comportamento é legal ou ilegal. Há uma questão muito mais profunda: a confiança dos cidadãos nas instituições.
Um Estado democrático não pode exigir aos cidadãos respeito pelas regras enquanto os seus próprios representantes dão a impressão de considerar que existem regras para uns e justificações para outros.
É aí que reside o verdadeiro perigo.
Porque um deputado que desvia uma mala pode ser um caso lamentável. Mas quando representantes eleitos, responsáveis políticos e governantes começam a normalizar comportamentos eticamente questionáveis, o dano é muito maior: é a própria autoridade das instituições que fica corroída.
E essa autoridade não pertence aos políticos. Pertence ao Estado e, em última análise, aos cidadãos que o sustentam com o seu trabalho, os seus impostos, o seu esforço e, tantas vezes, com sangue, suor e lágrimas.
Por isso, é difícil aceitar que, perante tudo isto, a resposta seja simplesmente o paleio político habitual.
Os portugueses não precisam de mais desculpas, relativizações ou jogos partidários.
Precisam de responsabilidade, transparência e respeito pelas instituições.
Porque quando quem governa deixa de perceber a gravidade daquilo que está a defender, o problema já não é apenas político.
É institucional. É democrático. E é de todos nós.
Henrique Araújo, Presidente Movimento 2030





