Paulo Duarte a partir de Uma Casa na Escuridão, de José Luís Peixoto

O vareiro Paulo Duarte estreia esta terça-feira (21h) um espetáculo livremente inspirado no romance “Uma Casa na Escuridão”, de José Luís Peixoto, no auditório do Teatro do Campo Alegre, no Porto.
No âmbito do Teatro de Marionetas do Porto, entramos num mundo onde a matéria já não é segura e onde a luz pode ser mais verdadeira do que os corpos. Num universo negro, mecânico, sitiado por invasões que avançam como um rumor de fim, um escritor habita uma casa coberta de hera.
À sua volta, as personagens formam um círculo de vozes, de mensageiros e de fantasmas… figuras que trazem histórias, mutilações, presságios, e que cercam o autor como um cerco invisível. No centro desse círculo, não há solidão: há a Mulher-Luz. Ela não é uma ilusão. É uma presença que se sobrepõe à matéria, mais real do que os corpos feridos, mais durável do que as casas invadidas.
Nascida no interior do negro absoluto, ela emerge dos pequenos pontos luminosos que habitam a escuridão e desenha, pouco a pouco, um rosto, um corpo, uma promessa. Enquanto as invasões deformam os corpos e o mundo se fragmenta em amputações, abusos e metamorfoses, a Mulher Luz persiste como desejo encarnado, como memória viva, como a única figura que resiste à violência do real.
A dramaturgia constrói-se então como um enredo de visões: marionetas, sombras, luz e projeções traduzem um tempo suspenso, onde a narrativa se desfaz em imagens e a esperança não vem da fuga, mas do ato de continuar a ver, mesmo de olhos fechados. No coração da escuridão, quando tudo é cercado, a luz não é um sonho: é uma realidade que resiste.
A peça, que tem conceção e encenação de Paulo Duarte, repete amanhã, às 22h.




