Esta é aquela época do ano em que ficamos mais sensíveis a estas realidades. Há quem critique que devia ser todo o ano.
Mas agora o que nos inquieta é: Como vai ser o Natal do Rui, do Miguel e do Zé?
Eles são os sem-abrigo que estão a viver há quase dois meses num dos pontos mais movimentados da cidade vareira.
Enquanto as luzes brilham na cidade, ali reina a noite de breu. A situação acontece junto da Incubadora de Empresas do Município de Ovar – Espaço Empreendedor e do estacionamento da Senhora da Graça, em Ovar.
Dormem numa tenda que está montada sob o edifício, decorada com os parcos pertences, muitas vezes espalhados em redor, denunciando a sua presença.
Para eles, esta será uma quadra que passarão mergulhados numa solidão que conhecem, dos que (não) têm família, da fragilidade dos que vivem na rua. Provavelmente, jantarão a sua consoada nas Mãos Solidárias, instituição onde recorrem diariamente para a alimentação.
Os sem-abrigo são uma realidade recente na cidade de Ovar, são como uma ferida exposta mas que poucos querem ver. O Rui, o Miguel e o Zé têm muito que contar. O presente é passado a “arrumar” carros e até já foram alvo de uma ação da Segurança Social e da Cruz Vermelha que os instalou num apartamento no Furadouro, segundo nos dizem.
Só que três dias depois estavam de volta à pequena tenda de campismo instalada junto do Espaço Empreendedor.
Passaram um mau bocado durante a passagem da Depressão Cláudia. Nas noites mais geladas também. Mas resistiram. Afinal, dormir ao lado do local de trabalho é uma vantagem de que nem todos se podem gabar. E quando saem deixam os pertences mesmo ao lado da entrada do icónico imóvel.
Esta semana, até receberam a visita do Mark e do seu cão, que viajam pela país de bicicleta. O “dog” estava doente, mas acabou por ser visto por um veterinário, ali pernoitou e melhorou.
Apesar de não poderem dar mais pormenores, sublinham: “Nestes casos, é preciso que as pessoas queiram ser ajudadas”, anota fonte do NPISA – Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo de Ovar que não esconde a falta de respostas para alojar estas pessoas no concelho de Ovar.
Em sentido lato da definição de pessoa em situação de sem-abrigo, Ovar é dos concelhos da região Centro com mais pessoas identificadas nessa situação.
Estes três indivíduos são mais alguns a juntar à antiga Casa do Magistrados, ao prédio junto ao Mercado, entre outros pontos no concelho, locais de eleição para os sem-abrigo de Ovar.
Dizem que a Câmara está a construir casas e esperam ser selecionados.
O Centro Comunitário de Esmoriz que apresentou, recentemente, o trabalho de identificação e acompanhamento que tem sido desenvolvido, em parceria com as restantes entidades que integram o NPISA – Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo de Ovar, no concelho de Ovar, junto de Pessoas em Situação de Sem Abrigo e que atualmente beneficia 45 pessoas.
Há um ano, o cenário em Ovar era este: 29 pessoas vivem na rua ou espaços públicos há mais de cinco anos, a maioria das quais com idades dos 45 aos 64 anos e nessa situação devido ao vício do álcool, à dependência de substâncias psicoativas e a desavenças familiares; 345 habitam em barracas e construções precárias, têm 18 a 30 anos e encontram-se nesse contexto por dificuldades de integração no mercado laboral e isolamento geográfico, cultural e social; e 17 cidadãos vivem há menos de 12 meses em quartos pagos por serviços de ação social ou outras entidades, tendo 45 a 64 anos e problemas familiares.