O Miguel morreu. Tinha dois anos e nove meses – Por Pedro Chagas Freitas

O Miguel morreu. Tinha dois anos e nove meses. Uma besta de um tumor cerebral levou-o dez dias depois do diagnóstico. É uma filhadaputice, a natureza a ser a maior cabra do mundo. Há no luto dos pais um silêncio que não devia ser tocado por nenhuma forma de burocracia. O filhos deles morreu.
A Segurança Social diz que não há direito ao reembolso das despesas do funeral porque a criança não contribuiu. A existência humana reduzida à lógica contabilística. Uma criança não contribuiu porque ainda não viveu. É aí que está a mais miserável das dores. O funeral custa cerca de mil euros. O subsídio cobre menos de um terço.
Cria-se uma hierarquia da mortalidade: as crianças e os deficientes ficam na base. Não pode ser. A existência humana não é um contrato que só se valida quando devolve rendimento. A vida não começa quando se entra no circuito económico. O que fica antes — a infância, a fragilidade, a dependência — existe, tem valor, é vida. A morte infantil não deveria ser um encargo. Temos de corrigir isto. A dor basta.
Por Pedro Chagas Freitas
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