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	<title>Edgar Branco, autor em OvarNews</title>
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	<description>Actualidade Vareira</description>
	<lastBuildDate>Sun, 12 Jul 2026 14:19:16 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Edgar Branco, autor em OvarNews</title>
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	<item>
		<title>O Cine-Teatro de Ovar (III) &#8211; Por Edgar Branco</title>
		<link>https://www.ovarnews.pt/o-cine-teatro-de-ovar-iii-por-edgar-branco/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Edgar Branco]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Jul 2026 14:17:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Joel corre sempre pela cidade, apressado, envolto em compromissos e tarefas. Parece nunca ter tempo para nada. Entra num café no centro, em frente ao antigo cinema, e olha pela montra. O olhar detém-se na velha fachada do Cine-Teatro e, com um gole de café, a viagem no tempo começa. A adolescência volta num instante. &#8230;</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.ovarnews.pt/o-cine-teatro-de-ovar-iii-por-edgar-branco/">O Cine-Teatro de Ovar (III) &#8211; Por Edgar Branco</a> aparece primeiro em <a href="https://www.ovarnews.pt">OvarNews</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Joel corre sempre pela cidade, apressado, envolto em compromissos e tarefas. Parece nunca ter tempo para nada. Entra num café no centro, em frente ao antigo cinema, e olha pela montra. O olhar detém-se na velha fachada do Cine-Teatro e, com um gole de café, a viagem no tempo começa.</p>
<p>A adolescência volta num instante.</p>
<p>Joel sempre foi extrovertido, um rapaz bem-humorado, rodeado de amigos. Mas, por muito sociável que fosse, havia algo que ainda lhe escapava: um encontro.</p>
<p>Há semanas que andava atrás disso. Filipa era colega de uma outra escola, e, entre conversas de amigos em comum, trocas de mensagens e alguma coragem acumulada, ele finalmente conseguira.</p>
<p>— Sábado, na sessão das duas da tarde. Pode ser?</p>
<p>A resposta veio rápida.</p>
<p>— Sim, sim, claro.</p>
<p>Joel sentiu o coração acelerar. Imaginou o cenário perfeito: ele e Filipa sentados lado a lado, o balde de pipocas entre os dois, uma comédia romântica na tela… E, no momento certo, o braço dele se levantaria num falso espreguiçar e desceria suavemente sobre os ombros dela.</p>
<p>Talvez até roubasse um beijo, ou dois.</p>
<p>Chega sexta-feira à noite.</p>
<p>Joel, entusiasmado, contava tudo a Manel, um dos seus melhores amigos. Estavam em casa de Manel, jogando consola, enquanto o nervosismo de Joel crescia.</p>
<p>— Meu, ela é linda, juro-te! — dizia ele, cheio de expectativa.</p>
<p>— Estou a ver, estou a ver&#8230; Mas tens mesmo a certeza de que ela vai? — Manel ergueu uma sobrancelha. — E se for tanga?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Nas idades deles, o medo de levar um &#8220;fora&#8221; era enorme.</p>
<p>— Eh pá, espero que não.</p>
<p>Mas a dúvida já estava plantada.</p>
<p>E então&#8230; o telemóvel vibrou.</p>
<p>Pri pri.</p>
<p>Joel olhou para o ecrã. Uma mensagem de Filipa.</p>
<p>— Achas que há problema se levar uma amiga também?</p>
<p>O sangue gelou-lhe nas veias.</p>
<p>— Manel, acredita nisto. — A preocupação estampou-se-lhe no rosto. — Ela quer levar uma amiga!</p>
<p>— Uma amiga? — Manel esboçou um sorriso matreiro. Sentiu ali uma oportunidade.</p>
<p>— Queres vir também? — perguntou Joel, já resignado.</p>
<p>— Mas espera&#8230; A amiga é bonita?</p>
<p>— Roleta russa, pá. Não sei.</p>
<p>— Ok, ok. Bora.</p>
<p>E assim ficou combinado.</p>
<p>Minutos depois, nova mensagem de Filipa.</p>
<p>— Achas que posso levar outra amiga?</p>
<p>Joel piscou os olhos, incrédulo.</p>
<p>— Manel&#8230; agora são duas amigas.</p>
<p>— Isto já deve ser gozo.</p>
<p>— Pois&#8230; Mas e se não for?</p>
<p>Manel pensou por um momento.</p>
<p>— Deixa ir. Diz que sim. Pior dos casos, vemos um filme e pronto.</p>
<p>Mas Joel já começava a desconfiar.</p>
<p>— Vamos chegar atrasados de propósito. — planeou ele. — Ficamos à distância a ver se elas aparecem mesmo. Se for tanga, bazamos.</p>
<p>Manel aprovou a estratégia.</p>
<p>— Bem pensado.</p>
<p>E finalmente, o dia havia chegado, era Sábado.</p>
<p>O nervosismo deu lugar à preparação. Nada formal, mas também nada descuidado, de camisola bem escolhida, perfume na medida certa e as sapatilhas menos gastas pelo tempo.</p>
<p>No caminho para o cinema, os dois amigos iam confiantes. Talvez fosse o dia deles, ou talvez&#8230; não.</p>
<p>Chegados ao Cine-Teatro, Filipa já os esperava.</p>
<p>Joel abriu um sorriso, agora tímido. Mas algo estava errado.</p>
<p>Não havia uma amiga. Nem duas.</p>
<p>Havia três. E, para piorar, uma delas era&#8230; um rapaz.</p>
<p>— Estas são as minhas amigas, a Joana e a Juliana&#8230; E este é o meu primo, o Bernardo. — explicou Filipa. — Ele estava cá de visita e convidei-o. Não há problema, pois não?</p>
<p>Joel e Manel trocaram um olhar de desespero disfarçado.</p>
<p>— Não, claro que não.</p>
<p>O plano tinha sido arruinado e dentro do cinema, a situação só piorou. Entre trocas de palavras sem jeito, risos forçados e um clima inexistente, os bilhetes foram comprados.</p>
<p>O pior veio quando perceberam que os lugares não eram marcados. Na hora de se sentarem, Filipa e Joel foram separados.</p>
<p>No meio de três amigas, um primo e um corredor de cadeiras, não havia qualquer hipótese de aproximação. O filme correu sem romance, sem toques subtis, sem planos concretizados e no fim, uma despedida sem graça.</p>
<p>Um adeus sem promessas.</p>
<p>Ao saírem do cinema, Manel olhou para Joel e não resistiu.</p>
<p>— Eh pá&#8230; Este pessoal nem te deixou sentar ao pé dela!</p>
<p>Joel abanou a cabeça, divertido.</p>
<p>— Acho que nem perceberam.</p>
<p>E os dois rebentaram a rir.</p>
<p>Anos depois, sentado no café diante do antigo Cine-Teatro, Joel sorri sozinho.</p>
<p>Lembra-se do amigo.</p>
<p>Lembra-se daquele encontro que nunca foi um encontro.</p>
<p>Lembra-se de como os planos nem sempre dão certo&#8230;</p>
<p>Mas às vezes, dão em risada.</p>
<p><strong>Edgar Branco</strong></p>
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            	</item>
		<item>
		<title>O Cine-Teatro (II) &#8211; Por Edgar Branco</title>
		<link>https://www.ovarnews.pt/o-cine-teatro-ii-por-edgar-branco/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Edgar Branco]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 03 Jul 2026 15:01:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Os irmãos André e Amaro caminham pela cidade, parando por um instante diante do Cine-Teatro. Os seus olhos fixam-se na velha fachada e, num olhar cúmplice, ambos se compreendem. A nostalgia transporta-os de imediato para o passado. Os tempos eram outros. Não havia televisores em todas as casas, nem serviços online que transmitissem conteúdos sem &#8230;</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Os irmãos André e Amaro caminham pela cidade, parando por um instante diante do Cine-Teatro. Os<br />
seus olhos fixam-se na velha fachada e, num olhar cúmplice, ambos se compreendem. A nostalgia<br />
transporta-os de imediato para o passado.</p>
<p>Os tempos eram outros. Não havia televisores em todas as casas, nem serviços online que<br />
transmitissem conteúdos sem cessar. Um filme no cinema era um evento, uma experiência rara, algo<br />
que se aguardava com entusiasmo. Não se decidia de última hora. Havia planeamento, havia<br />
expectativa, havia mistério.</p>
<p>Numa modesta casa vareira, onde a dignidade se sobrepunha às dificuldades, aquele dia começara<br />
com uma animação especial. André e Amaro estavam prestes a ir ao cinema pela primeira vez. Mas,<br />
naquela manhã, ainda não o sabiam.</p>
<p>Era domingo. E, aos domingos, Dona Augusta sempre deixava os filhos dormirem um pouco mais.<br />
Não havia pressa como nos dias de escola, nem catequese como ao sábado. Nos domingos, os<br />
meninos podiam permanecer nos seus sonhos por mais algum tempo.</p>
<p>Dona Augusta, de pé junto à porta do quarto, espreitava-os com ternura. Adorava vê-los assim:<br />
leves, despreocupados, protegidos do mundo. Mas naquele dia, eles precisavam acordar mais cedo.</p>
<p>— Meninos, meninos&#8230; Hora de acordar! — chamou suavemente.<br />
— Ohhhhhh&#8230; — gemeram em uníssono, o peso do sono ainda sobre os ombros.<br />
Mas a voz da mãe era doce, e o despertar, embora lento, veio carregado de surpresa.<br />
— Hoje há algo especial para vocês!<br />
As palavras foram suficientes para que os olhos dos dois brilhassem.<br />
— Para nós? O quê? O quê?</p>
<p>Dona Augusta sorriu, encantada com a alegria dos filhos.<br />
— Venham comigo, vistam-se. Prometo que vão adorar.<br />
Ainda meio sonolentos, mas cheios de curiosidade, André e Amaro apressaram-se a vestir-se. Mal<br />
sabiam eles que aquele dia se tornaria uma das mais belas memórias das suas vidas.<br />
A cidade, naquela manhã, parecia mais bonita. O sol brilhava suavemente sobre as ruas de pedra, o<br />
cheiro do pão fresco escapava das padarias, e as gentes iam e vinham, mergulhadas no quotidiano.<br />
André e Amaro caminhavam ao lado da mãe, um de cada lado, segurando-lhe as mãos com força.<br />
Dona Augusta vestia-se com a mesma dignidade com que ensinava os filhos a enfrentarem a vida.<br />
Não possuíam riquezas, mas nunca lhes faltou limpeza, aprumo e orgulho.</p>
<p>— Não temos de nos rebaixar a ninguém. — dizia-lhes sempre. A vida podia ser difícil, mas o caráter<br />
era inegociável.<br />
E naquele dia, com o pouco que tinha, Dona Augusta ia oferecer-lhes algo imensurável—uma<br />
memória para toda a vida.<br />
Chegados ao centro da cidade, os irmãos avistaram, ao longe, o imponente Cine-Teatro. O edifício<br />
estava vivo, pulsante, cheio de movimento. Gente entrava e saía dos degraus. Os cartazes<br />
anunciavam histórias mágicas.</p>
<p>Os olhos dos dois brilharam. Seria aquele o destino da surpresa? Dona Augusta parou, olhou-os com<br />
ternura e anunciou:<br />
— Hoje, vamos ao cinema.<br />
O tempo parou. O silêncio deles foi seguido por um suspiro contido, e depois&#8230; por um rebuliço de<br />
emoção.<br />
Saltos, gargalhadas, risos incontidos.</p>
<p>A felicidade pura de uma infância que ainda conhecia o encanto das pequenas coisas.</p>
<p>— Agora, venham comigo. Vamos comprar os bilhetes.<br />
O átrio do Cine-Teatro era um espetáculo por si só. Cinco portas abertas convidavam o público a<br />
entrar. No interior, um chão de mármore polido, um grande tapete vermelho, e cartazes pendurados<br />
nas paredes anunciavam peças de teatro, bailes e filmes estrangeiros que faziam sonhar.<br />
Dona Augusta aproximou-se da bilheteira.<br />
— Três bilhetes, por favor.</p>
<p>O funcionário entregou-lhe três bilhetes de papel antigo, impressos a preto e branco, marcados com<br />
a data, o custo e o nome do filme.<br />
O preço? 750 escudos. Um valor considerável, mas Dona Augusta não hesitou. Pagou com uma nota<br />
de mil escudos, recebeu o troco—250 escudos—e já sabia o que fazer com ele.<br />
Os olhos dos meninos seguiram-na com expectativa.</p>
<p>Junto ao quiosque, meio escondida, havia uma pequena sala de vendas. Prateleiras repletas de<br />
doces, rebuçados coloridos, pacotes de pipocas e garrafas de sumo.<br />
— Podemos mesmo, mãezinha? Podemos gastar tudo?<br />
Dona Augusta sorriu.<br />
— Hoje podem.</p>
<p>E assim, entre moedas e contas feitas com esmero, os meninos saíram do quiosque de bolsos<br />
cheios, coração leve e sorrisos incontroláveis. O filme ainda nem tinha começado, mas a magia já<br />
estava feita.<br />
O Cine-Teatro de Ovar possuía apenas uma grande tela. No rés-do-chão, um salão vasto de<br />
cadeiras bem alinhadas. No primeiro andar, uma galeria semicircular—um espaço que, na mente das<br />
crianças, parecia reservado à nobreza.</p>
<p>Naquela tarde, foi lá que se sentaram.<br />
Ao entrarem na imensa sala escura, os cortinados pesados impediram que a luz do exterior<br />
perturbasse a experiência. A mãe sentou-se entre os dois. O projetor roncou, a tela iluminou-se, e o<br />
filme começou.<br />
Mas, por um instante, os irmãos não olharam para a tela. Em vez disso, voltaram-se para Dona<br />
Augusta.<br />
Ela observava o filme, tranquila.<br />
E foi ali, naquele momento, que ainda mais a respeitavam e amavam. A mãe fazia sacrifícios, ela<br />
dava-lhes tudo que podia e tinha, e ela os amava mais do que as palavras poderiam descrever.<br />
Então, num gesto instintivo, cada um deles abraçou-a com força.</p>
<p>— Meninos, meus meninos&#8230; — murmurou ela, sorrindo, segurando-os contra si.<br />
E assim permaneceram.<br />
Três corações unidos, protegidos, dentro daquele espaço mágico.</p>
<p>Um dia para nunca esquecer.<br />
Anos mais tarde, diante das ruínas do Cine-Teatro, André e Amaro recordam esse momento.<br />
A mãe já partiu.<br />
Mas naquela lembrança, naquele abraço, ela está viva para sempre.</p>
<p><em><strong>Edgar Branco</strong></em></p>
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		<item>
		<title>O Cine-Teatro (I) &#8211; Por Edgar Branco</title>
		<link>https://www.ovarnews.pt/o-cine-teatro-i-por-edgar-branco/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Edgar Branco]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Jun 2026 17:26:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Cine-Teatro de Ovar, um monumento vareiro, ergue-se no coração da cidade, fronteiro à Igreja Matriz e ao Mercado. Outrora vibrante, hoje é apenas uma sombra do que foi destroçado, abandonado, reduzido a uma bela fachada que resiste solitária ao tempo. O edifício, inaugurado a 30de dezembro de 1944, possuía uma sala de espetáculos com &#8230;</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O Cine-Teatro de Ovar, um monumento vareiro, ergue-se no coração da cidade, fronteiro à Igreja Matriz e ao Mercado. Outrora vibrante, hoje é apenas uma sombra do que foi destroçado, abandonado, reduzido a uma bela fachada que resiste solitária ao tempo.<br />
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O edifício, inaugurado a 30de dezembro de 1944, possuía uma sala de espetáculos com cerca de mil lugares e um elegante salão de festas. Durante décadas, foi um palco de cultura e celebração, mas agora, jaz em ruínas, um cenário deprimente e indigno, um testemunho do descaso dos autarcas e da impotência das gerações que nele viveram momentos inesquecíveis.</p>
<p>A sua fachada, envelhecida, permanece ali &#8211; um espelho do tempo, um lembrete diário para os vareiros de que as coisas preciosas precisam de ser acarinhadas. Pois quando se negligencia o que nos une, resta apenas a saudade, e a saudade, por si só, nem sempre sustenta a memória de um povo.</p>
<p>Os vareiros e aqueles que visitam a cidade passam apressados entre o bulício do mercado, as escadas que conduzem à fé na igreja e o vaivém dos cafés. Poucos reparam que, bem diante dos seus olhos, esconde-se um baú de recordações, um relicário de vidas e histórias passadas.</p>
<p>No entanto, este Cine-Teatro foi, para os seus Vareiros um refúgio de magia.</p>
<p>Ali celebraram-se conquistas, bailaram-se amores, estrearam-se sonhos em palco e na tela. Foi casa de peças que evocavam histórias vareiras, de filmes que traziam mundos distantes, de risos e emoções partilhadas. Era um santuário da alegria, um espaço onde as pressões do mundo exterior se dissolviam na escuridão aconchegante da sala de espetáculos.</p>
<p><strong>Ali, a tristeza era deixada à porta. Ali, encontrava-se um porto seguro.</strong></p>
<p>E assim, meu caro leitor, convido-o uma vez a que venha comigo, mas desta vez numa viagem pelo passado.</p>
<p>Veja comigo, sobre o olhar de quem vê além das ruínas, um edifício que ergue-se novamente, pulsante, renascido na lembrança daqueles que nele viveram um dia memorável.</p>
<p>Vamos…<br />
<a href="https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/12/Edgar-Branco.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-97617" src="https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/12/Edgar-Branco.jpg" alt="" width="246" height="246" srcset="https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/12/Edgar-Branco.jpg 1024w, https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/12/Edgar-Branco-300x300.jpg 300w, https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/12/Edgar-Branco-150x150.jpg 150w, https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/12/Edgar-Branco-768x768.jpg 768w" sizes="(max-width: 246px) 100vw, 246px" /></a></p>
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            	</item>
		<item>
		<title>Máscara Sem Elásticos (VII) &#8211; Por Edgar Branco</title>
		<link>https://www.ovarnews.pt/mascara-sem-elasticos-por-edgar-branco-2/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Edgar Branco]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Jun 2026 19:29:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Numa rua qualquer da cidade dos azulejos, caminha outra figura — um animal diferente, também ela solitária, também ela à procura de algo. A noite de folia já ia longa, e agora restava apenas o silêncio da ressaca emocional. Maria José. Sozinha, de passo firme, avançava por entre foliões mascarados, já dispersos e sem rumo. &#8230;</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.ovarnews.pt/mascara-sem-elasticos-por-edgar-branco-2/">Máscara Sem Elásticos (VII) &#8211; Por Edgar Branco</a> aparece primeiro em <a href="https://www.ovarnews.pt">OvarNews</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Numa rua qualquer da cidade dos azulejos, caminha outra figura — um animal diferente, também ela solitária, também ela à procura de algo. A noite de folia já ia longa, e agora restava apenas o silêncio da ressaca emocional.</p>
<p>Maria José.</p>
<p>Sozinha, de passo firme, avançava por entre foliões mascarados, já dispersos e sem rumo. Ia disfarçada de leopardo — fato justo, cauda pendurada, cortes estratégicos que lhe realçavam as curvas, e uma máscara negra que lhe cobria os olhos. Uma máscara para esconder segredos. E talvez mágoas.</p>
<p>— Esta noite&#8230; esta noite não me satisfez. Ainda não encontrei o que vim procurar. — pensava.</p>
<p>Na distância, ouve um som. Um choro abafado. De alguém que, perdido em si mesmo, já não controla o peso do que carrega. Maria José abranda. Avança devagar, silenciosa, como um felino entre os arbustos da savana. Observa.</p>
<p>Ali está ele. Sentado no passeio. Um cowboy ferido. Um homem em pedaços. Um rapaz bonito, com ar de quem tentou, falhou, e chorou por dentro antes de deixar cair as lágrimas cá fora.</p>
<p>— Quem será? Porque chora? — pensa ela. — Mas que belo rapaz&#8230; esse chapéu fica-lhe mesmo bem.</p>
<p>E então, algo muda nos olhos da leoparda, ela agora vira caçadora.</p>
<p>Como qualquer felino predador, aproxima-se devagar. Estuda a presa. Posiciona-se e aguarda o momento certo. E quando o vê vulnerável, frágil, pronto para ser conquistado… dá o mote, mas com doçura.</p>
<p>— Olá, cowboy… que se passa contigo? Como te chamas, querido?</p>
<p>Maria José, de quarenta e poucos anos, voz macia, tom seguro. Artur de vinte e poucos, rosto lavado em lágrimas, alma despida, os dois perdidos naquela rua, deserta, só restam eles os dois.</p>
<p>— Olá… desculpe. Está tudo bem. Perdi-me um pouco… mas já passa. — responde ele, visivelmente embaraçado.</p>
<p>— Então anda comigo. Não fiques assim. Queres tomar alguma coisa?</p>
<p>Ele hesita.</p>
<p>— Sim… sim, pode ser.</p>
<p>Ela sorri. Um sorriso experiente. De quem já viveu. De quem sabe o que está a fazer.</p>
<p>— És bonito, Artur.</p>
<p>Ele cora. Baixa os olhos. Pergunta, como quem testa o improvável:</p>
<p>— Acha que… não preciso de elásticos?</p>
<p>Ela ri.</p>
<p>— Elásticos? És um brincalhão. Um bonitão como tu? És uma verdadeira raposinha.</p>
<p>Os olhos dela estão cravados nele. Pupilas dilatadas. Atenta a cada gesto, a cada respiração. Artur sente-se observado, quase hipnotizado.</p>
<p>Ela mexe-se com elegância felina, envolvente. E agora… agora ele é a presa.</p>
<p>O caçador Artur, o chacal… virou caçado.</p>
<p>FIM</p>
<p><em><strong>Edgar Branco</strong></em></p>
<p>&nbsp;</p>
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            	</item>
		<item>
		<title>Máscara Sem Elásticos (VI) &#8211; Por Edgar Branco</title>
		<link>https://www.ovarnews.pt/mascara-sem-elasticos-vi-por-edgar-branco/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Edgar Branco]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 14:57:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Primeira Vista]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>E assim lá vai ele, o chacal. Atravessa ruas imensas, embebidas de alegria, onde a música vibra, os risos ecoam e a paixão se espalha em cada esquina. Mas este cowboy—este chacal mascarado—caminha por outro trilho: um deserto da mente, um labirinto de desajuste que o atormenta. Artur segue, perdido em pensamentos, tropeçando nas memórias &#8230;</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>E assim lá vai ele, o chacal.</p>
<p>Atravessa ruas imensas, embebidas de alegria, onde a música vibra, os risos ecoam e a paixão se espalha em cada esquina. Mas este cowboy—este chacal mascarado—caminha por outro trilho: um deserto da mente, um labirinto de desajuste que o atormenta.</p>
<p>Artur segue, perdido em pensamentos, tropeçando nas memórias que o consomem. Sempre sozinho.</p>
<p>Sempre rejeitado. Um rapaz sofrido, que carrega no rosto a sua sentença. Cada tentativa falhada de conquista acumula-se no peito como cicatrizes invisíveis, e a alegria dos outros torna-se o sal nas suas feridas.</p>
<p>Sempre assim, sempre isto! Tento ser simpático… nada. Tento ser alegre… nada. Tento ser mais frio, mais firme… nada. O destino atormenta-me. Eu só queria alguém. Só queria alguém que me quisesse também.</p>
<p>As ruas esvaziam-se pouco a pouco. A folia continua noutros cantos, mas ali, onde Artur caminha, reina o silêncio. Acima, a lua cheia paira, solene, como se o observasse. E ele, impotente, devolve-lhe o olhar com um suspiro de dor.</p>
<p>E o lamento rompe-se num uivo.</p>
<p>— Que ódio, que tristeza… por que tem de ser tudo assim?</p>
<p>E então, o choro.</p>
<p>Não um choro bonito ou discreto. Mas o choro descontrolado de quem já não se consegue esconder nem de si próprio.</p>
<p>Na rua deserta, ninguém o escuta. Só ele. Só Artur. Preso num vazio de iniciativas, de esperanças frustradas, de ecos interiores. A única companhia fiel que lhe resta é o seu próprio lamento.</p>
<p>Ali, no meio da festa da cidade, há um único folião verdadeiramente mascarado. Finge ser cowboy.</p>
<p>Finge ser alguém que finge ser outro. Mas a verdade é simples e crua: ele não é um, nem o outro.</p>
<p>É apenas um chacal… que se lamenta.</p>
<p>Num momento de introspeção, o seu olhar encontra o reflexo de uma montra. Um vidro gasto, sujo, esquecido como ele.</p>
<p>Artur olha-se, longamente e murmura com uma ruga amarga nos lábios:</p>
<p>— Só me faltam mesmo os elásticos… olha para mim.</p>
<p>(Continua)</p>
<p>Edgar Branco (Ovar)</p>
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            	</item>
		<item>
		<title>Máscara Sem Elásticos (IV) &#8211; Por Edgar Branco</title>
		<link>https://www.ovarnews.pt/mascara-sem-elasticos-iv-por-edgar-branco/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Edgar Branco]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 May 2026 14:47:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Primeira Vista]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O grandioso Café Progresso data de 17 de dezembro de 1949. À época, causou admiração pelo requinte com que foi concebido. Foi iniciativa de um nobre vareiro que, com coragem, decidiu oferecer à cidade um espaço como nunca houvera — com uma moderna máquina de café e um salão de chá no primeiro andar, onde &#8230;</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O grandioso Café Progresso data de 17 de dezembro de 1949. À época, causou admiração pelo requinte com que foi concebido. Foi iniciativa de um nobre vareiro que, com coragem, decidiu oferecer à cidade um espaço como nunca houvera — com uma moderna máquina de café e um salão de chá no primeiro andar, onde os jovens dançavam ao som de boa música, vivendo tardes de alegria e distração.<br />
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</script><br />
Na noite de Carnaval, o Progresso abre-se mais uma vez em esplendor. E é lá que reencontramos o nosso canídeo errante, Artur, à caça da flecha de Cupido.</p>
<p>Chega com o orgulho ferido, mas com o apetite renovado pela companhia que ainda procura.<br />
Caminha sozinho entre a multidão — o chacal, aquele que, espiritualmente, se alimenta dos restos deixados pelos grandes predadores. Um ser que espreita oportunidades na sombra da festa. E desta vez, traz uma nova estratégia.</p>
<p>No Progresso, avista um grupo. Mascarados. Animalescos. Os rapazes do grupo são leões:<br />
imponentes, confiantes, magnéticos. E com eles, gazelas — jovens graciosas, sensíveis, belas, mas prontas para serem devoradas pela exuberância dos que as acompanham. Artur sabe: aqui, não tem como ombrear. Não nesta savana.</p>
<p>Cada leão escolhe a sua gazela. Todas estão pareadas. Todas… menos uma.</p>
<p>Há movimento. Beijos, abraços, poses. E uma gazela permanece sozinha. Delicada. Meiga no seu comportamento. Deslumbrante na sua fantasia. Está solta.</p>
<p>Artur vê a oportunidade. Aproxima-se discretamente, esquivando-se ao radar do grupo.<br />
— <strong>Olá, tudo bem? A tua máscara… foste tu que a fizeste?</strong><br />
Ela sorri, mas responde com um certo desdém:<br />
— <strong>Eu? Achas mesmo? Isto parece-te amador? A gazela não aprecia a sugestão. Estava orgulhosa</strong><br />
<strong>do que vestia.</strong><br />
<strong>— Não, não me parece amador — recua Artur, calculando. — Parece feito à medida. Como se</strong><br />
<strong>tivesse sido criada só para ti. Nada genérico.</strong> <strong>Mas… ainda assim, com um defeito.</strong><br />
Ela franze o sobrolho. Procurando onde estaria o tal defeito.<br />
— <strong>Defeito? Como assim?</strong><br />
Artur conhece o jogo. Para predadores como os leões ao redor, o estatuto é dominante. Para<br />
sobreviver, o chacal precisa desequilibrar.<br />
— <strong>Sim. Nada é perfeito — diz ele, encenando naturalidade. — Mas este defeito… é grave.</strong><br />
<strong>— Estou a começar a não achar piada…</strong><br />
<strong>— O defeito — conclui Artur, com um sorriso enviesado — é não condizer comigo. Já viste se</strong><br />
<strong>estivéssemos vestidos a combinar?</strong><br />
A jovem cora ligeiramente. Está a ceder. A abordagem, apesar de estranha, resulta.<br />
Conversam, ainda que o ambiente seja ruidoso. Entre batidas e vozes, o cortejo continua. Artur<br />
sente-se a navegar bem… até que surge um intruso.</p>
<p>—<strong> Oh, jovem! — ouve-se, de longe.</strong><br />
<strong>— Sim? — responde Artur, já a sentir a tensão a subir. A figura que se aproxima é maior, mais</strong><br />
<strong>agressiva. Um animal dominante.</strong><br />
<strong>— Essa rapariga com quem estás aí a bater o couro… — diz, já em frente a ambos, em tom</strong><br />
<strong>acusatório.</strong><br />
<strong>— Sim…?</strong><br />
<strong>— Sim o caraças, pá! Põe-te a andar. Ela é prima da minha namorada e não está aqui para essas</strong><br />
<strong>coisas. Agora desampara a loja. E já agora, põe os elásticos que te faltam nessa máscara e</strong><br />
<strong>desaparece!</strong><br />
O silêncio agora os rodeia.<br />
Artur, franzino, de estatura média, sente-se encurralado. Sem força para reagir. A rapariga não sabe o que fazer. O grupo de leões observa. Os olhos estão sobre ele.</p>
<p>E Artur sabe.<br />
Mais uma vez, sem defesa, sem saída, sem hipótese.<br />
— <strong>Mas ela… podia ser ela, não podia? A gazela que me aquieta o peito. Que me dá sentido.</strong><br />
<strong>Artur foge para dentro dos pensamentos, mas a realidade empurra-o para fora. A jogada está</strong><br />
<strong>perdida.</strong><br />
Escolhe recuar. Engolir o orgulho. Guardar forças para outra noite.</p>
<p>— <strong>Isto não vai acabar bem… — pensa, enquanto se afasta</strong>.<br />
Mais uma tentativa falhada.<br />
Mais uma ferida na pele do chacal. <em>(Continua)</em></p>
<p><strong><em>Edgar Branco</em></strong></p>
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            	</item>
		<item>
		<title>Máscara Sem Elásticos (III) &#8211; Por Edgar Branco</title>
		<link>https://www.ovarnews.pt/mascara-sem-elasticos-por-edgar-branco/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Edgar Branco]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Apr 2026 15:11:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Artur sai sempre sozinho nestas noites. Como sempre, parte com a intenção de se juntar a outros grupos, de criar laços, de encontrar amizades. Mas a verdade é que nunca teve um plano — nem amigos. Sai como quem sonha acordado, na esperança de que o Carnaval lhe traga aquilo que a vida nunca deu. &#8230;</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Artur sai sempre sozinho nestas noites. Como sempre, parte com a intenção de se juntar a outros<br />
grupos, de criar laços, de encontrar amizades. Mas a verdade é que nunca teve um plano — nem<br />
amigos. Sai como quem sonha acordado, na esperança de que o Carnaval lhe traga aquilo que a<br />
vida nunca deu.</p>
<p>As ruas estão iluminadas, fervilham de som e cor. Música por todo o lado — há ritmos para todos os<br />
gostos, mas reina o calor latino: pagode, forró, samba, farra. É Carnaval. Tudo vibra.<br />
A sua primeira paragem é o PH, restaurante e café situado perto do centro de Ovar, mesmo junto ao<br />
tribunal. Nessa noite, o espaço transforma-se — as mesas afastam-se, a música aumenta, e o PH<br />
torna-se salão, pista, abrigo para os foliões em festa.</p>
<p>Artur chega. O ruído é intenso. O ambiente pulsa. Já há comentários soltos, vozes sobrepostas,<br />
gente mascarada de tudo. Dirige-se ao balcão e pede uma cerveja. Não gosta particularmente de<br />
álcool, mas como bom chacal — palavra que tantas vezes o persegue na sombra — precisa de algo<br />
para segurar na mão, algo que o integre na fauna que o rodeia.<br />
Olha em volta. Reconhece o terreno. Está em modo alerta: os sentidos aguçados, o olhar afiado.<br />
Procura.</p>
<p>Artur tem um objetivo claro, o de encontrar o amor.<br />
E então&#8230; ela aparece.</p>
<p>Vinda do nada. Passa pela entrada do PH como se atravessasse uma cortina de luz. As vitrinas<br />
escancaradas deixam que as luzes da rua incidam nela como num palco improvisado.<br />
Ela está vestida de coelhinha. Meias justas que lhe definem as pernas. Um corpo que caminha com<br />
leveza. Cabelos negros pelos ombros. O rosto, de maquilhagem discreta, revela uns lábios<br />
encarnados que sobressaem sob dois olhos verdes que, para Artur, brilham como duas esmeraldas<br />
líquidas.<br />
Mas há mais. Há uma sombra ali, uma leve tristeza escondida atrás da máscara.<br />
Ele precisa de saber quem ela é.<br />
A caça começa.</p>
<p>Artur encurva-se, olhos cerrados, bloqueia o resto do mundo. A mira está presa. Agora é caçador —<br />
o chacal disfarçado de cowboy. Aproxima-se.<br />
— Olá — diz ele, já próximo da rapariga.<br />
— Olá&#8230; desculpa, conhecemo-nos?<br />
— Já. Mas tu ainda não sabes. — sorri. — Sou o cowboy, pistoleiro. Fui chamado para te proteger<br />
esta noite. Artur Tenta brincar, criar empatia e quebrar qualquer barreira.<br />
Ela sorri. A isca está lançada. Pode resultar.<br />
— Olá, cowboy. Como te chamas?<br />
— Artur. E tu?<br />
— Bernarda.<br />
— Belíssimo nome — responde ele. Horrível nome, pensa.<br />
Mas a presa tem de se sentir especial. É assim que funciona.<br />
A conversa desenrola-se. Ele oferece-lhe uma bebida. Pergunta se está sozinha. Tudo com leveza<br />
estudada.</p>
<p>— Perdi-me do meu grupo. Não sou daqui, está difícil encontrá-las&#8230;<br />
Perfeito, pensa Artur. Uma presa solitária. Mais fácil de conquistar.<br />
Continua a conversa. Faz Bernarda rir. Relaxar. Sente-se a vencer terreno.<br />
— Não te preocupes. Estás comigo. Vamos esperar por elas aqui. Não te deixo sozinha. Sou o teu<br />
cowboy esta noite.</p>
<p>Juntos dançam, riem, fingem que o mundo é só Carnaval. Para Artur, está tudo a correr bem. O plano<br />
resulta e ele sente-se perto de algo bonito.<br />
Mas eis que chegam as amigas.<br />
Em festa, em abraços e ruído, reencontram Bernarda. Quase nem reparam nele. Artur sabe: precisa<br />
de ser aceite pelo grupo. Sem isso, não há conquista, é assim que funciona a coelhada.<br />
Força um cumprimento e diz — Olá, sou o cowboy protetor da Bernarda. Tudo bem?</p>
<p>A confiança trai-o. A frase soa forçada.<br />
O grupo olha. Ri-se. Bernarda também, num misto de embaraço e cumplicidade.<br />
— Cowboy? — diz uma das amigas, já com os olhos brilhantes de álcool. — Pareces mais é um<br />
cowboi&#8230; Com essa cara, só te faltam os elásticos para completar a máscara!<br />
O golpe é seco. Cru.<br />
Artur fica mudo. Sente o chão fugir. O espelho mais cruel está agora diante dele — devolve-lhe um<br />
rosto que o mundo não quer ver. O chacal sabe: perdeu. A presa escapou. O grupo tirou-lha das<br />
mãos.</p>
<p>— Feio. Será esta a razão de nunca encontrar o amor? Será mais uma entre tantas? Serei mesmo<br />
uma dessas exceções&#8230; um dos que não merecem?<br />
Permanece no seu canto, sozinho e a vê-la partir. Linda, risonha e de volta à savana onde ele nunca<br />
pertenceu. Um território onde só outros caçadores triunfam.<br />
Mas não desiste.<br />
É um chacal.<br />
E a noite ainda é jovem.<br />
A caça continua.</p>
<p style="padding-left: 40px;"><strong><em>(Continua)</em></strong></p>
<p><a href="https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/12/Edgar.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-97618" src="https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/12/Edgar.jpg" alt="" width="200" height="200" srcset="https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/12/Edgar.jpg 200w, https://www.ovarnews.pt/wp-content/uploads/2025/12/Edgar-150x150.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Edgar Branco</strong></p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.ovarnews.pt/mascara-sem-elasticos-por-edgar-branco/">Máscara Sem Elásticos (III) &#8211; Por Edgar Branco</a> aparece primeiro em <a href="https://www.ovarnews.pt">OvarNews</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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            	</item>
		<item>
		<title>Máscara sem Elásticos (II) &#8211; Por Edgar Branco</title>
		<link>https://www.ovarnews.pt/mascara-sem-elastcos-ii-por-edgar-branco/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Edgar Branco]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Apr 2026 18:43:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No seu quarto, na humildade da sua casa, Artur prepara-se com o cuidado de um ritual íntimo. Escolheu a indumentária perfeita para este ano: vai de cowboy ao Carnaval. Calças bem alinhadas, botas trabalhadas — semelhantes às dos verdadeiros — camisa de flanela e um colete a compor o conjunto. Agora, já de chapéu na &#8230;</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>No seu quarto, na humildade da sua casa, Artur prepara-se com o cuidado de um ritual íntimo.<br />
Escolheu a indumentária perfeita para este ano: vai de cowboy ao Carnaval. Calças bem alinhadas, botas trabalhadas — semelhantes às dos verdadeiros — camisa de flanela e um colete a compor o conjunto.</p>
<p>Agora, já de chapéu na cabeça, dá os últimos retoques.</p>
<p><strong>Os Vareiros</strong></p>
<p>Frente ao espelho, observa-se. Está pronto. O corpo aprumado, a roupa composta… mas o rosto continua a parecer-lhe escondido.</p>
<p>— Estás impecável, Artur — diz para si, em voz baixa, quase como quem precisa ouvir a confirmação vinda de outro.</p>
<p>— Este ano vais divertir-te ainda mais. Finalmente chegou… a Noite Mágica.</p>
<p>Artur adora esta noite. É, sem dúvida, o seu momento favorito do ano. O Carnaval oferece-lhe a liberdade rara de poder ser outro — ou de ser, por fim, ele mesmo, sem medo.</p>
<p>Por breves horas, o mundo permite-lhe existir fora das regras. E é isso que mais deseja.<br />
Lá fora, o ruído cresce. As vozes, a música, os passos — tudo anuncia o início da folia. Artur escuta e sorri. A festa chama por ele.</p>
<p>Mas antes de sair, olha-se uma última vez ao espelho. O reflexo devolve-lhe um homem<br />
mascarado… por dentro e por fora.</p>
<p>— Estás pronto. — sussurra.<br />
— Respira fundo — repte.</p>
<p>A noite vai começar.</p>
<p><strong>Edgar Branco</strong></p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.ovarnews.pt/mascara-sem-elastcos-ii-por-edgar-branco/">Máscara sem Elásticos (II) &#8211; Por Edgar Branco</a> aparece primeiro em <a href="https://www.ovarnews.pt">OvarNews</a>.</p>
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            	</item>
		<item>
		<title>Máscara Sem Elásticos (I) &#8211; Por Edgar Branco</title>
		<link>https://www.ovarnews.pt/mascara-sem-elasticos-i-por-edgar-branco/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Edgar Branco]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 27 Mar 2026 14:36:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; A noite já vai longa. Escura, fria, seca — uma daquelas noites de inverno que carregam um brilho especial no ar. É a Noite Mágica, a mais emblemática celebração do Carnaval de Ovar. Esta é uma noite única, um ritual noturno de participação popular, considerada por muitos o coração pulsante do Carnaval vareiro. Realizada &#8230;</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.ovarnews.pt/mascara-sem-elasticos-i-por-edgar-branco/">Máscara Sem Elásticos (I) &#8211; Por Edgar Branco</a> aparece primeiro em <a href="https://www.ovarnews.pt">OvarNews</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>A noite já vai longa. Escura, fria, seca — uma daquelas noites de inverno que carregam um brilho especial no ar. É a Noite Mágica, a mais emblemática celebração do Carnaval de Ovar.</p>
<p>Esta é uma noite única, um ritual noturno de participação popular, considerada por muitos o coração pulsante do Carnaval vareiro. Realizada no centro da cidade, entre o corso de domingo e o de terça-feira, atrai, ano após ano, milhares de visitantes, mais de cerca de cem mil foliões.</p>
<p>Gente de todas as idades, um verdadeiro rio humano a desaguar em festa — disfarçando as rotinas do dia-a-dia com adereços no corpo e máscaras no rosto. Nessa noite, todos podem ser o que quiserem. Ou o que nunca ousaram ser.</p>
<p>A Noite Mágica vive de encontros e encontros. Os mascarados espalham-se por cada recanto do centro histórico. Muitos escolhem as suas fantasias de forma leve e improvisada, mas há também quem planeie ao detalhe — meses antes — o que vestir. Diversos grupos organizam-se em temas e vestem-se a preceito. Há até escolas de samba e grupos carnavalescos que criam disfarces apenas para esta noite, diferentes dos que usam nos desfiles oficiais.</p>
<p>As ruas estão fechadas ao trânsito. Só há espaço para a multidão — uma cidade entregue às pessoas, às gargalhadas, ao improviso.</p>
<p>Os papéis invertem-se: padeiros viram polícias, bombeiros viram trolhas, médicos vestem-se de padres, vilões tornam-se heróis, homens mascaram-se de mulheres, e tudo se desfaz e refaz ao sabor do riso. Ovar inteira parece viver uma mentira boa — feita de brilho, disfarce, alegria contagiante, barracas de comida, copos na mão e ânimo nos olhos.</p>
<p>Mas nem todos vivem a noite assim.</p>
<p>Numa das muitas ruas por onde passa o êxtase da multidão, existe uma viela quase vazia. Um corredor de silêncio em pleno furacão de euforia. E ali, nesse contraste absurdo, caminha um homem.</p>
<p>Sozinho, a chorar.</p>
<p>Perdido entre a festa e o vazio, vai em frente como quem não sabe para onde ir.</p>
<p>– Que ódio, que tristeza… porquê? Porquê tem de ser sempre assim? – murmura, entte soluços,<br />
como se cada palavra saísse carregada de peso antigo.</p>
<p>Edgar Branco</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.ovarnews.pt/mascara-sem-elasticos-i-por-edgar-branco/">Máscara Sem Elásticos (I) &#8211; Por Edgar Branco</a> aparece primeiro em <a href="https://www.ovarnews.pt">OvarNews</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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            	</item>
		<item>
		<title>Ovos Moles de Ovar (IV) &#8211; Por Edgar Branco</title>
		<link>https://www.ovarnews.pt/ovos-moles-de-ovar-iv-por-edgarbranco/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Edgar Branco]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 28 Feb 2026 12:05:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Primeira Vista]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>E eis que chega o momento tão aguardado. O Pote Dourado dos Provares, o certame mais ilustre da região, reunia os maiores talentos na arte da confeitaria e gastronomia tradicional. Apenas os mais exímios criadores de iguarias eram aceites nesta competição de prestígio, onde o sabor, a apresentação e a história de cada prato seriam &#8230;</p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.ovarnews.pt/ovos-moles-de-ovar-iv-por-edgarbranco/">Ovos Moles de Ovar (IV) &#8211; Por Edgar Branco</a> aparece primeiro em <a href="https://www.ovarnews.pt">OvarNews</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>E eis que chega o momento tão aguardado.<br />
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O Pote Dourado dos Provares, o certame mais ilustre da região, reunia os maiores talentos na arte<br />
da confeitaria e gastronomia tradicional. Apenas os mais exímios criadores de iguarias eram aceites<br />
nesta competição de prestígio, onde o sabor, a apresentação e a história de cada prato seriam<br />
meticulosamente avaliados pelos juízes mais exigentes do reino.<br />
Seria aqui, sob o olhar atento da nobreza e do povo, que Guida mostraria ao mundo a glória do seu<br />
esforço.</p>
<p><em><strong>Os Vareiros</strong></em></p>
<p>Guida apresentou-se imaculada, resplandecente como a própria manhã.<br />
O seu vestido branco, de tecido fino e delicado, abria-se em amplas saias que se moviam com<br />
leveza, como se dançassem ao ritmo da sua própria confiança. Um pequeno laço verde-claro<br />
adornava-lhe o pescoço, destacando a cor vibrante dos seus olhos — um detalhe subtil, mas<br />
intencional, pois tudo nela estava milimetricamente pensado para aquele dia.<br />
A jovem atravessou o auditório com a postura de uma verdadeira dama, mas com o coração a<br />
galopar dentro do peito. Não apenas os olhos do júri estavam sobre ela, mas os olhos de toda a<br />
cidade.<br />
Lá, entre os espectadores, encontrava-se o seu pai, sentado na bancada, observando-a com um<br />
orgulho discreto, mas sincero.</p>
<p>As bancadas estavam montadas, os pratos expostos como autênticas obras de arte. Um a um, os<br />
concorrentes preparavam-se para apresentar as suas criações diante dos três juízes, que seriam os<br />
detentores do veredicto final.<br />
Cada prato seria avaliado pela sua apresentação, pela sua história e pelo seu paladar.<br />
Guida aguardava a sua vez. Quando, finalmente, a jovem foi chamada, dirigiu-se com passos firmes<br />
à frente da mesa do júri. O salão caiu em silêncio expectante.<br />
Um dos juízes, um cavalheiro de cabelos grisalhos e olhar penetrante, inclinou-se ligeiramente para a<br />
frente e falou:</p>
<p><strong>— Menina, somos os três juízes deste certame e queremos ouvir de vós: que iguaria nos</strong><br />
<strong>apresentais?</strong> Guida endireitou os ombros, inspirou fundo e, com um tom seguro e envolvente,<br />
começou o seu discurso.<br />
<strong>— Bom dia, ilustres senhores, e bom dia a todos os presentes. — Fez uma pausa breve, deixando</strong><br />
<strong>que o seu olhar percorresse o público. — O que hoje vos trago não é apenas um doce, mas sim uma</strong><br />
<strong>homenagem.</strong><br />
O júri manteve-se atento, impassível, mas a sala já prendia a respiração.<br />
<strong>— Aqui, diante de vós, apresento um doce especial, nascido do espírito das minhas gentes e</strong><br />
<strong>moldado pelo próprio elementos dos mares.</strong><br />
Com um gesto elegante, apontou para os pequenos formatos delicados que repousavam sobre a<br />
bandeja — peixes, búzios, conchas e outras figuras marítimas, cada uma moldada com esmero e<br />
preenchida com um creme dourado.</p>
<p><strong>— O mar é mais do que paisagem para o nosso povo — é vida, é história, é luta. Cada pedaço deste</strong><br />
<strong>doce simboliza não só a riqueza das águas que nos sustentam, mas também a força e a resiliência</strong><br />
<strong>daqueles que delas dependem.</strong><br />
O júri trocou olhares discretos. Estavam interessados.<br />
<strong>— Ora, se o mar pode ser cruel, pode também ser doce. E é isso que vos trago: um pedaço do</strong><br />
<strong>oceano, transfigurado em delicadeza, um sabor que aquece a alma em gesto de ternura.</strong></p>
<p><em><strong>Os Vareiros</strong></em></p>
<p>O murmúrio discreto que se espalhou pela sala era um bom sinal. Guida conseguira capturar a<br />
atenção de todos.<br />
<strong>— Interessante… muito interessante… — murmurou um dos juízes.</strong><br />
Outro, de olhar mais céptico, ergueu ligeiramente a sobrancelha e perguntou:<br />
<strong>— E quanto ao sabor? Podemos ser servidos?</strong><br />
<strong>— Com todo o gosto, senhores.</strong><br />
Com mãos firmes, mas graciosas, Guida serviu delicadamente cada juiz, observando-os com uma<br />
calma forçada enquanto provavam o seu mais grandioso trabalho.<br />
Houve um instante de silêncio absoluto. Um breve momento onde o tempo pareceu suspender-se.<br />
Então, os juízes entreolharam-se.</p>
<p>Um deles limpou os lábios com um lenço bordado, cruzou os braços e declarou:<br />
<strong>— Curioso… muito curioso.</strong><br />
Outro, mais enigmático, pousou o doce sobre o prato e inclinou-se ligeiramente para a frente.<br />
<strong>— Menina Margarida, podeis esclarecer-nos como foi confeccionada esta iguaria?</strong><br />
Guida, que já esperava a pergunta, manteve a voz firme:<br />
<strong>— Estes doces são preparados com gema de ovo e açúcar, meticulosamente trabalhados até</strong><br />
<strong>atingirem a textura perfeita. São moldados em hóstia, não apenas como um meio de os conter, mas</strong><br />
<strong>também como uma ligação sagrada ao divino. Cada peça é uma oferenda à memória, uma</strong><br />
<strong>recordação dos tempos antigos, uma bênção para quem a saboreia.</strong><br />
O mais severo dos juízes, que até então se mantivera impassível, pousou os cotovelos na mesa,<br />
entrelaçou os dedos e, finalmente, esboçou um leve sorriso.</p>
<p><strong>— Um doce de devoção e história… uma fusão entre fé e tradição…</strong><br />
Outro completou, com um brilho de fascínio nos olhos:<br />
<strong>— Uma peça de rica doçura, mas também uma criação abençoada.</strong><br />
<strong>O impacto das palavras era claro. O murmúrio entre os espectadores cresceu, e até o próprio duque</strong><br />
<strong>de Ovar, na bancada, endireitou a postura, percebendo que a sua filha conseguira algo</strong><br />
<strong>extraordinário.</strong><br />
Guida sentiu o coração disparar no peito.<br />
Seria suficiente? Teria conquistado o júri?<br />
Agora, restava apenas aguardar a pontuação. A tensão no ar era palpável. Todos prendiam a<br />
respiração.</p>
<p>O destino do seu nome e da sua criação estava prestes a ser decidido. (continua)</p>
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<p><strong>Edgar Branco</strong></p>
<p>O conteúdo <a href="https://www.ovarnews.pt/ovos-moles-de-ovar-iv-por-edgarbranco/">Ovos Moles de Ovar (IV) &#8211; Por Edgar Branco</a> aparece primeiro em <a href="https://www.ovarnews.pt">OvarNews</a>.</p>
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