Máscara Sem Elásticos (VII) – Por Edgar Branco

Numa rua qualquer da cidade dos azulejos, caminha outra figura — um animal diferente, também ela solitária, também ela à procura de algo. A noite de folia já ia longa, e agora restava apenas o silêncio da ressaca emocional.
Maria José.
Sozinha, de passo firme, avançava por entre foliões mascarados, já dispersos e sem rumo. Ia disfarçada de leopardo — fato justo, cauda pendurada, cortes estratégicos que lhe realçavam as curvas, e uma máscara negra que lhe cobria os olhos. Uma máscara para esconder segredos. E talvez mágoas.
— Esta noite… esta noite não me satisfez. Ainda não encontrei o que vim procurar. — pensava.
Na distância, ouve um som. Um choro abafado. De alguém que, perdido em si mesmo, já não controla o peso do que carrega. Maria José abranda. Avança devagar, silenciosa, como um felino entre os arbustos da savana. Observa.
Ali está ele. Sentado no passeio. Um cowboy ferido. Um homem em pedaços. Um rapaz bonito, com ar de quem tentou, falhou, e chorou por dentro antes de deixar cair as lágrimas cá fora.
— Quem será? Porque chora? — pensa ela. — Mas que belo rapaz… esse chapéu fica-lhe mesmo bem.
E então, algo muda nos olhos da leoparda, ela agora vira caçadora.
Como qualquer felino predador, aproxima-se devagar. Estuda a presa. Posiciona-se e aguarda o momento certo. E quando o vê vulnerável, frágil, pronto para ser conquistado… dá o mote, mas com doçura.
— Olá, cowboy… que se passa contigo? Como te chamas, querido?
Maria José, de quarenta e poucos anos, voz macia, tom seguro. Artur de vinte e poucos, rosto lavado em lágrimas, alma despida, os dois perdidos naquela rua, deserta, só restam eles os dois.
— Olá… desculpe. Está tudo bem. Perdi-me um pouco… mas já passa. — responde ele, visivelmente embaraçado.
— Então anda comigo. Não fiques assim. Queres tomar alguma coisa?
Ele hesita.
— Sim… sim, pode ser.
Ela sorri. Um sorriso experiente. De quem já viveu. De quem sabe o que está a fazer.
— És bonito, Artur.
Ele cora. Baixa os olhos. Pergunta, como quem testa o improvável:
— Acha que… não preciso de elásticos?
Ela ri.
— Elásticos? És um brincalhão. Um bonitão como tu? És uma verdadeira raposinha.
Os olhos dela estão cravados nele. Pupilas dilatadas. Atenta a cada gesto, a cada respiração. Artur sente-se observado, quase hipnotizado.
Ela mexe-se com elegância felina, envolvente. E agora… agora ele é a presa.
O caçador Artur, o chacal… virou caçado.
FIM
Edgar Branco




