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“É a arte de fruir do tempo que está em crise” – Joaquim Pavão

Guitarrista e cineasta, Joaquim Pavão esteve na noite da última sexta-feira, no Cinema VIDA, em Ovar, a apresentar o Cine Concerto “Dentre”, um projecto inovador que se vai construindo nas suas apresentações. Acompanhado pelo músico Xavier Marques e a atriz Isabel Fernandes Pinto, o realizador também entra em cena para dialogar sobre um registo cinematográfico onde a violência está na desconstrução ética da mentira para com esta estabelecer as bases de um sistema opressor. O OvarNews falou com Joaquim Pavão antes do início da sessão.

“Dentre” é um projecto inovador, ambicioso, mas também encerra algum risco e coragem?
Sim, mas mais do que tudo isso, é uma doença. Não consigo conceber a minha vida sem fazer o que faço. É a partir desta necessidade primária, portanto, que encontramos sempre fontes de financiamento, que pensamos os objectos para os conseguir fazer. Mas atenção, o que eu acho que está em crise não é a arte de fazer é antes a arte de fruir do tempo. Essa é a grande dificuldade dos tempos que estão aí. O que fazer ao meu tempo? A arte de contemplar, de usufruir ou discutir. Hoje todos queremos falar mas há pouca gente para ouvir.

Neste projecto, junta duas formas de amor, o cinema e a música.
A verdade é que elas não são diferentes. A linguagem da arte, a música, a dança, o cinema, todas as expressões são uma linguagem, uma forma de falar. Elas obedecem aos mesmos pressupostos, não há uma grande diferença entre escrever música e realizar um filme. A diferença fica na parte técnica, mas tudo o que é a comunicação do objecto obedece a parâmetros que vamos encontrar em todas as formas artísticas.

Que violência é esta que o filme aborda?
O filme aborda a violência mas não a violência física, antes as pequenas violências em que não pensamos. Aquela que está em voga, a que ensina a viver, a ser feliz, os mentores, o ‘couching’, quando dizem coisas que muitas vezes são certas, mas estão ao mesmo tempo a dizer coisas que são falsas. E as pessoas assumem como se fosse um facto. Estamos a desconstruir essa mentira. Alguém que tem uma cozinha nova, por exemplo, mas tem uma falha e o impacto dessa coisa material vai envelhecer. As pessoas que têm na sua sua forma de ser uma máscara para se poderem sentir um pouco melhor. Até que ponto é que isso é viver?

Na verdade, este é um projecto está inacabado?
Em cada versão do filme há mudanças, cenas novas e personagens novos. A ideia passa por ouvir o público e por sentir de que forma podemos comunicar cada vez melhor. Ao testar em sala temos logo uma reacção crítica, um conjunto de filtros e, no final, de 2024 teremos um filme que é a súmula, que é a soma de tudo o que fizemos. Das melhores apresentações sairá o filme “Dentre”.

O que é que ainda espera que pode acontecer?

Aquilo que eu não gosto é da apatia. Eu gosto muito que as pessoas não gostem e fiquem zangadas e defendam e sejam muito críticas. Gosto de pessoas com vontade, de pessoas com liberdade. Até gostava que houvesse mais pessoas que não gostassem e dissessem mal. É da discussão que podemos ser melhores. O confronto é uma forma de felicidade. Acredito nisto, porque a liberdade e o poder usufruir da liberdade de expressão e vivê-la é felicidade.

Tudo o que faz ainda mais sentido hoje em dia?
Sim, sem querer já temos assuntos tabu e que não podemos discutir, porque a sociedade está farta e não quer falar. Ainda há dias, o Parlamento Europeu esteve rodeado de arame farpado. Isto aconteceu no coração da Europa e não num país totalitário qualquer. São os direitos e as garantias que tornam a Europa mais central no mundo do privilégio e rico.

 

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