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Neste Carnaval, não vou brincar às ISTs – Por Dr. Eurico Silva

O Carnaval é, para muita gente, um tempo de festa, maior liberdade e menos “travões”. E é precisamente por isso que, como médico de família, tenho detetado mais infeções sexualmente transmissíveis (IST) associadas a períodos em que há mais impulsividade, menos controlo e, muitas vezes, sexo sem preservativo.

Há uma ideia errada que continua a circular: “IST é basicamente HIV”. Não é. O HIV é uma delas, importante, mas está longe de ser a única. E a realidade é mais dura do que parece: muitas IST podem não dar sintomas no início. A pessoa sente-se “normal”, segue a vida, mantém relações… e a transmissão continua.

Neste Carnaval, a mensagem é simples e direta: sexo seguro é sexo com preservativo.

IST: o problema real não é só “apanhar”

O risco não é apenas o desconforto do momento. É o que pode ficar para depois: complicações, infertilidade, dor crónica, infeções persistentes, e até problemas neurológicos e cardiovasculares em casos específicos.

E há ainda um fator que alimenta o problema: a ausência de sintomas nas fases iniciais. Muitas pessoas só descobrem quando surgem complicações — ou quando alguém com quem estiveram é diagnosticado.

Preservativo: o básico que muita gente ignora

preservativo masculino continua a ser a ferramenta mais eficaz e acessível para reduzir a transmissão de IST em:

  • sexo homem/mulher
  • sexo homem/homem

Não é “moralismo”. É prevenção. É saúde pública. E é responsabilidade individual.

Três IST frequentes e perigosas: clamídia, gonorreia e sífilis – mas há mais!!

1) Clamídia: silenciosa, mas com impacto a sério

A clamídia é perita em passar despercebida, sobretudo nas mulheres. E isso é perigoso porque pode evoluir sem alarme.

Perigos no momento

  • ardor ao urinar
  • corrimento anormal (vaginal ou uretral)
  • dor pélvica ou dor testicular
  • sangramento fora do período menstrual (em algumas situações)

Perigos no futuro

  • doença inflamatória pélvica
  • infertilidade
  • dor pélvica crónica
  • maior risco de complicações na gravidez, se não tratada

2) Gonorreia: pode escalar depressa e resistir a antibióticos

A gonorreia pode dar sintomas mais “barulhentos”, mas nem sempre. E há um problema adicional: há estirpes com resistência a antibióticos, o que torna o controlo mais difícil.

Perigos no momento

  • corrimento purulento (amarelado/esverdeado)
  • dor ou ardor ao urinar
  • dor testicular
  • dor pélvica
  • infeção retal (dor, secreção, sangue) ou faríngea (muitas vezes sem sintomas)

Perigos no futuro

  • infertilidade (homens e mulheres)
  • doença inflamatória pélvica
  • infeção disseminada (raro, mas grave), com dores articulares e lesões cutâneas

3) Sífilis: “imita” outras doenças e pode ser devastadora

A sífilis pode começar com um sinal discreto e evoluir, anos depois, para doença grave se não for diagnosticada e tratada.

Perigos no momento

  • ferida única, indolor, que pode desaparecer sozinha (e enganar)
  • erupção cutânea, muitas vezes nas palmas das mãos e plantas dos pés
  • gânglios aumentados
  • febre, mal-estar

Perigos no futuro

  • lesões neurológicas (problemas cognitivos, equilíbrio, visão/audição)
  • complicações cardiovasculares
  • transmissão na gravidez com consequências graves para o bebé

Sinais de alerta: não ignore

Procure avaliação se tiver:

  • corrimento anormal (uretral, vaginal, retal)
  • ardor ao urinar
  • dor testicular ou dor pélvica
  • feridas/úlceras nos genitais, boca ou região anal (mesmo indolores)
  • verrugas genitais
  • sangramento fora do habitual
  • erupções cutâneas sem explicação, sobretudo se surgirem após relações desprotegidas
  • dor/hemorragia retal após sexo anal

O que fazer — sem dramas e sem desculpas

  • Use preservativo do início ao fim, em todas as relações com parceiros ocasionais.
  • Se houve “deslize”: não espere pelos sintomas. Marque consulta e discuta rastreio.
  • Se houver diagnóstico: tratar e avisar parceiros é parte do tratamento. Não é opcional.

Carnaval é festa. IST não é brincadeira.

A liberdade do Carnaval não devia vir com uma fatura de saúde semanas ou meses depois. A prevenção aqui é simples, barata e eficaz.

Neste Carnaval, não brinque às ISTs. Brinque ao Carnaval — com preservativo.

 

 

 

 

 

Eurico Silva . USF João Semana de Ovar

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