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Opinião

Máscara Sem Elásticos (V) – Por Edgar Branco

Artur não desiste.
Ele é o chacal.




Um animal resistente, de fantasia no corpo. Finge ser cowboy no corpo de um homem, mas lá
dentro… lá dentro é outro bicho. Um ser solitário, moldado por fraquezas, falhas, recusas. Vítima de
predadores maiores — mais fortes, mais bonitos, mais ricos. Mas é na persistência que encontra a
sua força. Ele não desiste. Quer amar. E talvez, só talvez… ser amado também.

Segue sozinho pelas ruas de Ovar, a caminhar contra a multidão, em direção ao que acredita ser a
sua última esperança da noite. Vai sorrindo a estranhos, cumprimentando conhecidos. Cada passo é
um esforço. Cada encontro, uma pequena batalha. Entre empurrões, gargalhadas e brilhos, segue o
seu rumo: o parque de estacionamento junto à biblioteca, transformado em recinto de folia, com DJs,
bandas ao vivo e energia em ebulição. É ali que tudo pode mudar.

— Vai ser aqui, pensa.
A noite já vai longa. Muitos estão acompanhados, mas… haverá sempre alguém solitário. Alguém
que precise de companhia.
— E por que não eu?

O pavilhão está cheio. O ambiente, em alta. Quem tinha par já o encontrou. Os lobos já devoraram
as ovelhas. Os leões, as gazelas. Os crocodilos, o que aparecesse. E o chacal… como sempre,
chega sozinho. Invisível. Mas atento.

— Tem de ser aqui.
Artur conhece o seu papel. Sabe o que é. Um cowboy que esconde olhos de predador. Pupilas que
não dilatam. Um sorriso que não chega aos olhos. Um olhar sem alma — como tantos outros — mas
que ele tenta disfarçar. Porque as suas presas esperam um homem doce, não um animal ferido.
Na tenda apinhada, há brechas. Espaços por onde se pode infiltrar. E então… ali está ela. No meio
do grupo.

Marlene.
Uma cara conhecida. Uma antiga colega. Artur sabia que ela tinha sido deixada pelo namorado há
pouco tempo. Sabia detalhes. Observava-a há algum tempo. E agora, como um verdadeiro caçador
de oportunidade, aproxima-se.
— Olá, Marlene, está tudo bem? — pergunta, com um sorriso ensaiado e uma falsa confiança.
— Artur? Ah, olá! Sim… tudo bem. — A música é alta, mas os dois conseguem falar. Ela sorri com
simpatia, mas há dor nos olhos.
— Adoro o teu disfarce! — diz Artur, lançando o elogio.

— A sério? Obrigada… estive na dúvida, mas obrigada.
— Ainda bem, ainda por cima com o frio que está. Estás lindamente. Uma ave de rapina bonita…
adoro estas penas. — Toca-lhe levemente no braço. Ela encolhe-se ligeiramente, mas não se afasta.
— E tu? Cowboy? Pistoleiro também?
— Gostas?
— Fica-te bem.

A conversa flui. Ele mostra-se terno. Atento. Ela, fragilizada, sente-se ouvida. Ele é o ombro amigo. A
figura salvadora num momento de dor. Um camaleão emocional. Pronto para ser aquilo que ela
quiser.

Os olhos encontram-se. Marlene começa a baixar a guarda. A música suaviza, como que cúmplice. E
por um momento, ambos parecem estar sozinhos no meio da multidão.
Mas, como sempre na vida de Artur, há um “mas”.

Uma sombra aproxima-se. Um vulto inesperado. E a voz ecoa: — Marlene, meu amor… perdoa-me.
Eu sou um louco.
Artur congela. Reconhece a voz. O ex-namorado. O mesmo que a deixou.
— Meu amor… claro que te perdoo!
E num segundo, os dois beijam-se. Abraçam-se. E Artur? Artur assiste, mudo. O chacal sem caça. O
espectador da própria derrota.
À sua volta, os comentários surgem em sussurros que o dilaceram por dentro:
— Que cabeça para aquele…
— Que melão…
— Ficou com a vela na mão.
— E com aquela cara… já estragada. Só lhe faltam os elásticos.
Com o pouco orgulho que ainda carrega, vira costas. Rabo entre as pernas, sai pé ante pé, mais uma
vez, ferido.

Mais uma vez… sozinho.

 

 

 

 

Edgar Branco

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