Opinião

Minha rica floresta, belíssima Avenida da Praia, o que te fizeram? – Por Sandra Marques

Que desolação, que tristeza, que indescritível revolta. O que vai ser de ti, sujeita aos desígnios e à gula desta gente?
Alguém que me leia pode, por caridade, explicar-me a razão desta chacina brutal? Porque estão a fazer isto na Avenida da Praia, jóia da vila de Cortegaça, preciosa e bela SOBRETUDO pelo verde que a bordeja(va)? Quem assim decidiu? Com que intuito? Quererão, porventura, transformá-la na mesma lástima em que transformaram a avenida da Praia de Esmoriz, na mesma lástima em que estão hoje a transformar a Avenida Dr. Fernando Raimundo Rodrigues – ruas sem história e sem carisma, um pastiche de construções de todas as formas e feitios, ruas espoliadas do verde que dantes abundava e exploradas até ao tutano no seu património natural?
Porquê este corte maciço de árvores, porquê estes metros e metros sem fim de floresta arrasada? 
Há pouco mais de uma década, numa obra que reconfigurou os passeios da avenida para criar zonas pedonais e ciclovias, por se abater um único pinheiro – exemplar simbólico, ex-líbris daquela via de ligação ao mar -, houve grande revolta e comoção na comunidade.
Tanto que, em seu lugar, se plantou um outro pinheiro, com direito a placa de homenagem e tudo (ver foto). E hoje, que se abate em massa, descaracterizando grosseiramente a paisagem, ninguém diz nada? Ninguém se indigna com a ironia de existir ali um pinheiro plantado simbolicamente, num compromisso público firmado com o verde da avenida, e encontrar esse exemplar agora solitário, onde ainda ontem tudo era floresta e natureza exuberante? Só eu é que sinto este nojo indizível, esta vontade de chorar? Já não há escrúpulo em quem decide o destino desta terra?
No marco evocativo que dedicaram ao antigo Pinheiro (e também já deteriorado, como tudo o que requer alguma manutenção neste triste concelho de Ovar), por enquanto ainda se vai conseguindo ler:
“A árvore é a companhia mais próxima do homem na natureza.
Assim, o Pinheirinho foi o vaso comunicante, o marco, o luzeiro do caminhante entre a terra e o mar e a Sagrada e Eterna Memória Verde dos Cortegacenses…”.
Por este andar, tristemente, já não tardará o dia em que só mesmo a memória do verde nos há-de restar.
Sandra Marques
Cortegaça

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