Opinião

O “Arquivo Municipal de Ovar” – Filipe Marques Gonçalves

Os Arquivos Municipais, com os seus diversos patamares de documentação (corrente, intermédia e histórica)  são fontes indispensáveis de informação de carácter social, económico e cultural, estruturantes da identidade colectiva e insubstituíveis na salvaguarda do património histórico local.

Ao longo dos tempos, por força da sua actividade diária, os municípios – incluindo, obviamente, Ovar – foram produzindo um extenso volume de documentação que traduz, de forma extremamente rica em detalhe, a vivência das comunidades e das suas instituições, com um relevantíssimo interesse patrimonial, histórico e probatório.

Mas, para que não se perca irremediavelmente tal património documental, de valor incalculável, há que o gerir, e criar condições para esse intento, de forma profissional, especializada, integrada e normalizada, o que passa pela concepção de edifícios e equipamentos adequados, além da dotação dos serviços, com equipas técnicas habilitadas para o efeito, no sentido da conservação, sistematização e ágil recuperação dos conteúdos. Caso contrário, continuaremos a alimentar a imagem depreciativa de que tudo não passa de um monte de papéis velhos, que cheiram a mofo.

Aqui chegados, impõe-se a pergunta: quanto a este importante e insubstituível património documental, o  que se passa no Concelho de Ovar? Ainda que detectada e reportada tal lacuna, pelo menos, desde há décadas, já se conseguiram instalações adequadas e optimizadas para albergar tais acervos e já se integrou, pelo menos, um técnico-superior especializado em arquivística, na perspetiva da sua preservação, estudo, publicitação e célere recuperação de informação? Adianto a resposta: NÃO!

No edifício dos Paços do Concelho, a documentação importante vai-se amontoando e até deteriorando, sendo penosa a sua localização e pesquisa; o que resta do designado “Arquivo Histórico Municipal”, após o levantamento das tipologias documentais e da publicação de um quadro classificativo, mantém-se, desde os anos 80 do séc. XX, instalado provisoriamente num outro edifício (Biblioteca Municipal) a aguardar uma intervenção preservativa e o acondicionamento adequado, que adviriam da incorporação definitiva no (almejado) Arquivo Municipal, equipamento que continua no campo das meras intenções.

Ou seja, apesar de todos os esforços que tenham sido envidados, Ovar não soube aproveitar oportunidades de financiamento para este fim, o que decorreu, essencialmente, do facto de os decisores políticos não considerarem esta matéria relevante, assistindo-se à degradação, a cada ano que passa, deste património documental que nos identifica e que a todos nós diz respeito, e que se traduz num instrumento essencial para o funcionamento dos diferentes serviços camarários e que é indispensável para o estudo e para a  preservação da memória colectiva do nosso Concelho.

As Câmara Municipais – a de Ovar incluída, sem dúvida – como instituições próximas do cidadão, têm o dever de defender o património local, o que infere, no caso em apreço,  a implementação de um Arquivo Municipal digno do nome, que seja capaz de responder às necessidades, prestando mais e melhores serviços à população, trazendo o passado para o presente, na perspectiva de um futuro de que todos nos possamos orgulhar. Um povo sem memória e sem história, será um povo sem alma!

Filipe Marques Gonçalves

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