Opinião

O início do ano lectivo: A tempestade perfeita – Rui Edgar Costa

Vivemos tempos nunca experienciados pelas gerações atuais e enfrentamos um perigo ainda bastante desconhecido, quer quanto ao potencial risco que representa para a vida e saúde cada um de nós, quer ainda quanto à forma e facilidade com que se transmite de pessoa para pessoa.

Os próprios médicos, cientistas e organizações de saúde nacionais e internacionais manifestam muitas dúvidas e incertezas relativamente ao vírus da covid-19, hesitando frequentemente nas medidas a tomar e contradizendo-se repetidas vezes. Neste momento, ainda são muitas as dúvidas sobre as formas de transmissão, sobre o quão contagiosos podem ser os infetados assintomáticos e as sequelas que este vírus pode deixar na saúde das pessoas contaminadas. Ainda há pouco, a Organização Mundial de Saúde veio afirmar que, afinal, o vírus também se pode manter no ar, pelo que é de evitar a permanência em ambientes fechados, mais especialmente quando neles se concentram várias pessoas.

Está em risco o bem mais precioso de que dispomos: a vida humana. Pode estar em causa a nossa vida, a dos nossos pais, irmãos e mesmo filhos, visto que também se têm verificado casos graves de saúde em crianças e jovens direta ou indiretamente relacionados com este vírus.

Se para os adultos, normalmente mais conscientes dos perigos e com uma maior capacidade de autocontrolo, já é bastante difícil evitar comportamentos de risco, nomeadamente a proximidade física com as pessoas do seu contexto social e o hábito arraigado de tocar no rosto, para as crianças estas preocupações esquecem-se em poucos minutos e não há quase nenhuma barreira que impeça o contágio, caso o vírus entre pelos portões da escola. Na escola, as crianças correm, transpiram e respiram de forma ofegante, abraçam-se, riem e gritam, muitas vezes próximas da cara umas das outras, tossem e espirram sem grandes cuidados, tocam na boca, no nariz, nos olhos e também nas superfícies e objetos que se encontram em seu redor, de forma indiscriminada.

Haverá certamente medidas que se prevê implementar com vista a minimizar estes e outros riscos, mas serão sempre de eficácia limitada, tendo em conta que se trata de crianças e não se poderá impor aos professores e assistentes operacionais a responsabilidade de assegurar o cumprimento ininterrupto de todas as regras de segurança por parte das crianças durante todo o horário escolar.

Os agrupamentos de escolas não deveriam aceitar do Ministério da Educação a assunção dessa responsabilidade sem que lhe sejam dadas condições reais de assegurar a segurança das crianças e respetivos familiares, especialmente os mais velhos, que muitas vezes são os responsáveis por ir buscá-los à escola e guardá-los enquanto os pais não regressam dos seus empregos.

Têm surgido previsões de uma nova vaga de crescimento exponencial de infetados pelo vírus da Covid-19 no início do outono, que parecem começar a materializar-se se atendermos aos últimos relatórios da DGS respeitantes à evolução diária dos casos de infeção. Tal pode levar ao caos hospitalar que conseguimos evitar no início do ano e a preparação do novo ano letivo, com as orientações vagas, insuficientes e algumas mesmo inexequíveis do Ministério da Educação e da DGS, que apenas querem sacudir para cima das escolas a responsabilidade no caso de correr mal, não augura nada de positivo para os tempos que se avizinham.

Rui Edgar Costa
15/09/20
Ovar

*escreve com o novo acordo ortográfico

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