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Quero fazer rastreio ao cancro da próstata. O que me diz, Doutor?

Por Dra. Ana Rita e Silva

O cancro da próstata é um tema sensível, para os homens em geral – para as mulheres que os acompanham também será – uma vez que se trata de um dos cancros mais frequentes no homem em Portugal. Embora seja dos mais frequentes, o cancro da próstata não é o cancro mais mortal, ou seja, não é aquele que tem maior mortalidade para o homem.

O que é a próstata ?

É importante saber que a próstata é um pequeno órgão que faz parte do sistema reprodutor masculino, semelhante a uma noz, e que se encontra à frente do reto e sob a bexiga, sendo que a uretra passa através da próstata. Quando a próstata começa a aumentar de dimensões, quer por um aumento fisiológico da idade (Hiperplasia Benigna da Próstata) como por alterações malignas das células da próstata (Cancro da Próstata) ela pode não manifestar sintomas de todo ou pode levar ao aparecimento de sintomas urinários, nomeadamente dificuldade a urinar, urinar com mais frequência de dia ou de noite ou alterações no jato urinário. É por isso importante que, qualquer homem que tenha sintomas urinários, deve procurar o seu médico para que este lhe faça uma avaliação clínica.

O cancro da próstata, tal como outros cancros, tem fatores de risco, ou seja, quando estes fatores estão presentes, o homem incorre de maior probabilidade de vir a ter este tipo de doença. Para o cancro da próstata, estão comprovados fatores de risco não modificáveis como a idade (acima dos 50 anos de idade), hereditariedade/ genética (história de cancro da próstata na família, nomeadamente irmãos ou pai, presença de casos na família em idades jovens, presença de mutação BRCA2) e raça (mais frequente nos homens afrodescendentes). Também estão a ser estudadas possíveis relações entre cancro da próstata e a ingestão de carnes processadas, álcool, tabagismo, sedentarismo e obesidade, embora não haja evidência para dizer que a sua suspensão diminua o risco deste cancro.

Como é que sei se tenho cancro da próstata ?

Há cerca de 40 anos os diagnósticos eram realizados apenas quando o cancro manifestava sintomas, atualmente são na sua maioria das vezes diagnosticados em homens assintomáticos.

E porque é que isto acontece?

Aparte do exame clínico que é realizado em consulta, nomeadamente o toque retal, exame de extrema importância para caracterização da próstata, a grande viragem diagnóstica surgiu com o aparecimento do antigénio específico da próstata (PSA), um resultado que é fornecido através de colheita sanguínea. Esta enzima é secretada pelas células prostáticas e um aumento da próstata, independentemente da causa (traumatismo, inflamação, infeção, cancro), leva a um aumento do valor desta análise.

Por esta razão, por haver outras patologias que aumentam os níveis de PSA e este poder estar com valores ditos “normais” no cancro da próstata (especificidade e sensibilidade), há uma grande controvérsia do PSA como método de rastreio. Até à data, não foi encontrado um método clínico ou laboratorial que possa ser utilizado como rastreio populacional com impacto na sobrevida dos doentes no cancro da próstata. Contudo, deve falar com o seu médico para que haja um esclarecimento e uma abordagem específica ao seu caso clínico. No seu caso, pode beneficiar em ser realizado o toque rectal e/ou PSA.

Um aumento do PSA e/ou toque retal suspeito pode levar à necessidade de realização de outros exames complementares de diagnóstico, nomeadamente ecografia da próstata, ressonância magnética e biomarcadores aparte do PSA e que se encontram ainda em estudo; todos estes meios complementares de diagnóstico aumentam a suspeição de ter um cancro da próstata. Contudo, este diagnóstico é apenas realizado por biópsia ou por remoção do órgão em questão para caracterização celular.

Porque o objetivo de um tratamento médico é aumentar a esperança de vida e melhorar a qualidade de vida do paciente, continua-se a investigar a melhor forma de caraterização das alterações prostáticas, de forma a haver uma vigilância ativa de lesões menos agressivas sem que sejam instauradas intervenções que possam trazer complicações ao paciente.

Referências que pode consultar:

  1. Parker1 , E. Castro2 , K. Fizazi3 , A. Heidenreich4 , P. Ost5 , G. Procopio6 , B. Tombal7 & S. Gillessen8,9,10, on behalf of the ESMO Guidelines Committee. Prostate cancer: ESMO Clinical Practice Guidelines for diagnosis, treatment and follow-up. Annals of oncology. https://doi.org/10.1016/j.annonc.2020.06.011
  2. https://www.apdprostata.com/
  3. https://uroweb.org/guidelines/prostate-cancer/summary-of-changes

 

Ana Rita E. Silva, Médica de Família

USF João Semana – Ovar

 

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