A Murtosa não nasceu em 1926 – Por Paulo Amorim

Nasceu muito antes. Nasceu na sua gente, no trabalho das suas mãos, na relação profunda
com a Ria, na coragem de quem enfrentou as dificuldades de cada tempo e na identidade de
uma comunidade que foi construindo, ao longo de gerações, uma forma muito própria de
estar no mundo.
Nasceu nas suas tradições, na sua cultura, nas suas atividades económicas, na sua ligação à
água e à terra. Nasceu na vontade de uma população que, muito antes de conquistar a
autonomia administrativa, já sentia que tinha uma identidade própria e o direito de decidir o
seu destino.
Mas foi em 1926 que essa vontade se transformou numa realidade administrativa.
Foi nesse ano que a Murtosa conquistou a autonomia concelhia. E é por isso que hoje
celebramos cem anos de uma história institucional que não começou do nada, mas que tornou
possível escrever um novo capítulo na vida desta comunidade.
Celebrar o Centenário do Concelho é, por isso, muito mais do que assinalar uma data. É
reconhecer uma aspiração coletiva, homenagear aqueles que a defenderam e refletir sobre a
responsabilidade que hoje nos cabe perante a história e perante o futuro.
Porque um concelho não se constrói num dia, nem pertence a uma só geração. Constrói-se
ao longo do tempo, com determinação, trabalho e a participação de muitas pessoas, tantas
vezes anónimas, que acreditam que a sua terra pode ser melhor.
Uma aspiração que atravessou gerações
A autonomia da Murtosa não foi uma concessão sem passado. Foi o resultado de uma
aspiração antiga, de um caminho persistente e de uma vontade que não desapareceu perante
as dificuldades.
Já em 27 de abril de 1898 se discutia, nas Cortes, a possibilidade de a Murtosa alcançar a sua
autonomia administrativa, sendo representante de um possível projeto de lei o deputado Dr.
Barbosa de Magalhães. Esse momento representa uma etapa importante de uma caminhada
que haveria de prolongar-se por quase três décadas.
Ao longo desse percurso, houve homens que se empenharam na defesa dos interesses da sua
terra, que acreditaram na legitimidade da reivindicação e que não desistiram de procurar uma
solução.
Entre os nomes que a memória histórica nos deixou, importa evocar Albino R. Sebolão,
António Augusto V. Almeida, António M. M. Vilar, António Valente de Almeida, Filipe J.
Tavares, Francisco J. S. Vagueiro, João Valente de Almeida, Joaquim M. S. Gravato, Joaquim M.
S. Gravato Júnior, José Maria Barbosa, Manuel J. Cardoso Cunha, Manuel J. Lopes Pereira,
Manuel de Oliveira Ramos, Manuel M. Barbosa, Manuel M. R. Sebolão, Miguel V. A. Silva,
Padre Manuel J. Valente, Padre Rodrigo L. Tavares, António F. Matoso, António J. Pinho,
Joaquim Soares, José Maria Soares, Manuel Matoso, Tomaz Biker, João P. M. Vilar e Domingos
M. Matos.
Não terão todos participado da mesma forma, nem com a mesma intensidade, em todas as
etapas do processo. Alguns não chegaram sequer a assistir à concretização da autonomia, em
1926.
Mas a sua evocação recorda-nos uma verdade essencial: as grandes conquistas coletivas
raramente são obra de uma só pessoa ou de um único momento. São o resultado de
vontades que se acumulam, de esforços que se sucedem e de convicções que resistem ao
tempo.
Entre aqueles que assumiram particular relevância neste processo, importa destacar Domingos
Luís da Conceição, João Carlos Vaz da Cunha e o Dr. Carlos Barbosa, figuras que merecem um
lugar especial na memória da luta pela autonomia da Murtosa.
E importa igualmente recordar António Augusto Valente de Almeida, cuja intervenção pessoal,
num momento decisivo, ajuda a compreender como uma aspiração antiga pôde finalmente
transformar-se em realidade.
Nos dias 15 e 16 de outubro de 1926, deslocou-se a Lisboa para falar pessoalmente com o
ministro do Interior, Jaime Afreixo, procurando desbloquear o processo e alcançar uma
decisão favorável à autonomia concelhia.
Poucos dias depois, a reivindicação concretizava-se legalmente.
Os Decretos n.ºs 12 569 e 12 570, publicados em 30 de outubro de 1926, marcaram esse
momento decisivo. O primeiro determinou a separação da Murtosa e do Bunheiro do concelho
de Estarreja, constituindo um novo concelho com sede na Murtosa. O segundo integrou-se no
processo de organização administrativa que acompanhou essa nova realidade concelhia.
A Murtosa passava, assim, a dispor de um espaço próprio de decisão e de governação.
A autonomia não significava que todos os problemas estivessem resolvidos. Significava, antes,
que a comunidade passava a ter novos instrumentos para enfrentar os seus desafios, definir
prioridades e construir o seu próprio caminho.
E essa conquista merece ser recordada com respeito e gratidão.
Porque houve quem sonhasse a autonomia. Houve quem a defendesse. Houve quem lutasse
por ela. E houve quem, no momento decisivo, tivesse a determinação necessária para a tornar
realidade.
A todos devemos memória.
A todos devemos reconhecimento.
Cem anos de governação, cem anos de construção coletiva
Depois da autonomia, começou uma nova etapa: a de transformar a conquista administrativa
numa realidade concreta de desenvolvimento, de organização e de progresso.
Ao longo destes cem anos, a Murtosa conheceu diferentes tempos políticos, diferentes
circunstâncias económicas e sociais, diferentes desafios e diferentes formas de governação.
Passaram presidentes de comissões administrativas e presidentes da Câmara Municipal. Cada
um exerceu as suas funções num contexto próprio, com as possibilidades e as limitações do
seu tempo.
Recordamos António José de Oliveira Guerra, que presidiu à Comissão Administrativa entre
1926 e 1928; Júlio Ferreira Baptista, entre 1928 e 1929; e João Carlos Henriques Tavares de
Sousa, que exerceu funções entre 1929 e 1930 e, posteriormente, entre 1932 e 1935.
Recordamos António Augusto Valente de Almeida, entre 1930 e 1932, e José Tavares Afonso e
Cunha, que presidiu à Comissão Administrativa entre 1935 e 1937 e regressou à presidência da
Câmara entre 1959 e 1963.
Recordamos igualmente Frederico de Clamouse Browne Van Zeller, em 1937, e Apolinário da
Silva Portugal, que presidiu à Câmara entre 1937 e 1959.
Seguiram-se António Fernando de Sousa Tavares Cascais, entre 1963 e 1967; Celso Augusto
Baptista dos Santos, entre 1967 e 1969; Miguel Maria da Silva Portugal, entre 1969 e 1970; e
Manuel Leite de Almeida Baptista, entre 1970 e 1974.
Em 1974, num ano de profunda transformação política nacional, a presidência foi exercida por
Aurélio do Patrocínio Nunes, seguindo-se José Maria da Silva, à frente da Comissão
Administrativa entre 1974 e 1977.
Já no período democrático, António Joaquim Morais Tavares da Fonseca presidiu à Câmara
entre 1977 e 1985. Seguiram-se Manuel Cunha da Silva, entre junho e dezembro de 1985;
Manuel Maria Portugal da Fonseca, entre 1986 e 1990; e Augusto Carlos dos Santos Leite,
entre 1990 e 1998.
Importa também assinalar o exercício temporário da presidência por Domingos da Silva Lopes,
entre 4 de agosto e 1 de outubro de 1995, durante a suspensão do mandato de Augusto Leite.
Posteriormente, António Maria dos Santos Sousa presidiu à Câmara entre 1998 e 2011.
Joaquim Manuel dos Santos Batista assumiu funções entre 2011 e 2025. Desde 2025, a
presidência é exercida por Januário Vieira da Cunha.
Evocar estes nomes não significa esquecer as diferenças entre os seus mandatos, nem emitir
sobre todos o mesmo juízo histórico. Significa reconhecer a continuidade de uma instituição
que atravessou um século e que, em cada período, foi chamada a responder às necessidades
da população.
Mas há algo que importa sublinhar: a história da Murtosa não é apenas a história dos seus
presidentes.
É também a história dos vereadores, dos membros das assembleias municipais, dos
presidentes e membros das juntas de freguesia, dos trabalhadores do município e das
instituições que, diariamente, contribuíram para o funcionamento da comunidade.
É a história das associações, dos clubes, das coletividades culturais, recreativas e desportivas,
das instituições de solidariedade social, das escolas e de todos aqueles que, muitas vezes sem
reconhecimento público, fizeram acontecer aquilo que hoje consideramos parte da nossa vida
coletiva.
É a história dos pescadores e dos agricultores, dos trabalhadores e dos empresários, dos
comerciantes, dos professores, dos profissionais de saúde, dos voluntários e de tantas outras
pessoas que, através do seu trabalho, ajudaram a construir a Murtosa.
É também a história de quem partiu à procura de melhores oportunidades, sem nunca deixar
de transportar consigo a ligação à sua terra.
E é a história das famílias que aqui criaram raízes, educaram os seus filhos e transmitiram, de
geração em geração, o sentimento de pertença a esta comunidade.
A todos pertence este Centenário.
Porque um concelho não é apenas o seu território, os seus edifícios ou os seus órgãos
autárquicos. Um concelho é, acima de tudo, a sua gente.
Uma identidade que nos distingue
Ao longo destes cem anos, a Murtosa foi mudando. Mudaram as atividades económicas, os
modos de vida, as acessibilidades, as necessidades das famílias e as expectativas das novas
gerações.
Mas há elementos que permanecem e que continuam a definir a nossa identidade.
A Ria de Aveiro é um deles. Não apenas como paisagem, mas como espaço de vida, de
trabalho, de cultura e de memória. A relação dos murtoseiros com a água moldou profissões,
hábitos, saberes e tradições que fazem parte da nossa identidade coletiva.
Os moliceiros, a arte da construção naval, as atividades ligadas à Ria, a gastronomia, as
tradições populares e o património natural constituem uma riqueza que não pode ser
entendida apenas pelo seu valor turístico ou económico.
São testemunhos de uma forma de viver e de uma relação singular entre as pessoas e o
território.
Preservar essa identidade não significa imobilizar a Murtosa no tempo. Significa reconhecer
aquilo que nos distingue e encontrar formas de o valorizar num mundo em permanente
transformação.
O desafio está precisamente aí: conservar sem cristalizar, inovar sem descaracterizar,
desenvolver sem destruir aquilo que torna a Murtosa única.
E esse desafio é ainda mais importante quando pensamos no futuro das nossas quatro
freguesias, na coesão do território e nas oportunidades que queremos criar para todos os que
aqui vivem.
O Centenário como compromisso com o futuro
Um centenário convida-nos, naturalmente, a olhar para trás. E temos razões para o fazer com
orgulho.
Mas uma comemoração desta dimensão não pode limitar-se à evocação do passado. Deve
também constituir um momento de reflexão sobre o presente e de compromisso com o
futuro.
Celebrar cem anos de autonomia não significa considerar concluída a obra iniciada em 1926.
Significa reconhecer que recebemos uma herança, mas que essa herança não nos pertence em
exclusivo. Cabe-nos cuidar dela, valorizá-la e, sobretudo, preparar o futuro.
A pergunta que devemos fazer neste Centenário não é apenas o que fomos ou o que
conseguimos construir.
É também esta:
Que Murtosa queremos ser nos próximos cem anos?
Queremos um concelho que preserve a sua identidade, sem ficar prisioneiro do passado.
Que valorize o seu território, sem desperdiçar as suas oportunidades.
Que cuide das suas pessoas, sem deixar ninguém para trás.
Que crie condições para que os jovens possam estudar, trabalhar, viver e constituir família na
sua terra.
Que saiba aproveitar as suas potencialidades económicas, culturais e ambientais, criando
emprego, atraindo investimento e promovendo um desenvolvimento sustentável.
Que tenha serviços públicos próximos das pessoas, instituições fortes e uma comunidade onde
a participação cívica não seja apenas desejada, mas efetivamente valorizada.
Queremos uma Murtosa que saiba ouvir, dialogar e encontrar respostas para os problemas
concretos da população.
Uma Murtosa capaz de respeitar o seu passado, enfrentar com coragem os desafios do
presente e preparar, com ambição e responsabilidade, o seu futuro.
Este compromisso não pertence a uma força política, a um executivo municipal ou a uma
geração. É uma responsabilidade coletiva.
As diferenças de opinião, as perspetivas distintas e o debate democrático fazem parte da vida
de uma comunidade viva. O essencial é que saibamos colocar o interesse público acima das
conveniências do momento e reconhecer que o futuro do concelho é maior do que qualquer
mandato.
Porque os mandatos passam. As maiorias mudam. Os responsáveis autárquicos sucedem-se.
Mas a Murtosa permanece.
E cada geração é chamada a fazer a sua parte.
Uma herança que temos de merecer
Há uma ideia que gostaria de deixar neste momento de celebração.
Nenhuma geração é proprietária da sua terra. Somos apenas depositários de uma herança.
Recebemos a Murtosa daqueles que a sonharam.
Recebemos a Murtosa daqueles que lutaram pela sua autonomia.
Recebemos a Murtosa daqueles que, ao longo de cem anos, trabalharam, construíram,
cuidaram e acreditaram.
Recebemos um território com uma identidade própria, uma comunidade com uma história
singular e um património que temos a obrigação de preservar e valorizar.
Agora, cabe-nos a nós.
Cabe-nos cuidar do que recebemos, corrigir o que ainda não está bem, aproveitar as
oportunidades que temos pela frente e criar condições para que as gerações futuras
encontrem aqui razões para permanecer, regressar e construir os seus projetos de vida.
Não nos basta dizer que temos orgulho na nossa terra. Temos de demonstrá-lo nas decisões
que tomamos, nas prioridades que definimos, na forma como cuidamos do território e na
atenção que damos às pessoas.
Não nos basta celebrar os que vieram antes de nós. Temos de estar à altura do exemplo que
nos deixaram.
E não nos basta falar do futuro. Temos de começar a construí-lo hoje.
Porque o verdadeiro significado de um centenário não está apenas em celebrar os cem anos
que passaram. Está em merecer os cem anos que virão.
Concluindo
Em 1926, a Murtosa conquistou a sua autonomia concelhia. Foi uma conquista que resultou de
uma longa aspiração e da determinação de homens que acreditaram que a sua terra tinha o
direito de decidir o seu próprio caminho.
Cem anos depois, cabe-nos honrar essa conquista.
Honrá-la preservando a nossa identidade.
Honrá-la reconhecendo todos aqueles que contribuíram para a nossa história.
Honrá-la cuidando da nossa comunidade e do nosso território.
Honrá-la, sobretudo, construindo um concelho com mais oportunidades, mais coesão, mais
qualidade de vida e mais confiança no futuro.
Que saibamos receber esta herança com gratidão, cuidar dela com responsabilidade e entregá-
la às gerações seguintes ainda mais rica, mais forte e mais preparada para os desafios do seu
tempo.
Porque a Murtosa não nasceu em 1926.
Mas, em 1926, conquistou o direito de decidir o seu próprio caminho.
E a nossa responsabilidade é garantir que esse caminho continue a ser percorrido com
dignidade, ambição e esperança.
Receber. Cuidar. Transformar. Entregar.
Que estas quatro palavras traduzam o compromisso da nossa geração com a Murtosa.
Que saibamos honrar a nossa história.
Que saibamos estar à altura do nosso presente.
E que saibamos preparar o futuro.
Viva a Murtosa!
Viva quem a sonhou, quem a construiu e quem continua a construí-la!
E viva, sobretudo, a Murtosa que ainda está por construir!

Paulo Teixeira de Amorim
29 de outubro de 2026




