A Colheita das Sombras (I) – Por Edgar Branco

A noite dos horrores também tem lugar aqui, nesta cidade encolhida, de ruas estreitas e
becos sombrios, onde as sombras parecem estender-se mais do que deviam. Uma cidade
que ofusca sensações e desejos, onde os dias passam lentos e as noites pesam nos
ombros dos que se atrevem a desafiar o silêncio. Ovar, com as suas esquinas desgastadas
pelo tempo, é uma terra de histórias antigas, de segredos murmurados e de regras não
escritas que todos conhecem, mas poucos ousam desafiar.
À beira do mercado de Ovar, ergue-se um espaço peculiar, uma estrutura antiga que pulsa
com a vida da cidade durante o dia. Um mercado onde se pode comprar quase tudo: frutas
frescas, peixe acabado de chegar do mar, pão ainda quente e os queijos gordurosos que
enchem de aroma os corredores. Um espaço meticulosamente organizado, onde os
vareiros se juntam, cumprimentam-se, trocam palavras sobre a vida, os negócios, as
colheitas, os filhos. Há barulho, há movimento, há o cheiro inconfundível do mercado vivo.
Mas, quando o sol mergulha no horizonte e o dia se rende à noite, tudo muda. O burburinho
transforma-se em silêncio absoluto. As luzes apagam-se. As bancas ficam vazias, os
corredores tornam-se sombras alongadas e as estruturas de metal e madeira parecem
esqueletos à espera de algo para devorar. O mercado, outrora vibrante, torna-se um
labirinto de espaços vazios, escadas sem destino, caminhos largos que se estreitam em
passagens sufocantes. É um sítio de ecos e murmúrios fantasmagóricos.
Não há som. Não há alma viva.
E no entanto… há sempre alguém que entra.
Nem todos respeitam a fronteira invisível que separa o mercado do resto da cidade quando
a noite cai. Alguns saltam os muros, atravessam as cancelas enferrujadas, escondem-se
entre os corredores desertos, exploram os recantos escuros como se procurassem algo que
não sabem nomear. São jovens que buscam emoção, aventureiros inconscientes, ou talvez
apenas aqueles que não acreditam nas histórias contadas pelos mais velhos.
Hoje é sexta-feira 13.
E em Ovar, nesta noite específica, há uma regra conhecida por todos.
Não se sai depois das dez da noite.
(Continua)





