Máscara Sem Elásticos (I) – Por Edgar Branco

A noite já vai longa. Escura, fria, seca — uma daquelas noites de inverno que carregam um brilho especial no ar. É a Noite Mágica, a mais emblemática celebração do Carnaval de Ovar.
Esta é uma noite única, um ritual noturno de participação popular, considerada por muitos o coração pulsante do Carnaval vareiro. Realizada no centro da cidade, entre o corso de domingo e o de terça-feira, atrai, ano após ano, milhares de visitantes, mais de cerca de cem mil foliões.
Gente de todas as idades, um verdadeiro rio humano a desaguar em festa — disfarçando as rotinas do dia-a-dia com adereços no corpo e máscaras no rosto. Nessa noite, todos podem ser o que quiserem. Ou o que nunca ousaram ser.
A Noite Mágica vive de encontros e encontros. Os mascarados espalham-se por cada recanto do centro histórico. Muitos escolhem as suas fantasias de forma leve e improvisada, mas há também quem planeie ao detalhe — meses antes — o que vestir. Diversos grupos organizam-se em temas e vestem-se a preceito. Há até escolas de samba e grupos carnavalescos que criam disfarces apenas para esta noite, diferentes dos que usam nos desfiles oficiais.
As ruas estão fechadas ao trânsito. Só há espaço para a multidão — uma cidade entregue às pessoas, às gargalhadas, ao improviso.
Os papéis invertem-se: padeiros viram polícias, bombeiros viram trolhas, médicos vestem-se de padres, vilões tornam-se heróis, homens mascaram-se de mulheres, e tudo se desfaz e refaz ao sabor do riso. Ovar inteira parece viver uma mentira boa — feita de brilho, disfarce, alegria contagiante, barracas de comida, copos na mão e ânimo nos olhos.
Mas nem todos vivem a noite assim.
Numa das muitas ruas por onde passa o êxtase da multidão, existe uma viela quase vazia. Um corredor de silêncio em pleno furacão de euforia. E ali, nesse contraste absurdo, caminha um homem.
Sozinho, a chorar.
Perdido entre a festa e o vazio, vai em frente como quem não sabe para onde ir.
– Que ódio, que tristeza… porquê? Porquê tem de ser sempre assim? – murmura, entte soluços,
como se cada palavra saísse carregada de peso antigo.
Edgar Branco



